Há um tempo atrás ninguém falava de retratação…

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Se nos habituamos ao mundo acadêmico que tem como lema publish or perish, há um outro lado nesse  mundo para o qual Diniz & Terra (2014: 117) chamaram a atenção: “Nada mais constrangedor para o currículo de um pesquisador que ter uma coleção de artigos retratados“. Uma publicação retratada compromete o currículo de seu(s) autor(es), como comentamos anteriormente (Rosa, 2018: 63ss; neste blogue: Posso citar um trabalho que foi retratado? Parte 1;Posso citar um trabalho que foi retratado? – Parte 2 ).

Mas ninguém falava de retratação há um tempo atrás!

O número de retratações é bem maior agora que há 15 ou 20 anos, por exemplo: até o ano 2000 eram em média 100 ao ano (Brainard & You, 2018); mas em 2010 foram 5.190, em 2011, chegaram a 3.149. Desde então parece haver uma tendência de queda nesse número: em média em torno de 1.200 retratações de 2013 a 2018, com leves decréscimos e algumas oscilações, e uma grande queda, para 462, em 2019 (Retraction Watch Database).  Essa curva se reflete na área da Linguística, por exemplo: uma consulta a essa mesma base retorna um caso em 1996, outro em 2007, três em 2009; para 2010 e 2011 retorna, respectivamente, 27 e 9. A partir de então parece haver uma tendência de queda, havendo em 2019 apenas um caso.

A subida em 2010 se segue ao lançamento pelo COPE/ Committee on Publication Ethics, no ano anterior, de um guia para os editores de periódicos científicos de como lidar com as retratações. A versão atual, de 2019, do  Retraction Guidelines  pode ser baixada de https://publicationethics.org/files/retraction-guidelines.pdf.

A difusão de softwares para a detecção de plágio e para a detecção de manipulação de imagens são agora instrumentos para editores científicos. Por outro lado, autores de manuscritos a serem submetidos a um periódico têm mais consciência de diretrizes a serem seguidas no trabalho científico, uma vez que universidades e agências de fomento no país têm divulgado uma série de documentos a esse respeito. Alguns deles:

 


DINIZ, Débora & TERRA, Ana. 2014. Plágio: palavras escondidas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.

Retratado, mas ainda citado

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Retratação,  termo que conhecemos no dia a dia com o significado de ‘pedido de desculpas pelo que foi dito’, mas também como ‘correção’, tem no mundo acadêmico  um significado bem específico: a reprovação pública de um trabalho publicado. Basicamente porque está errado e/ou porque lançou mão de más práticas:

A retratação é um mecanismo para corrigir a literatura e alertar os leitores sobre publicações que contêm dados tão falhos ou errados que não se pode confiar em suas descobertas e conclusões. Dados não confiáveis podem resultar de simples erro  ou de má conduta na pesquisa. COPE/Committee on Publication Ethics. Retraction guidelines.

A “literatura zumbi”

Que dizer, então de uma lista dos Top-10  entre os trabalhos retratados mais citados (entenda-se: depois da retratação)? Trabalhos retratados que continuam a ser citados de modo positivo ganharam a classificação jocosa de literatura zumbi.

Entre os primeiros dessa lista dos 10 mais no blogue Retraction Watch lá está um famoso texto de 1998, retratado porque seus autores falsificaram e fabricaram dados para criar evidências — fraudulentas, portanto — da relação entre a vacina tríplice e o autismo. Da tardia retratação em 2010 até maio de 2019 foram 669 citações — mesmo com a repercussão do caso  na imprensa.

Um estudo de caso 

Um grupo de bibliotecários liderados por Elizabeth M. Suelzer decidiu analisar o contexto em que 1153 trabalhos acadêmicos em inglês citaram o artigo fraudulento. Os dados foram buscados na Web of Science Core Collection. Na maioria dos casos (72,7%), a visão sobre o texto retratado era negativa; ainda assim, 8%  dos trabalhos tinham uma visão positiva sobre o texto de 1998. E parte desse conjunto —  quase 30% — não indicava a existência de uma retratação.

Suelzer et alii recomendaram a implementação de diferentes ações: de instruções de como citar um artigo retratado  a bancos de dados bibliográficos sobre retratações, como aquele de iniciativa de Ivan Oransky e Adam Marcus, o Retraction Watch Database:

To ensure the integrity of scholarly articles and research, we believe that better care needs to be taken to ensure that retracted articles are properly cited and that it is ultimately the authors’ responsibility to ensure that their citations are accurately documented. Improvements can be made to the indexing procedures of bibliographic databases, journal publisher procedures for updating retracted articles, and citation management software products to make it more apparent when articles have been retracted. In addition, stronger guidelines from the ICMJE, COPE, and citation styles on how to cite retracted articles appear to be needed. We also believe that authors should take additional steps to verify their citations by using bibliographic databases, such as PubMed and Retraction Watch, or enlisting the help of librarians and that journal editors should hold authors more accountable for checking their references.

Uma questão interessante

Em Retraction Watch (18Nov2019), Suelzer comentou a contagem pura e simples de citações,  não importando se o contexto é negativo:

While most of the references to the Wakefield article are negative, each new citation is noted in databases like Google Scholar, Web of Science and Scopus. As citation counts continue to play a role in determining the significance or importance of an article (for better or worse), even negative citations will ensure that an article gets a higher rank in databases when the results are sorted by citation count. We accept the irony of conducting a study on Wakefield’s paper and adding yet another count to its cited-by number.

 

 

 


 

Retraction Watch. Top 10 most highly cited retracted papers. https://retractionwatch.com/the-retraction-watch-leaderboard/top-10-most-highly-cited-retracted-papers/

Retraction Watch. 18Nov2019. Andrew Wakefield’s fraudulent paper on vaccines and autism has been cited more than a thousand times. These researchers tried to figure out why.  https://retractionwatch.com/2019/11/18/andrew-wakefields-fraudulent-paper-on-vaccines-and-autism-has-been-cited-more-than-a-thousand-times-these-researchers-tried-to-figure-out-why/

Retraction Watch Database.http://retractiondatabase.org/RetractionSearch.aspx? 

Suelzer,Elizabeth M.; Deal, Jennifer;  Hanus, Karen L.;  Ruggeri, Barbara;  Sieracki, Rita;  Witkowski, Elizabeth. 2019. Assessment of Citations of the Retracted Article by Wakefield et al With Fraudulent Claims of an Association Between Vaccination and Autism. JAMA Network Open. 2019; 2(11):e1915552. https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2755486

Repositórios mantidos pelo COS em risco; surge o servidor de preprints da Scielo

 

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A mensagem em exibição na página inicial do MarXiv, um repositório de preprints mais focado em questões ambientais, causou surpresa: “Submissions for Marxiv are now closed. Existing preprints will be maintained by COS as part of the long-term data preservation plan”.  Logo abaixo a informação de que o MarXiv é “Powered by OSF Preprints“.

OSF é a sigla para Open Science Framework, a infraestrutura de software desenvolvida e mantida pela empresa Center for Open Science (COS), que disponibiliza entre várias ferramentas a OSF Preprints.

A explicação para se entender o aviso na home page do MarXiv pôde ser lida alguns dias depois numa  nota no Nature Briefing: que repositórios de preprints bem conhecidos, hospedados pela Center for Open Science (COS) correm risco de fechar em decorrência de problemas financeiros.

Quem paga?

Para o COS, os custos com a parte voltada para preprints chegarão em 2020 a US$230.000 e o dinheiro das fundações privadas neste ano não será suficiente para manter a plataforma do COS.  Para os repositórios/servidores no COS,  em geral gerenciados por trabalho voluntário, passa a valer em 2020 o pagamento de uma taxa anual que pode alcançar alguns milhares de dólares norte-americanos. A taxa básica anual de 1000 dólares  não é fixa: aumenta à medida em que aumentam as submissões ao repositório. Cerca de 6000 submissões correspondem a uma taxa de cerca de US$25.000. Com mais de 16.500 submissões anuais, o INA-Rxiv , por exemplo, promete limitar o número de submissões para diminuir os custos.

Num outro cenário…

Por outro lado, em 28 de fevereiro último, a Scielo anunciou o lançamento   da versão beta do Open Preprint Systems (OPS),  armado com as especificações e financiamento inicial do SciELO, juntamente com um financiamento generoso de um doador da Universidade de Stanford” (PUBLIC KNOWLEDGE PROJECT, 2020). A  operação regular teve início em junho de 2020: https://preprints.scielo.org/index.php/scielo 

Preprints e arquivos de dados de pesquisa relacionados a artigos publicados pelos periódicos SciELO podem residir em qualquer um dos servidores de preprints confiáveis e reconhecidos, e nos repositórios de dados de pesquisa. O SciELO também operará um repositório central de dados de pesquisa e um Servidor Central de Preprints, com as possibilidades de que as coleções da Rede SciELO operem seus próprios Servidores de Preprints e repositório de dados. (PACKER & MENDONÇA, 2020)


Mais sobre preprints neste Blog?


 Mallapaty, Smriti. Popular preprint servers face closure because of money troubles. Nature News, 13Fev2020. https://www.nature.com/articles/d41586-020-00363-3?utm_source=Nature+Briefing&utm_campaign=a5478813af-briefing-dy-20200213&utm_medium=email&utm_term=0_c9dfd39373-a5478813af-44329949

PACKER, A.L. & MENDONÇA, A. A via para os preprints (Parte 2): O Servidor de Preprints do SciELO [Publicado originalmente no site do PKP em março/2020] [online]. SciELO em Perspectiva, 2020 . Available from: https://blog.scielo.org/blog/2020/03/09/a-via-para-os-preprints-parte-2/

PUBLIC KNOWLEDGE PROJECT. A via para os preprints (Parte 1): Introdução ao Open Preprint Systems [Publicado originalmente no site do PKP em fevereiro/2020] [online]. SciELO em Perspectiva, 2020 . Available from: https://blog.scielo.org/blog/2020/03/03/a-rota-para-os-preprints-parte-1/

 

Um periódico que estimula a pesquisa científica de crianças e jovens

Um artigo de Bec Crew para o Nature Index em 17 de dezembro passado tem o instigante título Peer-review for six-year-olds . E chama a atenção para o Canadian Science Fair Journal, periódico que publica trabalhos científicos de crianças a partir de seis anos, ainda no segundo ano. O periódico foi criado em 2017 por Dayre McNally, intensivista pediátrico do Children’s Hospital of Eastern Ontario e professor na Universidade de Ottawa. O trabalho submetido não pode ter sido publicado anteriormente e cada submissão é acompanhada  da declaração a seguir:

CSFJ - originalidade

 

Cada criança  trabalha com um editor da área do trabalho submetido (Engenharia e Fisica, Química, Comportamento/ Fisiologia, Biologia e Bioquímica, Ciências Ambientais, Ciências da Computação) até o artigo ser publicável — o que seria uma “revisão por pares colaborativa”. O número atual, por exemplo, traz os seguintes títulos:

Apresentei um pôster (snif, snif?)

Depois da emoção de explicar o trabalho para gente que se mostrou interessada por ele num encontro acadêmico na área, o pôster pode ir para o cv-lattes. Pode ser colocado em “Apresentação de trabalho”, mas … ops! Não tem nada para pôster no lattes! Sobra um mísero “Outra” para incluir essa produção.

Ao desencantamento com o lattes se junta a inacessibilidade do trabalho que se segue à participação no evento. Então quem não foi ao congresso ou perdeu o dia do pôster não vai poder ver aquele trabalho tão legal que custou tão caro por causa da plotagem?

Existe uma possibilidade que vem sendo pouco explorada: fazer uma versão digital com resumo e palavras chaves e solicitar sua inclusão no repositório institucional. Na UFRJ esse repositório é o Pantheon. Num  mundo cada vez mais digital não faz sentido deixar um trabalho ser acessível por apenas um dia. Afinal, se era para esconder o trabalho não se faria uma apresentação num congresso.

Com acesso aberto, estabilidade, revisão por pares e sem APCs: os “wiki-periódicos”

Imagem: 
File:WikiJournal of Science publishing pipeline (wiki first).svg  
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:WikiJournal_of_Science_publishing_pipeline_(wiki_first).svg

Sério: eu não sabia o que era “wiki”, embora soubesse da Wikipedia e da Wikicommons.  Na verdade nunca tinha pensado em “wiki” como algo diferente de uma marca, algo já registrado como propriedade intelectual. A Wikileaks atrapalhava esse entendimento, mas … Até que ontem me deparei com os wikijournals.

Afinal, que é ‘wiki’?

Dei um Google (ou teria googlado?) e encontrei a resposta num artigo de Sérgio Rodrigues publicado na revista  Veja em 2012:

No mundo da computação, wiki passou a ser usado como nome genérico de websites colaborativos, ou seja, aqueles cujo conteúdo pode ser modificado pelo usuário. O termo foi criado em 1994 pelo programador americano Ward Cunningham, que desenvolveu o primeiro software wiki e o batizou de WikiWikiWeb. Note-se que as iniciais dialogam com o www de world wide web (rede mundial de computadores), mas Cunningham garante que sua inspiração foi mais prosaica: limitou-se a copiar o nome dos ônibus expressos do aeroporto de Honolulu, Wiki-Wiki, uma expressão regional havaiana que significa “rapidinho”. 

Depois descobri um longo artigo “Wiki” na própria Wikipedia, com um enorme histórico de modificações desde 2003.

Os periódicos wiki

Os períódicos wiki surgem em integração com a Wikipedia com o objetivo explícito de aumentar “the accuracy of the encyclopedia, and rewards authors with citable, indexed publications with much greater reach than traditional scholarly publishing”  (WikiJournal User Group). No momento há quatro títulos: WikiJournal of Humanities;  WikiJournal of Medicine; WikiJournal of Science; WikiJournal Preprints

Wikigroup

A imagem em destaque é de  Mikael Häggström 
(Own work, based on:From Pixabay, Public Domain.,CC BY 4.0, 
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=49038393. 
Está descrita como "a lightbulb, symbolizing the creation of ideas 
latitude and longitude stripes around the lightbulb, 
symbolizing a global scope".

