Com acesso aberto, estabilidade, revisão por pares e sem APCs: os “wiki-periódicos”

Imagem: 
File:WikiJournal of Science publishing pipeline (wiki first).svg  
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:WikiJournal_of_Science_publishing_pipeline_(wiki_first).svg

Sério: eu não sabia o que era “wiki”, embora soubesse da Wikipedia e da Wikicommons.  Na verdade nunca tinha pensado em “wiki” como algo diferente de uma marca, algo já registrado como propriedade intelectual. A Wikileaks atrapalhava esse entendimento, mas … Até que ontem me deparei com os wikijournals.

Afinal, que é ‘wiki’?

Dei um Google (ou teria googlado?) e encontrei a resposta num artigo de Sérgio Rodrigues publicado na revista  Veja em 2012:

No mundo da computação, wiki passou a ser usado como nome genérico de websites colaborativos, ou seja, aqueles cujo conteúdo pode ser modificado pelo usuário. O termo foi criado em 1994 pelo programador americano Ward Cunningham, que desenvolveu o primeiro software wiki e o batizou de WikiWikiWeb. Note-se que as iniciais dialogam com o www de world wide web (rede mundial de computadores), mas Cunningham garante que sua inspiração foi mais prosaica: limitou-se a copiar o nome dos ônibus expressos do aeroporto de Honolulu, Wiki-Wiki, uma expressão regional havaiana que significa “rapidinho”. 

Depois descobri um longo artigo “Wiki” na própria Wikipedia, com um enorme histórico de modificações desde 2003.

Os periódicos wiki

Os períódicos wiki surgem em integração com a Wikipedia com o objetivo explícito de aumentar “the accuracy of the encyclopedia, and rewards authors with citable, indexed publications with much greater reach than traditional scholarly publishing”  (WikiJournal User Group). No momento há quatro títulos: WikiJournal of Humanities;  WikiJournal of Medicine; WikiJournal of Science; WikiJournal Preprints

Wikigroup

A imagem em destaque é de  Mikael Häggström 
(Own work, based on:From Pixabay, Public Domain.,CC BY 4.0, 
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=49038393. 
Está descrita como "a lightbulb, symbolizing the creation of ideas 
latitude and longitude stripes around the lightbulb, 
symbolizing a global scope".

Um exemplo extraído do periódico voltado para a área de Humanas é o longo artigo  A grammatical overview of Yolmo (Tibeto-Burman), em que  Lauren Gawne (Dept, de Línguas e Linguística, Universidade La Trobe, Austrália) é o autor (mas  o  et alii nos lembra que o material é, por definição, colaborativo). Pode ser lido no formato já conhecido do material da Wikipedia ou em pdf.

A iniciativa é mais um passo na integração da Wikipedia com a educação. Uma visão de como essa  integração já ganhou terreno de 2001 a 2016 pode ser lida em 15 years of Wikipedia and education.


 

 

 

 

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A Revista da ABRALIN adota a taxonomia CRediT/Contributor Roles Taxonomy (Taxonomia das Funções do Colaborador)

Em agosto de 2018 informávamos da adoção da taxonomia CRediT pela Scielo (Quem é o autor do trabalho afinal? Decisões sobre coautoria). Não obstante o número de autores por artigo em Linguística no Brasil estar, em geral,  em torno de dois ou três e de algumas revistas da área ainda trazerem instruções que remetem ao autor único, agora é a vez da revista da ABRALIN/ Associação Brasileira de Linguística adotar o CRediT .

Os trabalhos com mais de um autor submetidos à Revista da ABRALIN deverão indicar a atribuição dos seguintes papeis:  Conceptualização –  Curadoria de Dados –  Análise Formal – Aquisição de Financiamento – Investigação – Metodologia –  Administração do Projeto –  Recursos – Software –  Supervisão –   Validação –   Visualização –  Escrita –  Escrita 

Sai o autor, entra em cena o colaborador

Como recentemente apontou Alex Holcombe, a atribuição de autoria em muitos periódicos leva em conta a definição de autor do ICMJE/ International Committee of Medical Journal Editors que não tem lugar para muitos tipos de colaboração necessários ao desenvolvimento de pesquisas.

No caso da Revista da ABRALIN, a inovação no estabelecimento da autoria/colaboração vem juntar-se à revisão por pares aberta, anunciada recentemente e os dados abertos. Será muito interessante, portanto, acompanhar a implantação desse modelo na área da Linguística brasileira.

 

Informações: http://www.abralin.org/circulares/rabralin/CRediT.pdf

Holcombe, Alex. 2019. Farewell authors, hello contributors. Nature 571, 147 (05Jul2019)  https://www.nature.com/articles/d41586-019-02084-8

 

E se esse texto nunca foi citado?

É uma anedota na vida acadêmica  que um texto não citado é um episódio de fracasso. Ninguém leu? Não despertou interesse? Irrelevante, então. (Tem-se aqui em conta a citação feita por outros pesquisadores, de outros grupos de pesquisa, não a autocitação). Mais ou menos a mesma sensação que sentimos quando o livro que consultamos na biblioteca tem a ficha em branco. Bom, a foto que ilustra este texto é um indício de que essa visão é um tanto simplista.

Num mundo em que as citações são contabilizadas e lançadas no curriculum vitae, em que pontuam os pedidos de progressão ou promoção é previsível que todos os pesquisadores queiram um índice-h igual a 18 — e reconhecimento em vida.  Mas isto não equivale a dizer que se um texto não recebeu citações ao longo de cinco,  dez anos é porque é trabalho sem valor.

O impacto de  um trabalho durante o tempo de vida do autor pode enfrentar dificuldades completamente alheias à qualidade — problemas que vão da censura à língua em que um texto foi escrito.

 

[Post 1] [Post 2] [Post 3] [Post 4] [Post 5]


 

Van NOORDEN, Richard. 2017.  The science that’s never been cited. Nature Briefing, 13Dez2017. https://www.nature.com/articles/d41586-017-08404-0

Citações e referências: posso citar a mim mesm@?

Eu ainda estava no Doutorado e numa conversa com o saudoso Carlos Franchi (1932-2001) no prédio da Praia Vermelha — onde tínhamos assistido a uma palestra do também saudoso Fernando Tarallo (1951-1992) —  ouvi do Prof. Franchi que não citava trabalhos dele mesmo. Aquela conversa ficaria na minha memória, junto com as palavras de Rodolfo Ilari na homenagem póstuma ao amigo: “a vontade de pesquisar com humildade” (Ilari, 2002: 87).

Tornei a lembrar-me dessa conversa por estes dias: um estudo sobre um corpus de 100 mil pesquisadores muito citados mostrava que 250 deles, em pelo menos 50% das vezes em que foram citados, haviam citado a si ou recebido citação de seus co-autores; em alguns dos casos, em 94% das citações.

Os tempos mudaram desde aquela conversa. Um pesquisador como o Prof. Franchi, cuja produção foi “altamente informal, tendo preferido a exposição em seminário ao impresso, e o working paper ao livro” (Ilari, 2002: 85), hoje seria forçado não só a publicar mais (o que nos faz lembrar da anedota de que Saussure atualmente não conseguiria lugar num programa de pós-graduação em Linguística porque não publicava — a respeito desse saussureano “horreur d’écrire”, ver Piller, 2013, texto já mencionado neste blogue), mas também a demonstrar o impacto de sua pesquisa pela contabilização de referências, de quantificação mais fácil que o respeito acadêmico e a influência sobre  alunos e colegas.

Ao  longo das últimas décadas aumentou o número de grupos de pesquisa e, em paralelo, houve aumento no número de trabalhos referidos num artigo, não importa de que área. Nas Ciências Sociais, por exemplo, se na década de 1960 o número médio de citações por trabalho estava um pouco abaixo de 10 títulos, em 2015 a média já chegava a 50 (Van Noorden, 2017). Em 2005 surgia o índice-h, uma medida do impacto das pesquisas que toma por base as citações. E assim as citações entraram no cv Lattes, passaram a pontuar pedidos de progressão na vida acadêmica…

Deixando de lado por enquanto os maus usos das auto-referências, em que situações citar/referir nosso próprio trabalho chega mesmo a ser necessário? Afinal, o mesmo estudo apontava 12,7 % como valor médio de auto-citações.

Em primeiro lugar, em razão da continuidade da pesquisa: se estamos voltando a material que já publicamos — e, como aconselha o Prof. Ataliba de Castilho, especialmente se mudamos de ideia em relação a trabalho que publicamos no passado — temos de referir o que publicamos anteriormente. Em segundo lugar, se utilizamos material nosso anteriormente publicado, para evitar acusações de autoplágio (COPE, 2019,Legitimate Reasons for Self-Citation). Este segundo motivo era desconhecido até bem pouco tempo  e nem mesmo sua denominação era encontrada em português.