Um exemplo extraído do periódico voltado para a área de Humanas é o longo artigo  A grammatical overview of Yolmo (Tibeto-Burman), em que  Lauren Gawne (Dept, de Línguas e Linguística, Universidade La Trobe, Austrália) é o autor (mas  o  et alii nos lembra que o material é, por definição, colaborativo). Pode ser lido no formato já conhecido do material da Wikipedia ou em pdf.

A iniciativa é mais um passo na integração da Wikipedia com a educação. Uma visão de como essa  integração já ganhou terreno de 2001 a 2016 pode ser lida em 15 years of Wikipedia and education.


 

 

 

 

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Um prêmio estranho

 

IMAGEM 
"TROPHY DESIGN" by PROTOTYPUM, 
Martin Žampach is licensed under CC BY-NC-ND 4.0

 

A  Publons (agora da Clarivate Analytics) mais uma vez promoveu o Global Peer Review Awards, anunciado na Peer Review Week deste ano, que teve lugar entre 16 e 20 de setembro.  Em  2019 o prêmio contou com três categorias: os pareceristas top-10 , os pareceres de excelência e uma categoria para editores.

A Publons, cuja missão declarada é “speed up science by harnessing the power of peer review“, vem assumindo o papel de treinar a produção de pareceres e ajudar a indústria de publicações acadêmicas a encontrar nomes para atuarem como pareceristas (ver Crotty, 2018).

    O nome numa lista e …

    Em meio a muita discussão sobre o trabalho gratuito de pessoal altamente especializado  em prol de revistas científicas que cobram taxas muito caras dos autores para a publicação em acesso aberto e/ou de assinaturas também de preço elevado, publicadas por editoras cujos lucros andam na casa dos 40% — diferentemente da crise do mercado livreiro — não há como não se perguntar se esse prêmio é valorização suficiente para aquele que deixou de lado seu próprio trabalho e contribuiu de graça para uma indústria bilionária (em dólares ou euros); nem se esse prêmio não seria o equivalente da estrelinha que se ganhava na escola quando criança: confere algum status num pequeno círculo.

    Embora se diga que escrever pareceres sobre artigos acadêmicos submetidos a revistas científicas é parte do trabalho acadêmico, essa não é uma das cláusulas de qualquer contrato de trabalho como professor ou pesquisador (ver Watson, 2017).

    Trabalho necessário, mas que conta pouco para quem o faz

    Ninguém nega a importância do trabalho dos pareceristas. A divulgação do trabalho científico, no mundo atual ligada à avaliação por pares, é importante para a Ciência e igualmente importante nos processos formais de avaliação de professores e pesquisadores. Escrever pareceres é, porém, trabalho voluntário, certamente não prioritário na lista de afazeres.

    Agora, se esse trabalho é tão importante, se uma revista cobra alguns milhares de dólares do autor para publicar seu artigo por conta dos custos que alega ter com o preparo do manuscrito para a publicação, por que o par (ou trio) de pareceristas que recomendaram (ou não) a publicação não pode ser remunerado?

    Pode-se argumentar  que esse profissional terá seu nome listado como parecerista de uma revista de luxo. Mas, pensando bem: se um pesquisador concorre a uma vaga de professor ou pesquisador , ter uma enorme lista de pareceres  ou não incluir essa parte no lattes vai fazer diferença? Ter escrito críticas a trabalhos alheios, como notou Crotty (2018), impressiona mais uma banca que a qualidade do próprio trabalho? Por outro lado, para a revista ter um profissional renomado listado entre seus pareceristas é relevante.

    E as revistas em acesso aberto que não cobram taxas dos autores,
    caso da quase totalidade das revistas nacionais no Qualis? 
    Não são periódicos predatórios; têm papel importantíssimo na
    divulgação das pesquisas no país; 
    solicitam pareceres dentro de prazos razoáveis. 
    Atender ao convite de um desses periódicos para emitir um parecer
    continua sendo trabalho voluntário, não prioritário, 
    mas essas publicações, que não visam lucro e lutam para se manterem,
    merecem a colaboração, ainda que não remunerada,
    de todos nós.

     


     

    Crotty, David. 2018. Credit for Peer Review: What is it Worth? The Scholarly Kitchen, 18Out2018. https://scholarlykitchen.sspnet.org/2018/10/18/credit-for-peer-review-what-exactly-does-that-mean/

    Watson, Mick (@Biomickwatson). 2017. Let’s keep saying it, and say it louder: REVIEWERS ARE UNPAID. Opiniomics, 23Agos2017. http://www.opiniomics.org/lets-keep-saying-it-and-say-it-louder-reviewers-are-unpaid/

    A Revista da ABRALIN adota a taxonomia CRediT/Contributor Roles Taxonomy (Taxonomia das Funções do Colaborador)

    Em agosto de 2018 informávamos da adoção da taxonomia CRediT pela Scielo (Quem é o autor do trabalho afinal? Decisões sobre coautoria). Não obstante o número de autores por artigo em Linguística no Brasil estar, em geral,  em torno de dois ou três e de algumas revistas da área ainda trazerem instruções que remetem ao autor único, agora é a vez da revista da ABRALIN/ Associação Brasileira de Linguística adotar o CRediT .

    Os trabalhos com mais de um autor submetidos à Revista da ABRALIN deverão indicar a atribuição dos seguintes papeis:  Conceptualização –  Curadoria de Dados –  Análise Formal – Aquisição de Financiamento – Investigação – Metodologia –  Administração do Projeto –  Recursos – Software –  Supervisão –   Validação –   Visualização –  Escrita –  Escrita 

    Sai o autor, entra em cena o colaborador

    Como recentemente apontou Alex Holcombe, a atribuição de autoria em muitos periódicos leva em conta a definição de autor do ICMJE/ International Committee of Medical Journal Editors que não tem lugar para muitos tipos de colaboração necessários ao desenvolvimento de pesquisas.

    No caso da Revista da ABRALIN, a inovação no estabelecimento da autoria/colaboração vem juntar-se à revisão por pares aberta, anunciada recentemente e os dados abertos. Será muito interessante, portanto, acompanhar a implantação desse modelo na área da Linguística brasileira.

     

    Informações: http://www.abralin.org/circulares/rabralin/CRediT.pdf

    Holcombe, Alex. 2019. Farewell authors, hello contributors. Nature 571, 147 (05Jul2019)  https://www.nature.com/articles/d41586-019-02084-8

     

    E se esse texto nunca for citado?

    É uma anedota na vida acadêmica  que um texto não citado é um episódio de fracasso. Ninguém leu? Não despertou interesse? Irrelevante, então. (Tem-se aqui em conta a citação feita por outros pesquisadores, de outros grupos de pesquisa, não a autocitação). Mais ou menos a mesma sensação que sentimos quando o livro que consultamos na biblioteca tem a ficha em branco. Bom, a foto que ilustra este texto é um indício de que essa visão é um tanto simplista.

    Num mundo em que as citações são contabilizadas e lançadas no curriculum vitae, em que pontuam os pedidos de progressão ou promoção é previsível que todos os pesquisadores queiram um índice-h igual a 18 — e reconhecimento em vida.  Mas isto não equivale a dizer que se um texto não recebeu citações ao longo de cinco,  dez anos é porque é trabalho sem valor.

    O impacto de  um trabalho durante o tempo de vida do autor pode enfrentar dificuldades completamente alheias à qualidade — problemas que vão da censura à língua em que um texto foi escrito.

     

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    Van NOORDEN, Richard. 2017.  The science that’s never been cited. Nature Briefing, 13Dez2017. https://www.nature.com/articles/d41586-017-08404-0

    Citações e referências: posso citar a mim mesm@?

    Eu ainda estava no Doutorado e numa conversa com o saudoso Carlos Franchi (1932-2001) no prédio da Praia Vermelha — onde tínhamos assistido a uma palestra do também saudoso Fernando Tarallo (1951-1992) —  ouvi do Prof. Franchi que não citava trabalhos dele mesmo. Aquela conversa ficaria na minha memória, junto com as palavras de Rodolfo Ilari na homenagem póstuma ao amigo: “a vontade de pesquisar com humildade” (Ilari, 2002: 87).

    Tornei a lembrar-me dessa conversa por estes dias: um estudo sobre um corpus de 100 mil pesquisadores muito citados mostrava que 250 deles, em pelo menos 50% das vezes em que foram citados, haviam citado a si ou recebido citação de seus co-autores; em alguns dos casos, em 94% das citações.

    Os tempos mudaram desde aquela conversa. Um pesquisador como o Prof. Franchi, cuja produção foi “altamente informal, tendo preferido a exposição em seminário ao impresso, e o working paper ao livro” (Ilari, 2002: 85), hoje seria forçado não só a publicar mais (o que nos faz lembrar da anedota de que Saussure atualmente não conseguiria lugar num programa de pós-graduação em Linguística porque não publicava — a respeito desse saussureano “horreur d’écrire”, ver Piller, 2013, texto já mencionado neste blogue), mas também a demonstrar o impacto de sua pesquisa pela contabilização de referências, de quantificação mais fácil que o respeito acadêmico e a influência sobre  alunos e colegas.

    Ao  longo das últimas décadas aumentou o número de grupos de pesquisa e, em paralelo, houve aumento no número de trabalhos referidos num artigo, não importa de que área. Nas Ciências Sociais, por exemplo, se na década de 1960 o número médio de citações por trabalho estava um pouco abaixo de 10 títulos, em 2015 a média já chegava a 50 (Van Noorden, 2017). Em 2005 surgia o índice-h, uma medida do impacto das pesquisas que toma por base as citações. E assim as citações entraram no cv Lattes, passaram a pontuar pedidos de progressão na vida acadêmica…

    Deixando de lado por enquanto os maus usos das auto-referências, em que situações citar/referir nosso próprio trabalho chega mesmo a ser necessário? Afinal, o mesmo estudo apontava 12,7 % como valor médio de auto-citações.

    Em primeiro lugar, em razão da continuidade da pesquisa: se estamos voltando a material que já publicamos — e, como aconselha o Prof. Ataliba de Castilho, especialmente se mudamos de ideia em relação a trabalho que publicamos no passado — temos de referir o que publicamos anteriormente. Em segundo lugar, se utilizamos material nosso anteriormente publicado, para evitar acusações de autoplágio (COPE, 2019,Legitimate Reasons for Self-Citation). Este segundo motivo era desconhecido até bem pouco tempo  e nem mesmo sua denominação era encontrada em português.

    Sobre autoplágio, neste blogue:
    Autoplágio ou reciclagem textual -1 
    Autoplágio ou reciclagem textual -2

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    COPE/ Committee on Publication Ethics. 2019. Citation Manipulation. COPE Discussion Document, Version 1: July 2019. https://publicationethics.org/files/COPE_DD_A4_Citation_Manipulation_Jul19_SCREEN_AW2.pdf

    Hirsch, J. E. 2005. An index to quantify an individual’s scientific research output.

    Ilari, Rodolfo. 2002. Humildade na pesquisa para construir o futuro. Revista do GEL/ Grupo de Estudos Linguísticos do Esta do de São Paulo. Número Especial.  “Em memória de Carlos Franchi (1932-2001), 2002, nº 0. São Paulo: Contexto. p. 83-87 https://revistas.gel.org.br/rg/article/download/178/154 

    Piller, Ingrid. 2013. Saussure, the procrastinator. Language on the Move, 30Out2013. https://www.languageonthemove.com/saussure-the-procrastinator/
    Van Noorden, Richard. 2017.  The science that’s never been cited. Nature Briefing, 13Dez2017. https://www.nature.com/articles/d41586-017-08404-0
    Van Noorden, Richard &  Chawla, Dalmeet Singh. 2019. Hundreds of extreme self-citing scientists revealed in new database. Nature Briefing, 19Ago2019

    https://www.nature.com/articles/d41586-019-02479-7

    Dados abertos e avaliação por pares aberta chegam à linguística brasileira

     

    A discussão sobre os pareceres abertos apresentada nas postagens A avaliação por pares em discussão – Partes 1, 2 e 3 ganhará forma, em breve, na Revista da Abralin, periódico da Associação Brasileira de Linguística. Mas não só.

    Numa circular aos associados datada de 16 de julho de 2019, as editoras-chefes da revista, argumentando que “[a] ciência vive um momento de crise, que vai muito além da crise da replicabilidade; […] uma crise de credibilidade, que decorre da falta de transparência no processo, que é, no cenário brasileiro, majoritariamente financiado pelo contribuinte”; que “o processo de revisão duplo cego (em que pareceristas não sabem quem são os autores, e vice-versa) não tem se mostrado transparente“;  que “o trabalho do parecerista, essencial para o aprimoramento do texto e com contribuições substanciais para a forma final, não é reconhecido publicamente” , solicitam aos associados já doutores  que se cadastrem como pareceristas para uma nova fase da revista: “a partir de 2020, as submissões à Revista da Abralin passarão por processo de revisão aberto, em que autor e parecerista não são anônimos“.

    Não será a única parte da inovação. Ainda na sequência de decisões que colocam o periódico no movimento Ciência Aberta, no tocante às submissões de manuscritos serão priorizadas as submissões à Revista da Abralin “que apresentarem a indicação de compartilhamento dos conjuntos de dados de análise, instrumentos, scripts de análise estatística, roteiros e materiais adicionais, que devem estar em repositórios online abertos, tais como OSF e Figshare, por exemplo”.

    Também serão priorizadas as submissões “que se comprometerem a contribuir com um texto de popularização a ser publicado na Roseta, revista da Associação Brasileira de Linguística voltada para a popularização científica, de modo a promover a Ciência Cidadã”.