Sobre autoplágio, neste blogue:
Autoplágio ou reciclagem textual -1 
Autoplágio ou reciclagem textual -2

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COPE/ Committee on Publication Ethics. 2019. Citation Manipulation. COPE Discussion Document, Version 1: July 2019. https://publicationethics.org/files/COPE_DD_A4_Citation_Manipulation_Jul19_SCREEN_AW2.pdf

Hirsch, J. E. 2005. An index to quantify an individual’s scientific research output.

Ilari, Rodolfo. 2002. Humildade na pesquisa para construir o futuro. Revista do GEL/ Grupo de Estudos Linguísticos do Esta do de São Paulo. Número Especial.  “Em memória de Carlos Franchi (1932-2001), 2002, nº 0. São Paulo: Contexto. p. 83-87 https://revistas.gel.org.br/rg/article/download/178/154 

Piller, Ingrid. 2013. Saussure, the procrastinator. Language on the Move, 30Out2013. https://www.languageonthemove.com/saussure-the-procrastinator/
Van Noorden, Richard. 2017.  The science that’s never been cited. Nature Briefing, 13Dez2017. https://www.nature.com/articles/d41586-017-08404-0
Van Noorden, Richard &  Chawla, Dalmeet Singh. 2019. Hundreds of extreme self-citing scientists revealed in new database. Nature Briefing, 19Ago2019

https://www.nature.com/articles/d41586-019-02479-7

Autoplágio ou reciclagem textual – 1

Autoplágio é termo recente que vem sendo definido como a republicação de um trabalho no todo ou em parte, pelo autor, sem que se informe ao leitor da publicação anterior — em suma: apresenta-se como novo algo que não é novo. Daí a denominação alternativa reciclagem textual.

Pode causar estranheza considerar essa uma atitude censurável: afinal, plágio diz respeito a lançar mão do trabalho de outrem como se fosse próprio. Por que, então, reapresentar um trabalho próprio é considerado má conduta?

Esse comportamento é problemático se revela a intenção de inflacionar a produção no próprio cv, mas também se incorre em problemas ligados a copyright.

[Continua]

[Parte 1] [Parte 2]

3 – E como decido para onde mando meu trabalho?

Numa postagem anterior afirmei que, quando um aluno me pergunta onde publicar um artigo, “em geral lhe respondo que preferencialmente procure periódicos acadêmicos com revisão por pares e alto fator de impacto  (FI) – e, lógico, que tenha relação com o tema do artigo“. É a resposta rápida, automática, mas afora a última parte, ela não ajuda muito.

Vamos então agora responder mais devagar, levantando alguns pontos a serem verificados quando da escolha de um periódico para submissão de trabalhos.


A revista aceita trabalho de quem não é Doutor?  

Em princípio a qualidade do trabalho é que deveria contar na submissão, mas a avaliação da pós-graduação brasileira pela CAPES acabou gerando um efeito colateral inesperado.

Até recentemente documentos da CAPES para a avaliação dos programas de pós-graduação da Área de Letras e Linguística recomendavam que fossem colocados nos estratos mais altos do Qualis Periódicos (A1, A2 e B1) aqueles com “artigos de alta qualidade, preferencialmente escritos por doutores no Brasil ou no exterior, com efetiva contribuição científico-acadêmica para a Área” (ver, por exemplo, Comunicado 001/2011 – Área Letras e Linguística).

Paiva (2015: 9), numa mesa-redonda no 30º Encontro Nacional da ANPOLL/ Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística, chamava a atenção para o fato de que “preferencial não significa proibição“; na prática, porém, foi o que significou. Com isso vem sendo difícil um pós-graduando publicar sozinho um trabalho no Brasil.

Na avaliação de 2017 essa recomendação não estava mais presente (ver Considerações sobre Qualis Periódicos Letras / Linguística), o que deve começar a alterar essa situação.

Exemplos quanto a esse aspecto da política editorial. 
A Revista da Abralin:
Serão aceitos artigos de doutores, doutorandos e mestres; 
e de graduandos, graduados e mestrandos, 
quando em coautoria com mestres, doutorandos ou doutores. 

A Revista da ANPOLL:
a) os autores deverão ter título de doutor ou 
estar cursando o doutorado;
b) autores com título de graduação ou de mestrado, 
bem como mestrandos poderão apresentar trabalhos como coautores, 
desde que ao menos um dos autores do trabalho 
preencha o critério descrito no item a.