    A circular pode ser lida em http://revista.abralin.org/index.php/abralin/announcement/view/4

    Autoplágio ou reciclagem textual – 1

    Autoplágio é termo recente que vem sendo definido como a republicação de um trabalho no todo ou em parte, pelo autor, sem que se informe ao leitor da publicação anterior — em suma: apresenta-se como novo algo que não é novo. Daí a denominação alternativa reciclagem textual.

    Pode causar estranheza considerar essa uma atitude censurável: afinal, plágio diz respeito a lançar mão do trabalho de outrem como se fosse próprio. Por que, então, reapresentar um trabalho próprio é considerado má conduta?

    Esse comportamento é problemático se revela a intenção de inflacionar a produção no próprio cv, mas também se incorre em problemas ligados a copyright.

    [Continua]

    [Parte 1] [Parte 2]

    Aceito ou não o convite para um parecer?

    O COPE/ Committee on Publication Ethics apresenta, em forma de fluxograma, um guia para ajudar na decisão a se tomar quando se é convidado a emitir parecer para uma revista.

     

    COPE - peer review

    O COPE sugere que se levem em conta dois conjuntos de critérios. O primeiro levanta:

    a) a respeitabilidade do periódico (e sugere, para isso, uma consulta ao site Think. Check. Submitb) a política de revisão por pares apresentada; e c) os potenciais conflitos de interesse.

    Resolvida essa parte, a decisão deve levar em conta: a) se o trabalho poderá ser entregue no prazo estipulado; e b) se o texto a ser avaliado se enquadra em nossa área de especialidade.


    Referências

    COPE/ Committee on Publication Ethics. What to consider when asked to peer review a manuscript.  https://publicationethics.org/node/34241

    Think. Check. Submit. https://thinkchecksubmit.org/

    A avaliação por pares em discussão – Parte 3

    As alternativas ao modelo de avaliação por pares hegemônico na atualidade —  referidas como open peer review (OPR) — são um conjunto de combinações de abertura como indicado na postagem de 20 de maio passado e começam a gerar pesquisas na comunidade científica. Assim, em julho de 2018, o repositório do Consejo Superior de Investigaciones Científicas/ DIGITAL.CSIC publicava os resultados de uma enquete com 158 pesquisadores da Espanha (Bernal & Román-Molina, 2018) . Ao assumirem o papel de revisor ou de autor, os pesquisadores consultados demonstraram sua preferência pelo duplo-cego:

    CSIC- duplo cego autor

    CSCI-duplo cego revisor

    Dentre as conclusões da pesquisa chama a atenção a falta de consenso em relação à implantação de mudanças:

    Los encuestados valoraron las oportunidades y los beneficios de una posible reforma del sistema dominante de revisión por pares de manera dispar. Así, algo más del 60% de los encuestados piensa que hacer públicas las revisiones de los artículos científicos puede ser beneficioso como información complementaria para los lectores y que la calidad de las propias evaluaciones aumentaría. Por otro lado, no existe consenso entre los encuestados sobre el riesgo de que un sistema de revisiones públicas actuara como obstáculo para realizar evaluaciones especialmente críticas, con casi 47% de respuestas tendentes a pensar que tal riesgo existiría. Finalmente, algo más del 50% de los encuestados piensa que publicar la identidad de los revisores ayuda a reducir posibles conflictos de intereses.

     

    CSCI- Contra e a favor

    Nassi-Caló (2015) arrola seis argumentos favoráveis à revisão aberta por pares e cinco contrários. Entre os riscos Nassi-Caló vê um aspecto mais grave que uma possível represália: “Certos comentários nos pareceres poderiam ser distorcidos e descaracterizados para reduzir a credibilidade da pesquisa, de uma área do conhecimento ou da ciência como um todo. Esta probabilidade seria maior em periódicos que publicam pesquisa com maior risco de discussão política”. Nota que a aceitação ou rejeição da OPR não é a mesma em todas as áreas; que pesquisadores mais jovens estão mais propensos a concordar com sua implantação. Para os editores, a adoção de um modelo que publicasse não só o artigo em sua forma final, mas outras versões submetidas, comentários dos pareceristas, respostas dos autores e decisão do editor não seria “trivial”.


     

    Bernal, Isabel &  Román-Molina, Juan. 2018. Encuesta sobre evaluación por pares y el módulo “Open Peer Review” de DIGITAL.CSIChttp://digital.csic.es/bitstream/10261/167425/3/encuesta_DC_peer_review_oprm_2018.pdf

    NASSI-CALÒ, L. Potenciais vantagens e desvantagens na publicação de pareceres [online]. SciELO em Perspectiva, 2019 . https://blog.scielo.org/blog/2019/04/30/potenciais-vantagens-e-desvantagens-na-publicacao-de-pareceres/

    [Parte 1]   [Parte 2] [Parte 3]

    A avaliação por pares em discussão – Parte 1

    Considerada o alicerce das publicações científicas, a avaliação por pares é cada vez mais o centro de discussões em que surgem processos alternativos a serem adotados. Em foco, o nível de transparência no processo.

    A forma mais comum de avaliação por pares é aquela que preserva o anonimato —  seja porque o autor não toma ciência dos nomes dos pareceristas (simples-cegoing. single-blind), seja porque os autores não sabem quem são os pareceristas nem os pareceristas sabem quem são os autores (duplo-cegoing. double-blind) — e o sigilo que envolve os pareceres exarados, endereçados apenas ao editor e ao autor.

    Em meados desta década, Nassi-Calò (2015) apontava novas alternativas a esses processos:

    Recentemente, novas formas de revisão por pares vem sendo consideradas, como alternativas aos métodos simples e duplo-cego. Revisões totalmente abertas, em que a identidade de autores e revisores é conhecida por ambos; revisões abertas publicadas ao final do artigo, abrindo espaço para discussões pós-publicação; e a substituição da revisão por pares por revisão pós-publicação estão entre as alternativas que ganharam destaque como formas da evolução do processo original de peer review.

    Em que consistem essas alternativas? [Continua na Parte 2]


     

    Bernal, Isabel &  Román-Molina, Juan. Encuesta sobre evaluación por pares y el módulo “Open Peer Review” de DIGITAL.CSIChttp://digital.csic.es/bitstream/10261/167425/3/encuesta_DC_peer_review_oprm_2018.pdf

    Nassi-Calò, Lilian. 2015. Avaliação por pares: modalidades, prós e contras. Scielo em Perpectiva, 27Mar2015. https://blog.scielo.org/blog/2015/03/27/avaliacao-por-pares-modalidades-pros-e-contras/#.XJWQoVVKiXI

    [Parte 1]  [Parte 2] [Parte 3]

    Posso citar a Wikipedia?

    Há algum tempo dedico uma aula das minhas disciplinas a uma conversa sobre pesquisa e fontes confiáveis. Uma pergunta recorrente é “E a Wikipedia?“. Tanto que passei a incluir um slide nessas apresentações com a pergunta:

    Wiki

    As fontes, isto é, onde vamos buscar informação, são um aspecto crucial de uma pesquisa. São fontes possíveis livros e artigos, mas também material disponível na internet, que podem incluir outras bibliotecas, blogues, dados governamentais, vídeos …. Estejam na internet ou numa prateleira da biblioteca, as fontes têm de ser avaliadas.

    A internet como fonte

    A internet pode ser fonte de pesquisa, mas ela não é como a biblioteca da universidade, nem como a bibliografia das diferentes disciplinas (neste blogue já houve diversas postagens que focalizaram a revisão por pares), além de exigir um tipo de cuidado desnecessário na biblioteca: warning

    o site que aparece na busca pode colocar a segurança do computados em risco.

    As obras de referência

    Tradicionalmente a biblioteca distingue as obras de referência, aquelas que apenas consultamos para obter informação, como enciclopédias e dicionários, e aquelas que vamos não apenas consultar, mas ler, como artigos periódicos científicos, por exemplo. No tocante a obras de referência há aquelas que são gerais e as que são especializadas. A Encyclopedia of Language and Linguistics é uma enciclopédia especializada; a Wikipedia é uma enciclopédia geral.

    A Wikipedia é uma enciclopédia livre, colaborativa. Qualquer pessoa pode escrever ou modificar um artigo da Wikipedia, seja ou não um especialista na área. Isso faz com que a qualidade dos artigos possa variar. Mais ainda: colaboradores podem incluir artigos absolutamente falsos, os hoaxes. Um exemplo famoso: The Bicholim Conflict, uma guerra entre portugueses e o Império Maratha no século XVII, contribuição à Wikipedia de um colaborador de nome  A-b-a-a-a-a-a-a-b-a (Lewis, 2014). A guerra nunca aconteceu, os livros na bibliografia referida não existem …

    Mas não é preciso jogar fora o bebê junto com a água do banho…

    A Wikipedia periodicamente supervisiona o material disponibilizado e mantém um registro dos enganos intencionais, que são apagados: Wikipedia:List of hoaxes on Wikipedia Quem atualmente procurar pelo artigo-hoax anteriormente mencionado encontrará a informação de que se tratava de um hoax e pode mesmo ver a imagem pública do artigo agora apagado: https://www.wikidata.org/wiki/Q21510193

    Isso nunca aconteceria no papel! (Mesmo?)

    A  inclusão de uma entrada fictícia nunca aconteceria em obras de referência mais canônicas? Não é bem assim.

    Quem conhece a fotógrafa Lillian Virginia Mountweazel (1942-1973), cuja vida mereceu um artigo na The New Columbia Encyclopedia (New York: Columbia University Press, 1975)?

    Mountweazel, Lillian Virginia, 1942-73, American 
    photographer, b. Bangs, Ohio. Turning from 
    fountain design to photography in 1963, 
    Mountweazel produced her celebrated portraits of the 
    South Sierra Miwok in 1964. She was awarded 
    government grants to make a series of 
    photo-essays of unusual subject matter, 
    including New York City buses, the cemeteries of Paris,
    and rural American mailboxes. 
    The last group was exhibited extensively abroad 
    and published as Flags Up! (1972) 
    Mountweazel died at 31 in an explosion 
    while on assignment for Combustibles magazine.
    
    William H. Harris and Judith S. Levey, eds,Mountweazel, Lillian Virginia”, 
    The New Columbia Encyclopedia, 
    New York: Columbia University Press, 1975.
    

    A biografia dessa figura fictícia foi intencionalmente inserida na obra, como forma de armadilha para violações de direito autoral.

    E quem conhece a palavra inglesa esquivalience?

    esquivalience —n. the willful avoidance of  one’s official  responsibilities … late 19th . cent.: perhaps .from French esquiver , “dodge, slink , slink away.” 

    Esquivalience pode ser  considerada um mountweazel (sim, um neologismo criado a partir do sobrenome da Lillian com dois eles): uma entrada fictícia, criada como solução editorial  para a detecção de plágio e, portanto, tão intencional como um hoax do mundo digital.

    Vale a pena ler o artigo de  Henry Alford para The New Yorker em 2005 
    com o título Not a Word.
    Alguns embaraços decorrentes

    O episódio de Bicholim gerou um livro (The Bicholim Conflict), que pode ser comprado sob demanda; de modo semelhante, um erro na leitura de um texto medieval português —  detectado por Carolina de Michaëlis de Vasconcelos (1895) — criara os cantos de ledino e essa leitura  levou Ernesto Monaci (1844-1918) a escrever um livro sobre algo inexistente (Cantos de Ledino tratti dal grande canzoniere portoghese della biblioteca Vaticana) .

    Quanto a palavras criadas como armadilha para plagiadores de dicionários, a linguista Rochelle Lieber  (2010:  29) chamava a atenção para o fato de que essas fake words ou mountweazels podem ganhar vida: ela reporta 55300 retornos no Google em Dez2006 para esquivalience.  Deixava, então, no ar a pergunta se o que inicialmente era um mountweazel não podia vir a tornar-se uma palavra real.

    Posso citar ou não?

    Citações, bem como referências, são menções ao  material pesquisado (as fontes) na elaboração de um texto acadêmico. A própria Wikipedia dedicou uma entrada a seu uso acadêmico: Wikipedia: Academic Use.  Nessa entrada há a seguinte observação:

    Remember that any encyclopedia is a starting point for research, not an ending point. 

    An encyclopedia, whether a paper one like Britannica or an online one, is great for getting a general understanding of a subject before you dive into it, but then you do have to dive into your subject; using books and articles and other higher-quality sources to do better research. Research from these sources will be more detailed, more precise, more carefully reasoned, and more broadly peer reviewed than the summary you found in an encyclopedia. These will be the sources you cite in your paper. There is no need to cite Wikipedia in this case.

    Em resumo

    As críticas e  as proibições a citações da Wikipedia (não à consulta)  em instituições de ensino estão fundamentadas em diferentes tipos de argumentos:  a confiabilidade das fontes empregadas na pesquisa, a profundidade do conteúdo, mas principalmente a formação do aluno como agente na construção de seu conhecimento, o que implica  a leitura de fontes primárias e secundárias e não apenas de resumos, por melhores que  estes sejam.

    As enciclopédias gerais, como a Wikipedia, sempre foram um bom ponto de partida quando não se conhece nada sobre um tema. Um passo muito adiante desse tipo de obra é a enciclopédia especializada, com material escrito por profissionais de renome, rica nas referências de cada artigo, o que permite ao usuário partir para a busca de outras fontes.

    À medida em que alguém se aprofunda num tema, a enciclopédia (como o dicionário) vai sendo deixada de lado.  “Posso citar a Wikipedia?” Talvez a questão seja outra: quando citar uma fonte que resume trabalhos?

    [Post 1] [Post 2] [Post 3] [Post 4] [Post 5]


    Alford, Henry. 2005. Not a Word. The New Yorker, 29Ag2005. https://www.newyorker.com/magazine/2005/08/29/not-a-word

    Brown, Keith (ed.). Encyclopedia of Language and Linguistics (2nd Edition) .Boston: Elsevier, 2006. 14vv.

    Lewis, Dan. 2014. The Bicholim Conflict. Now I Know, 28Fev2014. http://nowiknow.com/the-bicholim-conflict/

    Lieber, Rochelle. 2010. Introducing Morphology. Cambridge: Cambridge University Press.

    Vasconcelos, Carolina Michaëlis de. 1895. Uma passagem escura do “ Chrisfal”. In: Revista Lusitana , 3 (4): 347-362 http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/biblioteca-digital-camoes/etnologia-etnografia-tradicoes.html

    Wikipedia:List of hoaxes on Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:List_of_hoaxes_on_Wikipedia

    Wikipedia: Academic use. https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Academic_use

    Posso citar um trabalho que foi retratado? Parte 1

     

    A retratação é um mecanismo para corrigir a literatura e alertar os leitores sobre publicações que contêm dados tão falhos ou errados que não se pode confiar em suas descobertas e conclusões. Dados não confiáveis podem resultar de simples erro  ou de má conduta na pesquisa.

    COPE/Committee on Publication Ethics. Retraction guidelines.

    A pergunta que abre esta postagem começa a ser mais ouvida, acompanhando o aumento no número de retratações, mesmo em Linguística: no início de janeiro de 2019, uma busca na Retraction Watch Database retornava 60 trabalhos retratados na área em razão de plágio, de duplicação, de problemas de autoria e mesmo de falsificação de dados.

    Pode parecer estranho, mas trabalhos retratados continuam a ser citados, mesmo quando as retratações decorreram de casos de grande repercussão, como demonstraram Bornemann-Cimenti, Szilagyi, &  Sandner-Kiesling (2015), tomando para exemplo os 21 artigos retratados de Scott Reubencujas conclusões foram tão fabricadas quanto eram falsos os pacientes que formaram o universo da pesquisa inexistente.

    O que fazer?

    Vamos a um exemplo concreto, apresentado por um leitor de Retraction Watch (05/01/2018): parte da inspiração para a pesquisa viera de um trabalho posteriormente retratado. Houve a retratação, mas houve também uma influência positiva para o leitor que apresentou o problema. A recomendação do blogue foi a seguinte:

    It’s perfectly fine to cite a retracted paper, as long as the retraction is noted. Ideally, the we’d suggest citing both the paper and the retraction notice, which (according to best practices) should have different DOIs. And you can check for retracted papers in our database.

    Citar: é mesmo necessário?

    Embora haja quem defenda que trabalhos retratados ainda assim podem ter partes citáveis, há aqui um problema. Em princípio, a retratação é uma decisão tão grave que, se o problema diz respeito a apenas um trecho do trabalho, em geral os editores preferem publicar uma nota de correção.

    Se um trabalho foi retratado porque apresentou dados falsos ou dados fabricados, ele não serve de nada. Se foi retratado porque plagiou outro trabalho, que se vá ao original. Se os dados estão tão errados que não se pode confiar no que lá está, de novo: não serve de nada.

    E se foi retratado por conta de uma briga de autoria, por exemplo? Melhor ler a nota de retratação com cuidado e discutir o caso com o orientador.

    E se a nota é vaga e não dá para saber o motivo da retratação? Discuta com o orientador se vale a pena contactar a revista.

     


    Referências

    Bornemann-Cimenti, Helmar; Szilagyi, Istvan S. &  Sandner-Kiesling, Andreas. 2015. Perpetuation of Retracted Publications Using the Example of the Scott S. Reuben Case: Incidences, Reasons and Possible Improvements Science and Engineeng Ethics, Publ. online: 7Jul2015.

    Retraction Watch, 05Jan2018. Ask Retraction Watch: Is it OK to cite a retracted paper? http://retractionwatch.com/2018/01/05/ask-retraction-watch-ok-cite-retracted-paper/

    Retraction Watch Database.http://retractiondatabase.org/RetractionSearch.aspx?  

    [Parte 1]  [Parte 2]

    Recebi emails de uma revista internacional desconhecida interessada em que eu dê pareceres para artigos

     

    Há um tipo de spam que se concretiza como uma mensagem lisonjeadora a nosso trabalho e nos convida a publicar numa revista de que nunca se ouviu falar, apesar de alardear um fator de impacto extremamente alto. A publicação quase imediata se faz mediante pagamento de taxas que a mensagem (ou o site do grupo editorial) faz questão de frisar que estão abaixo dos preços de mercado (comentado em Recebi emails de uma revista internacional interessada em publicar minha pesquisa/)

    Esse tipo de caça-níqueis dirigido especificamente a autores acadêmicos vem-se expandindo: aos spams com um convite para publicar num determinado periódico  há  também aqueles que convidam para atuar como  parecerista. Se o filtro de endereços não foi muito bom, podemos  receber uma solicitação de parecer para um trabalho em área muito diferente da nossa, como no exemplo a seguir.

    Peer review convite 2

    Fosse o convite feito para analisar um texto de nossa área, como decidir?

    Bom, há detalhes a considerar em mensagens desse tipo.

    • Uma consulta ao DOAJ/Directory of Open Access Journals retorna o nome da revista? (Mas podia ser uma revista recém-criada, por exemplo).
    • O nome do grupo editorial dessa publicação já aparecia na antiga lista de Beall ? (Mas a lista foi alvo de críticas).
    • Talvez o mais importante: um passeio pelo site do periódico, porque ele nos dá  ideia do que foi publicado: os textos têm qualidade? Os prazos decorridos entre o recebimento do manuscrito e sua publicação contam-se em dias apenas?  Enfatiza a cobrança de taxas abaixo das cobradas no mercado?

    O convite para parecer tinha interesse de fato num parecer?

    Vamos ao exemplo acima. Foi possível rastrear o trabalho mencionado no convite e constatar que entre a data de recebimento do artigo pelos editores, avaliação e publicação na internet  correram apenas 23 dias e £999 (em torno de 5 mil reais no câmbio de hoje); entre o email acima e o final do processo, 11 dias.  

    Respondo a uma mensagem como essa? (Ou : devo responder a um spammer tão amável?)

    Não.

    Um desdobramento indesejável

    Conseguir nomes que aceitem ser associados a uma revista predatória ajuda a revestir de respeitabilidade um negócio eticamente discutível. Mas para quem permitiu ter seu nome associado a um desses periódicos o cenário muda.

    Laine & Winker (2017), em artigo no site da WAME/ World Association of Medical Editors, propunham que “Ideally, academic institutions should also identify academics who are listed as editors or Editorial Board members for journals established as predatory, and require that their affiliation with the institution is removed”. 

    É uma proposta apenas. Mas ilustra o dano à reputação que pode trazer.


    Laine, Christine & Winker Margaret A. Identifying Predatory or Pseudo-Journals. World Association of Medical Editors. February 15, 2017. http://wame.org/identifying-predatory-or-pseudo-journals

    Livro adicionado: “Escrita acadêmica: primeiros passos”

    Está disponível o livro Escrita acadêmica: primeiros passos na aba Sobre, neste site. Voltado especialmente para os pós-graduandos do Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFRJ, pode servir de orientação a outros alunos no processo de se tornarem autores acadêmicos.

    O livro se compõe de três partes. A primeira parte tem como suporte a macro-organização dos maiores desafios do início do percurso acadêmico:  a dissertação de mestrado e a tese de doutorado, mas também a monografia de final de curso de graduação.

    Feito o trabalho, a pergunta: onde publicar? É o tema da segunda parte.

    A terceira parte trata de um problema crescente: a publicação que compromete o currículo.


    ROSA, Maria Carlota. 2018. Escrita acadêmica: primeiros passos. Rio de Janeiro: M.C.A.P.Rosa. https://linguisticaufrjcarlotablog.files.wordpress.com/2018/12/Escrita-academica-internet2.pdf

    E os agradecimentos? (Em especial, na dissertação ou na tese)

    Num texto acadêmico, os agradecimentos dizem respeito a contribuições que não se qualificam como autoria. Um exemplo: o financiamento. Sem bolsa de uma FAP (i.e., de uma das Fundações de Amparo à Pesquisa) ou do CNPq, da CAPES não teria sido possível o desenvolvimento do trabalho; por conseguinte, essa agência específica estará nos agradecimentos (certamente essa exigência já estava no contrato assinado).

    Do mesmo modo, quem  prestou ajuda técnica com aparelhos, quem permitiu acesso a dados ou quem revisou a redação  contribuiu, mas não é autor. Nos Agradecimentos, então.

    Quem tem de estar nos agradecimentos

    Têm de estar listados nos agradecimentos de tese, dissertação, monografia: a) no caso de bolsista, a agência de fomento (com o nome da bolsa e o número do auxílio); b) o orientador, sem o qual  sequer haveria defesa.

    • Se não houver agradecimentos ao orientador, fica implícito que orientador e orientando estavam em guerra.
    • Fica implícita a mensagem de que o orientador não orientou se o agradecimento ao orientador:
      • vier lá pelo meio de uma lista de agradecimentos, ou
      • se aparecerem como orientadores (pior: antes do orientador oficial) outros orientandos do orientador.
    (Vale a pena deixar o registro do mal-estar para a posteridade?)

    Especifique em que consistiu a contribuição de cada nome arrolado.

    O que é opcional (mas recomendável incluir) nos agradecimentos 

    No caso de dissertações, teses e monografias:

    • a instituição em que o trabalho foi desenvolvido, que disponibilizou sua infraestrutura, como bibliotecas, laboratórios;
    • outra instituição em que tenha feito estágio, bolsa sanduíche;
    • os responsáveis pela liberação ou diminuição de carga horária no trabalho;
    • leitores de versões prévias.

    No caso de artigo, aos pareceristas que tenham contribuído para a melhoria do trabalho.

    No caso de periódicos, há os que exigem 
    autorização por escrito daquele a quem se agradece 
    para que o nome possa ser mencionado nos agradecimentos.
    Evitam, desse modo, que pesquisadores-seniores
    pareçam dar peso a um trabalho cuja existência 
    possam mesmo desconhecer. 
    
    

    Quem (ou o que) não deve estar nos agradecimentos

    Em artigos são raros, uma vez que não há espaço, mas têm sido comuns em monografias, dissertações e teses brasileiras, ao menos em Linguística, o que poderíamos classificar como agradecimentos afetivos. São agradecimentos relativos ao incentivo ou ao suporte, emocional e/ou financeiro, recebido de parentes, amigos e até de  animais de estimação. Também são comuns os agradecimentos religiosos.

    Podem ser comuns, mas é estranho abrir uma dissertação, tese ou monografia e encontrar agradecimentos não acadêmicos, como os exemplos a seguir. Expõem desnecessariamente e num contexto inapropriado a intimidade do autor:

    • Agradeço ao meu namorado, XXXXX, com quem eu sei que passarei o resto da minha vida. 
    • Primeiro de tudo, gostaria de agradecer a Deus por manter a minha mãe ao meu lado. 
    • À minha cadela, que sempre quando eu estava triste me alegrou (mesmo sem dizer uma palavra) com todo o seu amor. 
    • Aos meus amigos que acreditaram em mim. 
    • Às minhas tias que sempre se alegram com minhas conquistas acadêmicas e pessoais.
    Mas e os amigos do café antes das aulas? 
    As tias? O namorado? 
    Chame-os para uma comemoração!
    Num trabalho longo como a tese, o afeto por
    essas pessoas (e o amor a Deus) poderia achar lugar na Dedicatória. 

     É caso de agradecimento ou de coautoria?

    Teses e dissertações não trazem esse problema.

    Comece a preparar o arquivo dos agradecimentos 
    quando estiver começando o trabalho. 
    Garanta desse modo que colegas e professores que 
    contribuíram com sugestões ou comentários 
    relevantes, bibliografia, dados não sejam esquecidos.
    
    

     


    Vale ler os artigos:

    Hayashi, Maria Cristina Piumbato Innocentini. 2018.  Agradecimentos em artigos científicos: o ponto de vista de pesquisadores. Prisma, 37: 55-70. http://ojs.letras.up.pt/index.php/prismacom/article/download/4708/4401

    MONTEIRO, Rosangela et al. 2004. Critérios de autoria em trabalhos científicos: um assunto polêmico e delicado. Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular .19 (4): III-VIII.  http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-76382004000400002&script=sci_arttext

    MONTENEGRO, Mano R.  & ALVES, Venâncio A. Ferreira. Critérios de autoria e coautoria em trabalhos científicos. Acta Botanica Brasilica [online]. 1997, 11 (2): 273-276   http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-33061997000200014&script=sci_arttext


    Referências

    Parte do material desta postagem reproduz

    Rosa, Maria Carlota. 2015. Guia para trabalhos monográficos originais. Material para os orientandos.

    Na lista de autores ou nos agradecimentos?

     

    Uma pesquisa com cerca de 6000 entrevistados

    No início deste ano de 2018, Patience et alii publicaram um preprint em que relatavam uma pesquisa sobre o que, na prática,  seria ou não considerado autor. As respostas vieram de diferentes países (Quadro 1),

    autoria-paises
    Quadro 1

    de diferentes áreas de conhecimento. Poucas foram as respostas enviadas pelo que foi classificado como literatura (apenas 36) e como filosofia (38) (Quadro 2), afinal, a autoria múltipla não é tradição nessas áreas e  “[t]he Researchers in the humanities, mathematics, theoretical physics, and economics stated that most of the questions did not apply to them“.
    autoria-areas
    Quadro 2

     

    Para muitas das atividades discriminadas no questionário, as respostas demonstravam que podiam ser incluídas como autoria “quase sempre” ou “quase nunca” praticamente na mesma proporção (Quadro 3).
    Autoria - atividades
    Quadro 3 
    O artigo pode ser facilmente consultado, porque está num servidor de preprints, o bioRxiv . A referência completa:

     

    Patience, Gregory S.; Galli, Federico; Patience, Paul & Boffito, Daria C. 2018.Intellectual contributions meriting authorship: Survey results from the top cited authors across all science categories. bioRxiv preprint first posted online May. 17, 2018; doi: http://dx.doi.org/10.1101/323519  

    A autoria múltipla: o primeiro, o último, só um “et alii”?