A revista Ilha do Desterro:
Works that have at least one doctorate are accepted. 
PhD Candidates can submit articles without doctors as co-authors, 
provided he/she sends us an advisor's letter 
explaining the reasons for his/her absence.
Masters and Master students can submit articles 
co-authored by PhD researchers. 
The Editorial Board understands that 
the supervision of students should be explicit, 
and should not be taken as co-authors. 
Derived from Master`s or Doctoral`s research 
articles should include the supervisor`s name in a footnote, 
and not as co-author. 
An exception is made for reviews, 
doctoral students` reviews are allowed.

2  Publiquei meu trabalho como preprint numa plataforma. Ainda posso mandar esse trabalho para uma revista?

Algumas revistas aceitam, outras consideram preprint como publicação prévia do trabalho.

3  A revista segue boas práticas editoriais?

Por que deveríamos considerar o envio de trabalho para um periódico de que tomamos conhecimento por spam? Ou para uma revista de que se diz, no meio acadêmico, que tem como critério de aceitação  o pagamento de uma ou mais taxas?

Ter o nome ligado a práticas questionáveis não é bom — e alegar que essas publicações podem ser úteis para melhorar o currículo quando se  está começando a vida acadêmica é um mau começo .

Como membro de um programa de pós-graduação, arrolar publicações desse tipo implica criar uma dor de cabeça para o coordenador, porque cada artigo desses recebe zero justificado na avaliação da CAPES:

Enquadra-se no estrato C o periódico que não atende às boas práticas editoriais, tendo como padrão referencial os critérios disponíveis na COPE* (publicationethics.org), e/ou não atende aos critérios dos estratos de A1 a B5. (Considerações sobre Qualis Periódicos Letras / Linguística).

*COPE-  Committee on Publication Ethics 

Para decidir onde publicar não é preciso verificar se o título consta de uma relação como aquela que ficou conhecida como a lista de Beall, que foi tirada do ar, ou alguma daquelas que foram propostas em seu lugar.

Para decidir onde publicar, melhor tomar outro caminho, mais simples: o de fazer a própria  lista a partir das revistas em que foram publicados os artigos lidos e citados. Se for uma revista de AA/Acesso Aberto, depois de escolher a revista é relativamente simples verificar se está numa base como a Scielo, por exemplo;  se está no DOAJ/ Directory of Open Access Journals 

4 E se a revista considerada para publicação não está no Qualis?

Isso significa que nos programas ainda não se registrou qualquer publicação nesse veículo.

Uma nota. No dia 10 de outubro passado, a CAPES aprovou um documento que propõe mudanças na avaliação da pós-graduação. Entre elas está uma reestruturação do Qualis:

Proposta: uma análise geral do QUALIS das áreas
de forma a criar critérios, de um lado,
mais homogêneos de qualificação dos veículos de comunicação 
da produção científica, e de outro, 
uma reflexão mais profunda acerca da aplicação em geral 
do fator QUALIS em áreas como Ciências Humanas e Engenharias. 
Uma das possibilidades seria a fusão de vários dos QUALIS atuais 
gerando grandes QUALIS a serem usados por mais de uma Área. 
Isso permitiria separar a Avaliação 
em três ou quatro conjuntos de QUALIS.

5 E se a revista acaba de ser criada?

  • Tem ISSN  (International Standard Serial Number ou  Número Internacional Normalizado para Publicações Seriadas)?  Se não tem, melhor desconsiderar, porque será difícil demonstrar que  ela existe.
  • Como tomou conhecimento dela? Pelo Orientador? Num encontro da Área? Numa lista de discussão de Linguística (por exemplo, Linguist List, Etnolinguística, Fonetiks) ou em redes sociais relacionadas? Ou por spam?

Se tenho de pagar para o artigo ser publicado é porque a revista é potencialmente predatória?

Não, como se viu no preçário publicado em postagem anterior.

7 A revista é famosa; o trabalho foi aceito: preciso pagar e cumprir o embargo. E aí?

Essas revistas podem impulsionar uma carreira e é por isso que são por vezes referidas como “revistas de luxo” ou “revistas glamurosas”, com taxas de rejeição de artigos que ultrapassam os 90% (Barata, 2010).