     

    Any issue of Nature today has nearly the same number of Articles and Letters as one from 1950, but about four times as many authors. The lone author has all but disappeared. In most fields outside mathematics, fewer and fewer people know enough to work and write alone. If they could, and could spare the time and effort to do so, their funding agencies and home institutions would not permit it. (Greene, [2007])

    Embora o excerto acima seja relativo à revista Nature, o número de trabalhos em colaboração vem crescendo, mesmo em áreas em que essa não era a tradição, caso da Linguística, especialmente em algumas de suas especialidades.

    Se levarmos em conta, por exemplo, os cinco últimos números da Revista Linguística,  foram 54 os artigos publicados;  28 deles  tinham mais de um autor, sendo que o primeiro número de 2018  tinha um autor em apenas três dos 10 artigos publicados. Mesmo assim, dos sete artigos com mais de um autor, apenas dois tinham mais de dois autores: um com três autores e outro, com oito. Ainda bem longe, portanto, dos números em áreas como a Física ou a Biologia levantados este ano:

    One quarter of the top 500 cited articles in nuclear physics averaged 1160 authors (WoS, 2010 to 2015)* [21]. Author counts biomedical journals are not so high 69 but 19 of the 244 articles Lancet publsihed [sic] in 2017 had more than 40 authors, 10 had  more than 480 authors, and one had 1039 [22]. (Patience et alii, 2018: 3)

    Esses números de autores por trabalho são impensáveis em Linguística.

    __________________
    * WoS = abreviatura para Web of Science, serviço de propriedade da Clarivate Analytics. Essa plataforma pode ser consultada via Portal de Periódicos da CAPES, mas está disponível apenas para os acessos com IP identificado das instituições participantes do Portal. Não faz parte do conteúdo gratuito do Portal. 

    _______________

    A Revista da ABRALIN (Associação Brasileira de Linguística)
    tem implícita a tradição da área nas instruções 
    para submissão de artigos (ênfase adicionada):
    
    
    "Na primeira página, deverão constar o título do trabalho 
    em letras maiúsculas em português ou inglês 
    e o nome do autor com letras maiúsculas somente nas iniciais. 
    No rodapé, deverá ser indicada a qualificação do autor e, 
    se for o caso, sua condição de bolsista do CNPq, CAPES ou FUNCAP".
    
    

    Com o crescente número de autores por trabalho (e com o fato de a publicação científica ter-se tornado um negócio milionário), um conceito que parecia simples tornou-se um tópico em discussão: quem pode ser arrolado como autor afinal?

    Uma situação que parece ter feito a área biomédica se preocupar tanto com o conceito de autor deriva de terem vindo a público casos do que se convencionou chamar “autoria fantasma“:  uma empresa farmacêutica, por exemplo, dentro de sua campanha de marketing prepara um artigo que será assinado por alguém com destaque na área e publicado numa revista famosa. Os nomes ligados ao fabricante que trabalharam no artigo fornecendo as informações que deveriam chegar ao público não aparecem, o que  esconde  que o trabalho é uma peça para incentivar a venda de determinado produto e que não se trata de uma análise independente dos benefícios e riscos de uma droga (ver Moffatt, 2013).

    Quem é autor? Algumas propostas de  editores científicos

    Para os editores, a autoria está ligada ao direito autoral.

    LSA – Linguistic Society of America (como no caso da ABRALIN, não se discutem critérios de autoria; o conceito não traz maiores problemas):

    Authorship. Complete and accurate identifying information for all authors, along with their email addresses, where possible, must be provided on the initial submission of a manuscript.  The corresponding author should be clearly indicated. Changes to a paper’s authorship after the fact must be requested in a letter to the Editors clearly stating why the change is necessary, and must be confirmed by the non-corresponding authors in a brief email message to the Editors. The ultimate decision to make changes after the initial submission rests with the Editors

    ESA – Ecological Society of America (os critérios da ICMJE parecem fundamentar a lista de critérios da área, mas não há necessidade de atender a todos eles):

    Publication: The following principles of ethical professional conduct apply to members reviewing, editing, or publishing grant proposals and papers in the professional literature in general, and particularly to all ecologists seeking publication in the Society’s journals.

    1. Researchers will claim authorship of a paper only if they have made a substantial contribution. Authorship may legitimately be claimed if researchers
      1. conceived the ideas or experimental design;
      2. participated actively in execution of the study;
      3. analyzed and interpreted the data; or
      4. wrote the manuscript.
    2. Researchers will not add or delete authors from a manuscript submitted for publication without consent of those authors.
    3. Researchers will not include as coauthor(s) any individual who has not agreed to the content of the final version of the manuscript. [….]

    WAME – World Association of Medical Editors  (o grupo decide):

    Authorship implies a significant intellectual contribution to the work, some role in writing the manuscript and reviewing the final draft of the manuscript, but authorship roles can vary. Who will be an author, and in what sequence, should be determined by the participants early in the research process, to avoid disputes and misunderstandings which can delay or prevent publication of a paper.

    EASE – European Association of Science Editors    (segue a ICMJE):

    Lista de autores, isto é, todas as pessoas que contribuíram significativamente para o planejamento do estudo, coleta de dados ou interpretação dos resultados e escreveram ou revisaram criticamente o original e aprovaram a versão final do mesmo e consideram-se responsáveis por todos os aspectos do trabalho. Todas as pessoas que cumpram o primeiro critério devem poder participar na elaboração e aprovação da versão final (ICMJE 2016). Os autores mencionados primeiro devem ser aqueles que tiveram maior participação. A ordem dos nomes dos autores deve ser determinada antes de enviar o artigo. Quaisquer alterações feitas depois do envio devem ser aprovadas por todos os autores e explicadas ao editor do periódico (Battisti et al. 2015, ver COPE flowcharts).

    ICMJE –  International Committee of Medical Journal Editors (ou critérios de Vancouver) – na área biomédica, certamente o conjunto de critérios mais referido:

    1. Contribuições substanciais para a concepção e planejamento do trabalho, ou a aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho;  E
    2. Redação prévia ou revisão crítica no que respeita ao conteúdo intelectual; E
    3. Aprovação final da versão a ser publicada;  E
    4. Concordância em poder prestar contas de todos os aspectos do trabalho, assegurando que questões relativas à precisão e integridade de qualquer parte do trabalho sejam apropriadamente investigadas e resolvidas.

     

    E se um pesquisador do grupo morrer antes da submissão?
    Não preencheria os dois últimos critérios da ICMJE.
    A pergunta é estranha, mas já mereceu 
    consideração, por exemplo, em
    Teixeira da Silva & Dobánszki, 2015.
    
    E se ninguém preenche os quatro critérios?
    Ver uma interessante discussão em Moffatt, 2013.
    
    

     


    O primeiro, o último, em ordem alfabética ou … 

    Com a autoria múltipla, surge a questão da ordem dos nomes. A Norma NBR 6023/2002, da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, determinava que a citação de um trabalho de mais de três autores  transforma  todos que não o primeiro autor em et alii  ou et al. (lat. ‘e outros’).

    Na revisão de 2018 dessa Norma, isso foi flexibilizado: “8.1.1.2 Quando houver quatro ou mais autores, convém indicar todos. Permite-se que se indique apenas o primeiro, seguido da expressão et al.”.

    Cada área de conhecimento (e cada país) parece ter sua cultura.

    Um critério de ordenação é respeitar a ordem alfabética dos sobrenomes. Uma crítica à ordem alfabética é que iguala a todos. Alguém de sobrenome Abreu terá mais chances de ser o primeiro autor que alguém com o sobrenome Xavier e, no caso de mais de três autores, algo como Abreu, Leão, Oliveira & Xavier seria Abreu et alii [condenando às trevas do esquecimento todos os demais … Muito dramático!]. Se todos trabalharam, isso não deveria ser um problema.

    Se o critério para listar autores for a contribuição, o primeiro autor é o que mais contribuiu.

    Dependendo da área de conhecimento, a tradição pode levar o nome de mais prestígio e responsável pelo desenho do projeto para o último lugar na lista de autores (Borenstein &  Shamoo, 2015: 272; Dance, 2012). Isso não é o mesmo que dizer que o último nome só está ali para dar peso a nomes em início de carreira, ou que é o dono da sala, que impôs seu nome … e que sequer leu o manuscrito.

    E se o trabalho resulta de uma colaboração 
    internacional interdisciplinar? 
    Não haverá vários pesquisadores com prestígio envolvidos?

    Mas não é tão simples. Na Índia, por exemplo, o Conselho de Medicina reviu em 2015 os critérios para a promoção de professores de instituições médicas e, no tocante às publicações, para ser promovido há a exigência de ser indicado como primeiro ou segundo autor nas publicações  (Aggarwal, Gogtay,  Kumar  &  Sahni, 2016).

    Uma área cinzenta:  quem fica no meio da lista? Há quem diga que ninguém lê aqueles nomes.

    E onde fica o autor correspondente ?

    Em trabalhos com autoria múltipla, o autor correspondente  (ing. corresponding author ou  CA) — que pode não ser nem o primeiro nem o último autor — é o nome responsável  pela comunicação com os editores: 

    This means she needs to ensure that all authors are aware that the manuscript is being submitted and have had a chance to read it and sign off on it; that the potential conflicts of interest of each author are surfaced and thoughtfully collated; and that at least one author has seen, reviewed, and can vouch for the veracity of ALL of the data in the paper. (Marcus, 2016)

    Mas não só: é o nome responsável  também pela comunicação com os leitores e aquele a ser contactado no caso de qualquer questão que porventura surja após a publicação.

    Na China (Borenstein &  Shamoo, 2015: 272) — mas certamente não só lá e na dependência da área de conhecimento — confere prestígio ser o nome indicado como o autor correspondente, atribuição que demonstraria tratar-se de um pesquisador-sênior. 

    Na área Letras e Linguística no Brasil a figura do autor que responde pelo trabalho coletivo junto aos editores do periódico começa a surgir, acompanhando o aumento do número de autores por trabalho. Já está, por exemplo, nas instruções aos autores  da Revista de Estudos da Linguagem, embora com denominação um pouco distinta (ênfase adicionada):

    For multiple author submissions, all authors must be registered as users of the journal; additionally, all authors must be listed on the the submission page by the submitting author. All authors must have ORCIDIDs and these have to be inserted in the Metadata section of the article [….].The submitting author must declare each author’s contribution to the paper upon submission. [….]

    The submitting author must declare each author’s contribution to the research and paper under submission. This information release is incombent on the submitting author and should be inserted in the “Comments to the Editor” section.

    Vem surgindo uma nova figura na publicação de
    trabalhos com autoria múltipla e com dados originais: 
    o guarantor (algo como 'fiador', 'garante'), que atesta
    que teve acesso aos dados e garante a integridade
    e correção do que foi feito por cada autor. 
    Nem sempre é clara a distinção 
    entre o guarantor e o autor correspondente.
    
    

    Strange (2008), com base nos quatro critérios de autoria do ICMJE, propôs que a ordenação da área seguisse os critérios no quadro a seguir.

    Autoria -ICMJE
    A significação a extrair da ordenação de autores de um artigo da área biomédica segundo  Strange (2008) .

    Posso escrever um artigo científico anônimo?
    Não. Trabalho individual ou em grupo, um artigo científico
    tem de estar assinado. Quem assina é responsável pelos
    achados apresentados.
    
    Posso usar um pseudônimo?
    Também não! Mas ... há casos famosos de pseudônimos na
    vida acadêmica. 
    1)  Zoroastro Azambuja Filho e Euclides Rosa foram heterônimos 
    do famoso matemático Elon Lages Lima (1929-2017). Não eram 
    apenas pseudônimos porque deu vida a eles, a ponto de 
    criar um conflito entre ambos
    (entrevista pelos 50 anos do IMPA - Instituto de Matemática 
    Pura e Aplicada, p. 110-111).
    
    2) Nicolas Bourbaki, por sua vez, é um pseudônimo coletivo
    de um grupo de matemáticos fundado na década de 1930, 
    cujos membros iniciais foram 
    Henri Cartan (1904-2008), Claude Chevalley (1909-1984), 
    Jean Delsarte (1903-1968), 
    Jean Dieudonné (1906-1992) e André Weil (1906-1998) 
    (Wikipedia, Nicolas Bourbaki).  
    
    3) O homem que calculava fez parte da 
    iniciação à Matemática de muita gente no Brasil.
    O autor, Malba Tahan foi pseudônimo de Júlio César de Melo e Sousa
    (1895-1974).
    Mas eram outros tempos...

    É preciso mesmo fazer um ranque de importância de participações?

    Uma disputa sobre quem deveria estar, por exemplo, em sétimo ou em oitavo numa lista de 10 autores soa estranha; afinal diz muito pouco para o leitor de um artigo.

    Por outro lado, se o oitavo nome 
    não tivesse feito sua parte como ficaria o artigo?

    Na lista de autores ou nos agradecimentos?

    Levada às últimas consequências, esses critérios também podem retirar alguém da lista de autores e movê-lo para a lista de contribuições que merecem agradecimento e isso nem sempre é fácil e não há consenso nem dentro de uma única área sobre inclusão e exclusão.

    Vejam-se os exemplos (Strange, 2008) de tarefas que não permitiriam a inclusão de um nome na lista de autores, apenas nos agradecimentos na área biomédica.

    Autoria - exclusao
    Nos agradecimentos apenas (Strange, 2008)

     

    Quem é autor? A prática na área da Linguística

    Os critérios da ICMJE são estranhos a Letras e Linguística. Um exemplo. Quem gravou entrevistas, trabalhou na transcrição e trabalhou na anotação linguística do corpus deveria ser incluído como autor? A aplicação dos critérios do ICMJE para a definição de autor em Linguística diria que não seria autor se a participação se limitou a essas atividades. Como se vê, os critérios não são universais.

    E se todo esse conjunto de dados
    for usado por outros grupos de pesquisa que
    sequer conhecem aqueles colaboradores que concretizaram o corpus?
    
    

    Consultei informalmente três expoentes da Linguística no Brasil que sempre trabalharam com grandes grupos de pesquisa. Suas respostas confirmam que, nesta área,  os critérios são decididos no grupo (“os autores do texto decidem quem é quem, e assim procedem à sequenciação dos nomes“) e que mesmo líderes de um grande grupo de pesquisa não são necessariamente coautores, seja em trabalhos com autoria múltipla ou mesmo em dupla (“Raramente publico em dupla –só o fiz duas vezes“). A tradição de publicações monoautorais ainda tem força.

     


    Uma tentativa de evitar conflitos

    Cada área de conhecimento (e cada país) parece ter sua cultura para incluir ou excluir nomes de uma lista de autores de um trabalho. Melhor discutir com o grupo os nomes que serão incluídos numa publicação e sua ordenação ─ vale a pena fazer dessa  uma decisão clara no grupo. De preferência antes de o trabalho começar. E durante o trabalho também. E deixar claro na publicação em que consistiu a colaboração de cada um.


    Referências

    ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. Informação e documentação –
    Referências – Elaboração – NBR 6023, Ago. 2002.

    Revisão de 2018: https://www.ufpe.br/documents/40070/1837975/ABNT+NBR+6023+2018+%281%29.pdf/3021f721-5be8-4e6d-951b-fa354dc490ed

    Aggarwal, R., Gogtay, N., Kumar, R., Sahni, P., Indian Association of Medical Journal Editors. 2016. The revised guidelines of the Medical Council of India for academic promotions: Need for a rethink. Journal of Ayurveda and integrative medicine, 7(1): 3-5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4910577/

    Borenstein, Jason &  Shamoo, Adil E. 2015.  Rethinking Authorship in the Era of Collaborative Research, Accountability in Research, 22: 267-283. http://nursing.msu.edu/research/Resources%20for%20Researchers/Reccomended%20Reading%20Articles/Rethinking%20authorship%20in%20the%20era%20of%20collaborative%20research.pdf

    Dance, Amber. 2012. Authorship: Who’s on first? Nature, 489: 591–593. https://www.nature.com/naturejobs/science/articles/10.1038/nj7417-591a

    Greene, Mott. [2007]. The demise of the lone author. History of the Journal Nature. https://www.nature.com/nature/history/full/nature06243.html

    ICMJE – International Committee of Medical Journal Editors . Who Is an Author?  http://www.icmje.org/recommendations/browse/roles-and-responsibilities/defining-the-role-of-authors-and-contributors.html

    IMPA – Instituto de Matemática Pura e Aplicada. 2003. IMPA 50 Anos. http://w3.impa.br/~webnew/publicacoes/livro_impa_50_anos/livro_impa_50_anos_pdf.pdf

    Moffatt Barton. 2013. Orphan papers and ghostwriting: The case against the ICMJE
    criterion of authorship. Accountability in Research, 20:59-71.

    Marcus, Emilie. 2016. What does it mean to be the corresponding author? Cell’s “Crosstalk”, 8Mar2016.  http://crosstalk.cell.com/blog/what-does-it-mean-to-be-the-corresponding-author

    Patience, Gregory S.; Galli, Federico; Patience, Paul & Boffito, Daria C. 2018.Intellectual contributions meriting authorship: Survey results from the top cited authors across all science categories. bioRxiv preprint first posted online May. 17, 2018; doi: http://dx.doi.org/10.1101/323519 

    Revista de Estudos da Linguagem .  http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/relin/index

    Revista Linguística. https://revistas.ufrj.br/index.php/rl

    Strange, Kevin. 2008. Authorship: why not just toss a coin?. American journal of physiology. Cell physiology , 295 (3): C567-75. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2544445/

    Teixeira da Silva, Jaime & Dobánszki, Judit. 2015. The Authorship of Deceased Scientists and Their Posthumous Responsibilities. Science Editor. https://www.csescienceeditor.org/article/the-authorship-of-deceased-scientists-and-their-posthumous-responsibilities/

    Wikipédia, Contribuidores da. Malba Tahan 

    Wikipédia, Contribuidores da. Nicolas Bourbaki

    3 – Alguns comentários sobre as partes 1 e 2 anteriores: ainda a autoria

     

    Autoria não é presente, como já se ressaltou aqui anteriormente. Somos responsáveis pelo que assinamos.  Autoria também não é uma cortesia a se fazer com colegas, amigos, parentes. Menos ainda se for uma cortesia-surpresinha, da qual o agraciado não é avisado, como parece ter acontecido em dois dos trabalhos retratados do Dr. Reuben.

    Quem assina um trabalho tem de “estar ciente de como os resultados foram apresentados e estar disposto a defender o manuscrito final“, afirmam Padula, Somerville & Mudrak, 2018. Resumem, desse modo, o quarto e último dos critérios de autoria estabelecidos pelo  International Committee of Medical Journals Editors (ICMJE) que têm de ser satisfeitos por cada autor,  a saber:

    • Contribuições substanciais para a concepção e planejamento do trabalho, ou a aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho;  E
    • Redação prévia ou revisão crítica no que respeita ao conteúdo intelectual; E
    • Aprovação final da versão a ser publicada;  E
    • Concordância em poder prestar contas de todos os aspectos do trabalho, assegurando que questões relativas à precisão e integridade de qualquer parte do trabalho sejam apropriadamente investigadas e resolvidas.
    Mas tenho de responder pelo que não fiz no trabalho? 
    Essa parte nem é minha área!
    No famoso caso Imanishi-Kari, David Baltimore, um dos autores 
    e,já na época, Prêmio Nobel, assim se referiu aos dados
    do artigo da Cell: 
    "It was the kind of work I didn't know how to do, 
    had never done, 
    and I had collaborated with Imanishi-Kari 
    for that reason" (Kleves, 1996: 99)
    

    O comentário de Baltimore vai ao encontro da crítica de que o quarto critério do ICMJE  não é razoável ou viável para todos os membros de uma equipe:

    For example, many undergraduate researchers do not have the authority or expertise to handle the associated responsibilities contained with ICMJE’s criterion. Along these lines, postdoctoral fellows are often at the mercy of a lab director in terms of their professional future and do not always have robust support systems in place to protect them from reprisal if they seek to uphold the “accuracy or integrity” of a project. [….] The power differential between junior and seniors researchers is hard to ignore. Furthermore, one collaborator may effectively have no way of knowing how another’s data were obtained or what they fully mean. For example, a biochemist collaborating with an X-ray crystallographer or an electron microscopist might not be able to, or struggle to, appreciate the field-specific nuances of the other person’s work. (Borenstein &  Shamoo, 2015: 274)

    Caso se leve em conta quem tomou parte da redação do texto em algum momento, de novo  vem a pergunta: como ficam trabalhos com equipes multidisciplinares,  de diferentes centros (parte deles não nativos da língua em que saíra a publicação)?  E se o número de autores chegar aos milhares, se forem mais de 5000 autores,  por exemplo, como no trabalho sobre o bóson de Higgs de 2015? Ou mesmo 20?  Que contribuições num projeto qualificam alguém como autor de um trabalho?

    A complexidade do problema vem promovendo a proposta, pelo menos desde 2012, de que se deixe claro o tipo de contribuição de cada um, caso da  taxonomia CRediT.

    As áreas têm culturas diferentes. Um exemplo.

    No começo dos anos 1990, passeando pela seção de painéis de um encontro de física, chamou a minha atenção um trabalho sobre estatística de distribuição de níveis de energia em um cristal. [….]  Perguntei ao colega que estava apresentando o painel sobre essa estatística e a resposta foi que ele fizera os cálculos dos níveis de energia, não sabia interpretá-los e quem poderia responder a minha pergunta era o outro autor, que não estava presente. [….] Na época o desconforto que a questão suscitou foi aplacado pela lembrança de uma prática internalizada na comunidade científica a qual pertencia. Experimentos importantes são realizados por diferentes grupos utilizando amostras sofisticadas obtidas em poucos laboratórios. O uso dessas amostras configura um tipo de colaboração comum e os artigos resultantes dessas colaborações sempre têm o produtor das amostras como autor. Faz parte do paradigma da comunidade a percepção clara da função específica daquele autor na lista de autores.  A autoridade dele é sobre a amostra e não sobre a pesquisa resultante em si. (Schulz, 2017)

     


    Referências

    Borenstein, Jason &  Shamoo, Adil E. 2015.  Rethinking Authorship in the Era of Collaborative Research, Accountability in Research, 22: 267-283. http://nursing.msu.edu/research/Resources%20for%20Researchers/Reccomended%20Reading%20Articles/Rethinking%20authorship%20in%20the%20era%20of%20collaborative%20research.pdf

    Castelvecchi, Davide. 2015. Physics paper sets record with more than 5,000 authors. Nature News. https://www.nature.com/news/physics-paper-sets-record-with-more-than-5-000-authors-1.17567#/b1

    Harvard University and the Wellcome Trust. 2012. Report on the International Workshop on Contributorship and Scholarly Attribution, IWCSA Report .   http://projects.iq.harvard.edu/files/attribution_workshop/files/iwcsa_report_final_18sept12.pdf

    Kleves, Daniel J. 1996. The assault on David Baltimore. The New Yorker, 27Maio1996.  http://web.mit.edu/chemistryrcr/Downloads/Baltimore.pdf

    Padula, Danielle, Somerville, Theresa & Mudrak, Ben. 2018. Todos os periódicos devem ter uma política que defina a autoria – aqui está o que incluir [Publicado originalmente no blog LSE Impact of Social Sciences em Janeiro/2018] [online]. SciELO em Perspectiva, 2018.  https://blog.scielo.org/blog/2018/08/31/todos-os-periodicos-devem-ter-uma-politica-que-defina-a-autoria/

    Schulz, Peter. 2017. Já não se fazem mais autores como antigamente. Jornal da Unicamp. 17Out2017. https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/ja-nao-se-fazem-mais-autores-como-antigamente

    [Parte 1] [Parte 2] [Parte 3]

    2 – Erro, dados falsos … e a avaliação por especialistas?

     

    Como um artigo pode apresentar  dados não confiáveis, não importa a razão,  se, ao ser submetido a um periódico, é encaminhado para análise de mais de um parecerista, todos especialistas na área do trabalho?

    Primeiramente porque não se espera a má conduta de um cientista. Nas palavras do Prêmio Nobel de Medicina em 1975, David Baltimore, In science, we assume that a colleague is trustworthy and only in extreme do we doubt it (MIT News, 2002).

    A confiança no colega expressa por Baltimore 
    é, nesse caso, mais que retórica. 
    Durante todo o processo de falsificação de dados 
    movido contra Thereza Imanishi-Kari, 
    em sequência à publicação em 1986 
    de artigo na revista Cell em coautoria, 
    ele a defendeu. Imanishi-Kari havia sido denunciada 
    pela então pós-doutoranda Margot O'Toole 
    que trabalhavam em seu laboratório.
    Ao final de um longo processo de cerca de dez anos,  
    Thereza Imanishi-Kari foi inocentada.
    (Kleves, 1996)

    Para Marisa Palácios, do  Conselho Nacional de Saúde/ Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e primeira Coordenadora da CTEP-UFRJ,

    a honestidade é pressuposta. É princípio básico do Direito, todos são inocentes até prova em contrário. Isso significa que independente da concepção filosófica que nos oriente, se há uma natureza humana e se ela é boa ou má, se dizer a verdade é um requisito ético para qualquer comunicação científica (código de ética do cientista independente da formalidade disso), então temos razão em dizer que podemos pressupor que todos dizem a verdade. (Comunicação pessoal, 21/07/2015)


    Um exemplo de como pode  ser difícil para um parecerista detectar um problema 

    Scott Reuben (n.1958), anestesiologista no Baystate Medical Center (BMC-  EUA).

    • Em 2005 ganhou bolsa de US$ 75.000 da Pfizer para estudar o Celebrex (um antiinflamatório que, no Brasil, é vendido como Celebra).
    • Em 2007, editorial de Anesthesia & Analgesia  afirmava que Reuben estava na “forefront of redesigning pain management protocols” e caracterizou seus estudos como  “carefully planned” e “meticulously documented” .

    En mayo de 2008, se inició una auditoría interna dentro del BMC, cuando se descubrió que el investigador no había solicitado permiso al Comité Ético Asistencial del hospital para la realización de algunos de los estudios referidos. Como consecuencia de dicha auditoría, el Dr. Scott S. Reuben reconoció finalmente, que los resultados aparecidos en 19 de sus estudios y 2 resúmenes publicados [….], no eran consecuencia de la aplicación de los tratamientos a pacientes reales, sino fruto de su invención y que los datos eran de su responsabilidad exclusiva.

    Además de adulterar datos, el Dr. Reuben parece haber cometido falsificación en la publicación, ya que algunos coautores como el Dr. Evan Ekman, cirujano ortopédico, dijo que su nombre apareció como coautor en al menos dos de los artículos de los que las revistas se han retractado, a pesar de que no había tenido ninguna participación en los manuscritos.  (Rama-Maceiras, Ingelmo Ingelmo, Fàbregas Julià & Hernández-Palazón: 2009)

    • Condenado à prisão em 2009 por fabricação de dados ao longo de 15 anos.