São revistas para assinantes publicadas por grandes grupos editoriais. Com o crescimento do movimento por AA, algumas dessas revistas ficaram híbridas, permitindo AA (em geral com uma sobretaxa cobrada do autor), colocando um período de embargo para os artigos entrarem em AA; ou criaram novas revistas em AA que, segundo esses grupos, sustentam as revistas já tradicionais com as taxas a serem cobradas dos autores, como informado na nota a seguir, da revista Science:

Science and many other subscription journals have adopted a policy of making research papers freely available after 12 months; at the same time, many publishers have launched scores of new open-access journals, which charge authors a fee. For instance, the publishers of Nature, another high-profile subscription title that is considered Science’s main competition, in 2011 launched Scientific Reports, an open-access title. ( Kaiser & Malakoff, 2014)

Em matéria publicada no The Guardian, Randy Schekman, que recebeu o Nobel de Medicina em 2013, ele próprio editor de uma revista de AA, eLife, comparou os índices de rejeição dessas revistas de luxo às coleções limitadas no mundo da moda:

These journals aggressively curate their brands, in ways more conducive to selling subscriptions than to stimulating the most important research. Like fashion designers who create limited-edition handbags or suits, they know scarcity stokes demand, so they artificially restrict the number of papers they accept. The exclusive brands are then marketed with a gimmick called “impact factor” – a score for each journal, measuring the number of times its papers are cited by subsequent research

Neste caso de altos pagamentos com ou sem restrição de acesso, eu introduziria alguns elementos para consideração. Vejamos.

Depois de se dedicar por um longo tempo a um determinado estudo, ao tentar tornar públicos seus achados, um pesquisador:

  • passará os direitos de autor para uma editora e não receberá um centavo por isso;
  • ficará proibido de compartilhar  seu trabalho em plataformas como Research Gate ou Academia.edu;
  • ficará proibido de reutilizar tabelas, esquemas, ilustrações presentes nesse trabalho sem autorização do editor (o que em geral envolve pagamento);
  • ao enviar para o repositório de sua instituição (que lhe deu as condições para que o estudo se desenvolvesse)  terá de avisar a duração do período de embargo para permitir o acesso ao texto, período que pode alcançar 24 meses; nesse meio tempo o acesso estará reservado a quem pagou a assinatura.
  • depois de 24 meses a divulgação do artigo ainda gerará interesse que justifique o investimento financeiro? Afinal, a todas as restrições à divulgação do seu trabalho o pesquisador deverá somar uma quantia acima do milhar de dólares.
Mesmo que a revista glamurosa tenha AA (em geral,
com pagamento de sobretaxa), qual a vantagem para o pesquisador? 
Certamente é uma decisão individual. 

8  Só essas revistas famosas publicam trabalhos de peso?

Um trabalho numa dessas revistas não significa que é excepcional. Além de não serem o único veículo de boa pesquisa, tais publicações não estampam apenas boa pesquisa. Se assim fosse, não apresentariam retratações.

O quadro a seguir, publicado em Retraction Watch , arrola números para o período 2006-2011 de quatro periódicos famosos:

Retractions luxury journal 2006-2011
Retratações em quatro periódicos de alto fator de impacto no  período 2006-2011 

Se esses periódicos rejeitam mais de 90% das submissões, se os trabalhos são avaliados por pares (peer reviewed) com  critérios rígidos, como se chega a uma retratação? Mas isso já é assunto para outra postagem.

 


Referências

Barata, Germana. 2010. O que podemos aprender com editores de periódicos de alto impacto? Índice de rejeição de artigos chega a 94%. Agencia de Notícias para a Difusão da Ciência e Tecnologia (DiCYT), 4Set2010. http://www.dicyt.com/noticia/o-que-podemos-aprender-com-editores-de-periodicos-de-alto-impacto

CAPES/ Diretoria de Avaliação. 2011. Comunicado 001/2011 – Área Letras e Linguística. Proposta de critérios para  classificação dos periódicos da Área de Letras e Linguística.  https://capes.gov.br/images/stories/download/avaliacao/Comunicado_001_2011_Letras.pdf

Kaiser,  Jocelyn & Malakoff , David. AAAS Launches Open-Access Journal.  http://www.sciencemag.org/news/2014/02/aaas-launches-open-access-journal

Paiva, Vera Lúcia Menezes de Oliveira e. 2015. Avaliação da Pós-Graduação: publicações e projetos de pesquisa. In: ANPOLL. 30º Encontro Nacional da ANPOLL 2015.  http://anpoll.org.br/eventos/enanpoll2015/wp-content/uploads/2014/12/VeraFinal.pdf

Retraction Watch.  Cell, Nature, Science boycott: What was Randy Schekman’s tenure at PNAS like? 11Dez2013. http://retractionwatch.com/2013/12/11/cell-nature-science-boycott-what-was-randy-schekmans-tenure-at-pnas-like/