    His research, which was published in a medical journal, has since been quoted by hundreds of other doctors and researchers as “proof” that Celebrex helped reduce pain during post-surgical recovery. There’s only one problem with all this: No patients were ever enrolled in the study! (Adams, 2010)

    • Quando eclodiu o escândalo, seus trabalhos tinham recebido cerca de 1200 citações.

    Retirar a confiança do processo é também atribuir aos pareceristas (e editores, e leitores) um papel que eles não têm, porque “neither the peer reviewers, nor the editors, nor the readers were there as witnesses, so it is up to the authors to certify what took place (Gunsalus & Rennie, 2015).


    Referências

    Adams, Mark. 2010. Big Pharma researcher admits to faking dozens of research studies for Pfizer, Merck (opinion). Natural News, 18Fev2010.  http://www.naturalnews.com/028194_Scott_Reuben_research_fraud.html#ixzz3g9SYCFAa

    Gunsalus, C. K.  & Rennie, Drummond  [2015]. “If you think it’s rude to ask to look at your co-authors’ data, you’re not doing science”: Guest post. Retraction Watch. <http://retractionwatch.com/2015/06/18/if-you-think-its-rude-to-ask-to-look-at-your-co-authors-data-youre-not-doing-science-guest-post/>

    Kleves, Daniel J. 1996. The assault on David Baltimore. The New Yorker, 27Maio1996.  http://web.mit.edu/chemistryrcr/Downloads/Baltimore.pdf

    MIT News. 2002.  Trust essential in scientific collaboration, says David Baltimore. 22Fev2002. http://news.mit.edu/2002/baltimore

    Rama-Maceiras, P. , Ingelmo Ingelmo, I. , Fàbregas Julià, N. & Hernández-Palazón, J. 2009. Algología fraudulenta. Un dolor demasiado profundo para una adecuada analgesia. Revista Española de Anestesiología y Reanimación  56: 372-379, 2009. <http://www.elsevier.es/es-revista-revista-espanola-anestesiologia-reanimacion-344-linkresolver-algologia-fraudulenta-un-dolor-demasiado-90211771 >

    Vasconcelos, Sônia M. R. 2007. O plágio na comunidade científica:questões culturais e linguístcas.  Ciência e Cultura, 59 (3): 4-5 Jul/Set. 2007.  http://cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/v59n3/a02v59n3.pdf

    [Parte 1] [Parte 2] [Parte 3]

     

     

    1- Simples erro ou má conduta? A publicação que compromete o currículo

     

    Nada mais constrangedor para o currículo de um pesquisador que ter uma coleção de artigos retratados.

    Assim Diniz & Terra (2014: 117) fazem referência ao efeito da retratação de um trabalho no currículo de um pesquisador.

    Como no seu emprego mais comum, a palavra retratação  significa uma declaração de erro, um desmentido em relação a algo dito anteriormente. No sentido especializado com que é empregada no mundo acadêmico, é uma declaração de erro grave num trabalho já publicado.

    A retratação é um mecanismo para corrigir a literatura e alertar os leitores sobre publicações que contêm dados tão falhos ou errados que não se pode confiar em suas descobertas e conclusões. Dados não confiáveis podem resultar de simples erro  ou de má conduta na pesquisa.

    COPE/Committee on Publication Ethics. Retraction guidelines.

    O trabalho tem erro grave

    O erro acidental, sem má fé, pode ocorrer por várias razões, que podem incluir a inabilidade na análise dos resultados ou mesmo a má qualidade do equipamento  empregado na coleta de dados (não se trata aqui  do erro que não resulta de engano; ver, por exemplo,  Practices of Science: Scientific Error).

    Quando um autor ou grupo de autores se dá conta de um erro nos resultados ou na sua interpretação em um artigo já publicado, é de sua responsabilidade procurar o editor do periódico em questão e submeter uma retratação. Tal ato evidencia um forte senso de rigor e ética, uma vez que as consequências de uma retratação para o pesquisador, sua instituição e para o próprio periódico não são de todo positivas. De fato, por temer tais consequências muitos preferem abster-se e deixar o artigo cair no esquecimento. Contudo, quando se trata de admitir um erro honesto, o ato de retratar-se deveria dar crédito ao autor. (Nassi-Calò, 2014)

    Face à carga negativa associada à retratação para todos os envolvidos no processo, alguns editores têm optado por apresentar uma “nota de correção” do trabalho, como observa  Hilda Bastian, e não uma retratação (in Brainard & You, 2018), nos casos de erros.

    Entende-se por má conduta científica toda conduta de um pesquisador que, por intenção ou negligência, transgrida os valores e princípios que definem a integridade ética da pesquisa científica e das relações entre pesquisadores [….]. A má conduta científica não se confunde com o erro científico cometido de boa fé nem com divergências honestas em matéria científica. (FAPESP, 2011)

    A má conduta, segundo Nassi-Caló (2014), vem sendo a principal causa de retratação, afirmação confirmada no conjunto de histórias na Science lançado no último dia 25 de outubro em conjunto com a base de dados da Retraction Watch. Entre as condutas condenáveis mais frequentes nos dados dessa base surgem o plágio e o auto-plágio, as imagens falsas, processo de revisão por pares comprometido pela presença do autor como parecerista de seu trabalho e ainda autoria falsa e, em trabalho com seres humanos, a falta de aprovação de um CEP/ Comitê de Ética em Pesquisa.

    Uma retratação pode levar a outras retratações, porque uma vez detectado algo tão grave que leve à reprovação pública de um trabalho, em especial nos casos de má conduta, as publicações prévias daquele(s) autor(es) podem ser reavaliadas. No  Japão, por exemplo,  a reavaliação pode recuar até a tese, como se depreende do comentário do Prof. Iekuni Ichikawa:

    From my extensive personal experience serving as a member of misconduct investigation committees, both funding agencies and institutions mandate that committees investigate not just the papers initially flagged as potentially problematic, but that investigators often look deep into publications during early stages of a research career.  In the case of Haruko Obokata of the STAP cell scandal, investigations led to the revoking of her PhD based on plagiarism found in her thesis. (Retraction Watcht)

    A má conduta na pesquisa pode-se dar de modos diferentes e em estágios diferentes do trabalho. Esses modos foram resumidos na sigla FFP, iniciais das palavras Fabricação, Falsificação e  Plágio. A má conduta não é um problema apenas do autor de um artigo: ela chama à responsabilidade também sua instituição.

    Este tema ainda é relativamente novo no meio acadêmico brasileiro. Mas as mudanças nesse cenário estão ganhando velocidade.

    Um cenário em mudança no Brasil

    Num artigo de 2007, Sônia Vasconcelos citava o editor de Cadernos de Saúde Pública, Carlos Coimbra, que, num editorial sobre  plágio ainda na década de 1990, afirmava:  “no Brasil pouco se fala sobre plágio em ciência. Isto certamente decorre menos da ausência do problema no país do que da falta de iniciativas para aprofundar essa discussão.” Esse quadro começaria a mudar cerca de uma década e meia mais tarde, com integridade e ética em pesquisa ganhando lugar na agenda do MEC e das agências de fomento.

    Num âmbito mais restrito, que diz respeito aos procedimentos 
    que podem levar algum nível de risco aos participantes
    numa pesquisa com seres humanos,  
    em 1988 o Conselho Nacional de Saúde/CNS 
    propunha que fossem criados comitês de ética:
    em "toda instituição de saúde credenciada 
    pelo Conselho Nacional de Saúde na qual se realize 
    pesquisa deverá existir: I – Comitê de Ética, 
    caso se realize pesquisas em seres humanos" 
    (Resolução N° 01/88 Art. 83).
    O CNS aprovaria em 1996 outro documento, a Resolução N°196/96,
    com diretrizes e normas regulamentadoras 
    de pesquisas envolvendo seres humanos, revisada pela 
    Resolução Nº 466/12 .
    
    

    Em mudança na UFRJ

    • No âmbito da Universidade Federal do Rio de Janeiro/ UFRJ, em agosto de 2012, ainda na gestão da Professora Débora Foguel como Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa, começava a tomar forma a CTEP/ Câmara Técnica de Ética em Pesquisa, que seria aprovada cerca de um ano depois, em 2013 (Portaria nº 8645 , de 30 de julho de 2013) e  instalada pelo Reitor Carlos Levi em 24 de agosto de 2013.
    • Atualmente a CTEP é coordenada pela Prof. Sonia Vasconcelos (IBqM).
    E o que faz a CTEP-UFRJ?
    O objetivo da CTEP é promover o desenvolvimento da ética 
    em todas as etapas da pesquisa realizada na UFRJ 
    desde a elaboração do projeto, a captação dos recursos, 
    condução, comunicação e impacto sócio-ambiental, 
    propondo políticas e ações educativas

    Neste panorama global, a responsabilização nas atividades científicas e a confiança pública na ciência são hoje consideradas aspectos cruciais no âmbito da governança em ciência, tecnologia e inovação (C,T&I). [….] Do ponto de vista institucional, crescentes esforços têm sido empregados por instituições de diversos países para estimular a integridade acadêmica, bem como para identificar e prevenir a má conduta na pesquisa. Problemas como a falsificação/fabricação de resultados e o plágio de idéias, dados e de qualquer produção intelectual alheia, como a cópia parcial ou total de textos, têm sido foco de atenção. Entretanto, a dimensão atual desse tema é extremamente ampla [….]. No contexto educacional, os impactos da discussão mundial sobre integridade científica estão diretamente associados à formação do jovem pesquisador e à qualidade da pesquisa comunicada aos pares e à sociedade. 

    (Extraído de  CTEP. Integridade em Pesquisa)

    Uma instituição de ensino e pesquisa precisa de estar preparada 
    para lidar com os conflitos que infelizmente ocorrem 
    e que envolvem a pesquisa. 
    Sua administração precisa de ter, 
    por exemplo, uma política para lidar com denúncias de má conduta.
    
    Um conflito sobre quem tem direito aos dados coletados, 
    uma acusação de roubo de projeto, de artigo, 
    uma denúncia de que uma tese copia um ou mais trabalhos 
    são problemas que podem tomar vulto, ultrapassar 
    os muros do laboratório, do programa, os da Unidade e chegar 
    ao Conselho de Ensino para Graduados/CEPG, no caso da UFRJ.
    
    A CTEP-UFRJ é o escritório de assessoria especializada do CEPG.
    
    

    Mas ... um conflito pode ultrapassar os muros da universidade, 
    apesar de instâncias como a CTEP. 
    Um exemplo famoso em que as consequências 
    ultrapassaram em muito o laboratório ficou conhecido 
    como o Caso Baltimore ou Caso Thereza Imanishi-Kari e foi tema 
    de longo artigo de Daniel J.Kleves para The New Yorker.
    Esse caso se arrastou entre 1986 e 1996, em sequência 
    à publicação,em 1986, de artigo na revista Cell 
    em que o Nobel de Medicina David Baltimore era um dos autores. 
    A biomédica nascida em Indaiatuba, São Paulo, 
    Thereza Imanishi-Kari, então no MIT, coautora no artigo, 
    foi denunciada por falsificação de dados 
    pela então pós-doutoranda Margot O'Toole,
    que trabalhavam em seu laboratório.
    Insatisfeita com as soluções intra-muros,
    que não viram má conduta na supervisora, O'Toole conseguiu fazer 
    o caso chegar a um congressista que tentava diminuir 
    o montante das verbas de pesquisa nos EUA e que acionou
    o Serviço Secreto contra Imanishi-Kari.  
    Dez anos após a denúncia que deu início a um processo kafkiano  
    (porque durante quase todo o processo a acusada 
    não podia tomar ciência das 19 acusações 
    movidas contra ela), Thereza Imanishi-Kari foi inocentada.
    
    

    Na ficção é mais fácil.
    
    Quem acompanhou o seriado de televisão Dr. House* 
    pôde acompanhar o conflito entre a ética Dra. Allison Cameron 
    e o colega Dr. Eric Foreman. 
    Ele rouba um artigo da colega de equipe e o publica antes dela. 
    Naquela bagunça de hospital todos sabem da má conduta, 
    que passa a afetar o trato com os pacientes. Mas não há 
    qualquer instância a que recorrer.
    À beira da morte e depois de enterrar propositadamente 
    uma agulha infectada na perna da Dra. Cameron, o Dr. Foreman
    confessa o roubo do artigo (o que até então negara) 
    e lhe pede desculpas. Ele não morre e ela o perdoa. 
    Funciona na ficção, 
    onde nem um único advogado entrou na história.
    * House MD.2005. Distractions (S02, Ep. 12).
    
    

    Plágio, fabricação e falsificação de dados não podem mais ser colocados em esquecimento no meio acadêmico. Comentários como aqueles a seguir, extraídos de  Vasconcelos et alii (2009),  talvez não surgissem mais nos resultados de um estudo, passados 10 anos (ênfase adicionada):

    A student asked me to review her thesis. Sure, I was very happy to do so…It came to a point where I thought” I know this style… “And I went on reading…five, six pages from my own thesis! Had she copied that from someone else’s writing?…I’ve never met a situation like that; the really strange thing is that I talked to her thesis advisor, who considered the whole issue trivial …

     “I don’t care…a paragraph from my thesis… [a student copying] not the whole thesis…but some paragraphs, I don’t care…Materials and methods? [Students] always copy and paste from other students…


    Referências

    I Brazilian Meeting on Research Integrity, Science and Publication Ethics/ I BRISPE http://www.ibrispe.coppe.ufrj.br/port.php

    CTEP/ Câmara Técnica de Ética em Pesquisa. Históricohttp://cpro16197.publiccloud.com.br/~ctep/index.php/ctep/historico 

    CTEP/ Câmara Técnica de Ética em Pesquisa. Diretrizes sobre integridade acadêmica. http://cpro16197.publiccloud.com.br/~ctep/index.php/noticias/97-diretrizes-sobre-integridade-academica 

    CTEP/ Câmara Técnica de Ética em Pesquisa. Integridade em Pequisa.  http://cpro16197.publiccloud.com.br/~ctep/index.php/subcamaras/integridade-em-pesquisa

    Diniz, Débora & Terra, Ana. 2014. Plágio: palavras escondidas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.