Schekman, Randy. How journals like Nature, Cell and Science are damaging science. The Guardian,  9Dez2013  https://www.theguardian.com/commentisfree/2013/dec/09/how-journals-nature-science-cell-damage-science

Wikipedia contributors. (2018, September 23). Beall’s List. In Wikipedia, The Free Encyclopedia. Retrieved 00:57, September 27, 2018,   from https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Beall%27s_List&oldid=860896300

Wikipedia contributors. (2018, September 17). Schön scandal. In Wikipedia, The Free Encyclopedia. Retrieved 13:10, September 28, 2018, from https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Sch%C3%B6n_scandal&oldid=860006154

[Parte 1] [Parte2] [Parte 3]

 

 

2 – Vale a pena publicar nessa revista?

Um excerto como

Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are.

claramente não parece saído da obra de um especialista. E de fato não saiu: foi escrito por uma criança de sete anos como trabalho escolar. Os morcegos são muito legais mesmo.

Alexandre Martin (University of Kentucky) diagramou com LaTex esse texto, de seu filho,  e o enviou para o International Journal of Comprehensive Research in Biological Science*, um periódico científico potencialmente predatório segundo a então existente lista de Beall. Procurava demonstrar como é fácil publicar num desses periódicosRearrumado em acordo com as partes canônicas dos artigos científicos (abstract, palavras chaves, introdução, resultados, discussão dos resultados e conclusão), foi aceito.

Mas vamos ao abstract:

Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are“.

Vamos à introdução:

“Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo (see Fig. 1) that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are“.

Bats FigB

Vamos à conclusão:

“Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are“.

A filiação do autor a uma “elementary school” não foi omitida. Poderia ser um professor dessa escola? A leitura do texto deixa claro que não.

Alexandre Martin disponibilizou em imagens o processo de transformação do texto, da aceitação do manuscrito às provas recebidas do editor. Surge então um outro aspecto grave no processo: as melhorias introduzidas no artigo pelo editor eram cópia exata de trechos de dois trabalhos publicados, em 2001 e em 2002, embora o editor não tenha dado ciência disso ao autor (e por que um especialista precisaria de conteúdo adicionado pelo editor?).

Assim, o trabalho escolar do menino que achava os morcegos legais transformava-se em “Review Article”;  para ser publicado, porém, era exigida a quantia de US$60. Não foi paga, porque  “that last step would have transformed a harmless case-study into a case of severe academic offense” (p.302) e porque “there was no need to potentially tarnish the reputation of a 7-year old by having him published in a non-reputable journal” (p. 302).

Quando um artigo submetido a uma revista é avaliado, 
o autor recebe as avaliações dos pareceristas, 
positivas ou não. 
Se o trabalho foi aceito, o autor é informado se há 
pontos que deve esclarecer quanto ao conteúdo 
e/ou quanto à forma. Mas nunca os editores podem 
se dar ao direito de reescrever um trabalho. Afinal: quem
é o autor?

 

*Nota: A revista parou de ser publicada em 2015, embora ainda haja um site para ela: http://web.archive.org/web/20150611035413/http://ijcrbs.com:80/cissue.php.

 


Referências

Martin, Alexandre & Martin,  Tristan. 2016. A not-so-harmless experiment in predatory open access publishing.   Learned Publishing , 29: 301–305

[Parte 1] [Parte 2] [Parte 3]

Onde publicar? Um exemplo de problema

Está agora disponível na  página do LabHisLing-UFRJ (na aba “Gramática, léxico e modelos de arquitetura”) uma resenha escrita por solicitação para um periódico de acesso restrito (isto é, que não é de AA), aceita em 2015, revisada pelo editor, postergada a publicação para 2016 … mas nunca publicada (e a revista já mudou de nome e de grupo editorial).

É a resenha de

Quatro décadas de historiografia linguística: estudos selecionados. By E.F.K. Koerner. Preface Carlos Assunção. Selection of texts and text edition by Rolf Kemmler and Cristina Altman (= Coleção Linguística, 11.) Vila Real: Centro de Estudos em Letras, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2014. Pp. 285. ISBN 978-989-704-187-7.

Poderia enviá-la agora para outro periódico? Em se tratando de uma resenha de um livro publicado em 2014, já passou muito tempo. Como tenho os direitos sobre o texto, posso divulgá-lo como quiser.

Questões relativas a onde publicar e 
a alguns problemas com essa tomada de decisão 
serão tratados em três postagens a partir de 08/10/2018.