    FAPESP/ Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Código de boas práticas científicas. http://www.fapesp.br/boaspraticas/codigo_050911.pdf

    HOUSE M.D. 2005. 2ª temporada. Direção: Bryan Singer. Intérpretes: Hugh Laurie, Robert Sean Leonard, Lisa Edelstein, Omar Epps, Jennifer Morrison, Jesse Spencer. Fotografia: Roy H. Wagner.[s.l.]: Universal Studios, 2006. 6 DVDs (1051 min), fullscreen, color.

    Ichikawa,  Iekuni. 2018. When researchers from a particular country dominate retraction statistics, what does it mean? Retraction Watcht, 24Out2018.  http://retractionwatch.com/2018/10/24/when-researchers-from-a-particular-country-figure-prominently-in-retraction-statistics-what-does-it-mean/

    Kleves, Daniel J. 1996. The assault on David Baltimore. The New Yorker, 27Maio1996.  http://web.mit.edu/chemistryrcr/Downloads/Baltimore.pdf

    NASSI-CALÒ, Lilian. Os desafios da retratação: passar a literatura a limpo pode ser difícil [online]. SciELO em Perspectiva, 2014  https://blog.scielo.org/blog/2014/10/10/os-desafios-da-retratacao-passar-a-literatura-a-limpo-pode-ser-dificil/

    OAB/ Ordem dos Advogados do Brasil/Comissão Nacional de Relações Institucionais do Conselho Federal/ Ricardo Bacelar Paiva. 2010. Proposição 2010.19.07379-01 – Proposta de adoção de medidas para prevenção do plágio nas Instituições de Ensino e do comércio ilegal de monografias. 

    Practices of Science: Scientific Error. In: Exploring Our Fluid Earth.  https://manoa.hawaii.edu/exploringourfluidearth/physical/world-ocean/map-distortion/practices-science-scientific-error

    Vasconcelos, Sônia M. R. 2007. O plágio na comunidade científica:questões culturais e linguístcas.  Ciência e Cultura, 59 (3): 4-5 Jul/Set. 2007.  http://cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/v59n3/a02v59n3.pdf

    Vasconcelos, Sônia M. R.;  Leta,Jacqueline;  Costa, Lídia;   Pinto, André Sorenson, Martha M. 2009. Discussing plagiarism in Latin American science. Brazilian researchers begin to address an ethical issue. EMBO Reports, 10(7), 677–682.  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2727439/

    [Parte 1] [Parte 2] [Parte 3]

    3 – E como decido para onde mando meu trabalho?

    Numa postagem anterior afirmei que, quando um aluno me pergunta onde publicar um artigo, “em geral lhe respondo que preferencialmente procure periódicos acadêmicos com revisão por pares e alto fator de impacto  (FI) – e, lógico, que tenha relação com o tema do artigo“. É a resposta rápida, automática, mas afora a última parte, ela não ajuda muito.

    Vamos então agora responder mais devagar, levantando alguns pontos a serem verificados quando da escolha de um periódico para submissão de trabalhos.


    A revista aceita trabalho de quem não é Doutor?  

    Em princípio a qualidade do trabalho é que deveria contar na submissão, mas a avaliação da pós-graduação brasileira pela CAPES acabou gerando um efeito colateral inesperado.

    Até recentemente documentos da CAPES para a avaliação dos programas de pós-graduação da Área de Letras e Linguística recomendavam que fossem colocados nos estratos mais altos do Qualis Periódicos (A1, A2 e B1) aqueles com “artigos de alta qualidade, preferencialmente escritos por doutores no Brasil ou no exterior, com efetiva contribuição científico-acadêmica para a Área” (ver, por exemplo, Comunicado 001/2011 – Área Letras e Linguística).

    Paiva (2015: 9), numa mesa-redonda no 30º Encontro Nacional da ANPOLL/ Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística, chamava a atenção para o fato de que “preferencial não significa proibição“; na prática, porém, foi o que significou. Com isso vem sendo difícil um pós-graduando publicar sozinho um trabalho no Brasil.

    Na avaliação de 2017 essa recomendação não estava mais presente (ver Considerações sobre Qualis Periódicos Letras / Linguística), o que deve começar a alterar essa situação.

    Exemplos quanto a esse aspecto da política editorial. 
    A Revista da Abralin:
    Serão aceitos artigos de doutores, doutorandos e mestres; 
    e de graduandos, graduados e mestrandos, 
    quando em coautoria com mestres, doutorandos ou doutores. 
    
    A Revista da ANPOLL:
    a) os autores deverão ter título de doutor ou 
    estar cursando o doutorado;
    b) autores com título de graduação ou de mestrado, 
    bem como mestrandos poderão apresentar trabalhos como coautores, 
    desde que ao menos um dos autores do trabalho 
    preencha o critério descrito no item a.
    
    A revista Ilha do Desterro:
    Works that have at least one doctorate are accepted. 
    PhD Candidates can submit articles without doctors as co-authors, 
    provided he/she sends us an advisor's letter 
    explaining the reasons for his/her absence.
    Masters and Master students can submit articles 
    co-authored by PhD researchers. 
    The Editorial Board understands that 
    the supervision of students should be explicit, 
    and should not be taken as co-authors. 
    Derived from Master`s or Doctoral`s research 
    articles should include the supervisor`s name in a footnote, 
    and not as co-author. 
    An exception is made for reviews, 
    doctoral students` reviews are allowed.
    
    

    2  Publiquei meu trabalho como preprint numa plataforma. Ainda posso mandar esse trabalho para uma revista?

    Algumas revistas aceitam, outras consideram preprint como publicação prévia do trabalho.

    3  A revista segue boas práticas editoriais?

    Por que deveríamos considerar o envio de trabalho para um periódico de que tomamos conhecimento por spam? Ou para uma revista de que se diz, no meio acadêmico, que tem como critério de aceitação  o pagamento de uma ou mais taxas?

    Ter o nome ligado a práticas questionáveis não é bom — e alegar que essas publicações podem ser úteis para melhorar o currículo quando se  está começando a vida acadêmica é um mau começo .

    Como membro de um programa de pós-graduação, arrolar publicações desse tipo implica criar uma dor de cabeça para o coordenador, porque cada artigo desses recebe zero justificado na avaliação da CAPES:

    Enquadra-se no estrato C o periódico que não atende às boas práticas editoriais, tendo como padrão referencial os critérios disponíveis na COPE* (publicationethics.org), e/ou não atende aos critérios dos estratos de A1 a B5. (Considerações sobre Qualis Periódicos Letras / Linguística).

    *COPE-  Committee on Publication Ethics 

    Para decidir onde publicar não é preciso verificar se o título consta de uma relação como aquela que ficou conhecida como a lista de Beall, que foi tirada do ar, ou alguma daquelas que foram propostas em seu lugar.

    Para decidir onde publicar, melhor tomar outro caminho, mais simples: o de fazer a própria  lista a partir das revistas em que foram publicados os artigos lidos e citados. Se for uma revista de AA/Acesso Aberto, depois de escolher a revista é relativamente simples verificar se está numa base como a Scielo, por exemplo;  se está no DOAJ/ Directory of Open Access Journals 

    4 E se a revista considerada para publicação não está no Qualis?

    Isso significa que nos programas ainda não se registrou qualquer publicação nesse veículo.

    Uma nota. No dia 10 de outubro passado, a CAPES aprovou um documento que propõe mudanças na avaliação da pós-graduação. Entre elas está uma reestruturação do Qualis:

    Proposta: uma análise geral do QUALIS das áreas
    de forma a criar critérios, de um lado,
    mais homogêneos de qualificação dos veículos de comunicação 
    da produção científica, e de outro, 
    uma reflexão mais profunda acerca da aplicação em geral 
    do fator QUALIS em áreas como Ciências Humanas e Engenharias. 
    Uma das possibilidades seria a fusão de vários dos QUALIS atuais 
    gerando grandes QUALIS a serem usados por mais de uma Área. 
    Isso permitiria separar a Avaliação 
    em três ou quatro conjuntos de QUALIS.

    5 E se a revista acaba de ser criada?

    • Tem ISSN  (International Standard Serial Number ou  Número Internacional Normalizado para Publicações Seriadas)?  Se não tem, melhor desconsiderar, porque será difícil demonstrar que  ela existe.
    • Como tomou conhecimento dela? Pelo Orientador? Num encontro da Área? Numa lista de discussão de Linguística (por exemplo, Linguist List, Etnolinguística, Fonetiks) ou em redes sociais relacionadas? Ou por spam?

    Se tenho de pagar para o artigo ser publicado é porque a revista é potencialmente predatória?

    Não, como se viu no preçário publicado em postagem anterior.

    7 A revista é famosa; o trabalho foi aceito: preciso pagar e cumprir o embargo. E aí?

    Essas revistas podem impulsionar uma carreira e é por isso que são por vezes referidas como “revistas de luxo” ou “revistas glamurosas”, com taxas de rejeição de artigos que ultrapassam os 90% (Barata, 2010).

    São revistas para assinantes publicadas por grandes grupos editoriais. Com o crescimento do movimento por AA, algumas dessas revistas ficaram híbridas, permitindo AA (em geral com uma sobretaxa cobrada do autor), colocando um período de embargo para os artigos entrarem em AA; ou criaram novas revistas em AA que, segundo esses grupos, sustentam as revistas já tradicionais com as taxas a serem cobradas dos autores, como informado na nota a seguir, da revista Science:

    Science and many other subscription journals have adopted a policy of making research papers freely available after 12 months; at the same time, many publishers have launched scores of new open-access journals, which charge authors a fee. For instance, the publishers of Nature, another high-profile subscription title that is considered Science’s main competition, in 2011 launched Scientific Reports, an open-access title. ( Kaiser & Malakoff, 2014)

    Em matéria publicada no The Guardian, Randy Schekman, que recebeu o Nobel de Medicina em 2013, ele próprio editor de uma revista de AA, eLife, comparou os índices de rejeição dessas revistas de luxo às coleções limitadas no mundo da moda:

    These journals aggressively curate their brands, in ways more conducive to selling subscriptions than to stimulating the most important research. Like fashion designers who create limited-edition handbags or suits, they know scarcity stokes demand, so they artificially restrict the number of papers they accept. The exclusive brands are then marketed with a gimmick called “impact factor” – a score for each journal, measuring the number of times its papers are cited by subsequent research

    Neste caso de altos pagamentos com ou sem restrição de acesso, eu introduziria alguns elementos para consideração. Vejamos.

    Depois de se dedicar por um longo tempo a um determinado estudo, ao tentar tornar públicos seus achados, um pesquisador:

    • passará os direitos de autor para uma editora e não receberá um centavo por isso;
    • ficará proibido de compartilhar  seu trabalho em plataformas como Research Gate ou Academia.edu;
    • ficará proibido de reutilizar tabelas, esquemas, ilustrações presentes nesse trabalho sem autorização do editor (o que em geral envolve pagamento);
    • ao enviar para o repositório de sua instituição (que lhe deu as condições para que o estudo se desenvolvesse)  terá de avisar a duração do período de embargo para permitir o acesso ao texto, período que pode alcançar 24 meses; nesse meio tempo o acesso estará reservado a quem pagou a assinatura.
    • depois de 24 meses a divulgação do artigo ainda gerará interesse que justifique o investimento financeiro? Afinal, a todas as restrições à divulgação do seu trabalho o pesquisador deverá somar uma quantia acima do milhar de dólares.
    Mesmo que a revista glamurosa tenha AA (em geral,
    com pagamento de sobretaxa), qual a vantagem para o pesquisador? 
    Certamente é uma decisão individual. 

    8  Só essas revistas famosas publicam trabalhos de peso?

    Um trabalho numa dessas revistas não significa que é excepcional. Além de não serem o único veículo de boa pesquisa, tais publicações não estampam apenas boa pesquisa. Se assim fosse, não apresentariam retratações.

    O quadro a seguir, publicado em Retraction Watch , arrola números para o período 2006-2011 de quatro periódicos famosos:

    Retractions luxury journal 2006-2011
    Retratações em quatro periódicos de alto fator de impacto no  período 2006-2011 

    Se esses periódicos rejeitam mais de 90% das submissões, se os trabalhos são avaliados por pares (peer reviewed) com  critérios rígidos, como se chega a uma retratação? Mas isso já é assunto para outra postagem.

     


    Referências

    Barata, Germana. 2010. O que podemos aprender com editores de periódicos de alto impacto? Índice de rejeição de artigos chega a 94%. Agencia de Notícias para a Difusão da Ciência e Tecnologia (DiCYT), 4Set2010. http://www.dicyt.com/noticia/o-que-podemos-aprender-com-editores-de-periodicos-de-alto-impacto

    CAPES/ Diretoria de Avaliação. 2011. Comunicado 001/2011 – Área Letras e Linguística. Proposta de critérios para  classificação dos periódicos da Área de Letras e Linguística.  https://capes.gov.br/images/stories/download/avaliacao/Comunicado_001_2011_Letras.pdf

    Kaiser,  Jocelyn & Malakoff , David. AAAS Launches Open-Access Journal.  http://www.sciencemag.org/news/2014/02/aaas-launches-open-access-journal

    Paiva, Vera Lúcia Menezes de Oliveira e. 2015. Avaliação da Pós-Graduação: publicações e projetos de pesquisa. In: ANPOLL. 30º Encontro Nacional da ANPOLL 2015.  http://anpoll.org.br/eventos/enanpoll2015/wp-content/uploads/2014/12/VeraFinal.pdf

    Retraction Watch.  Cell, Nature, Science boycott: What was Randy Schekman’s tenure at PNAS like? 11Dez2013. http://retractionwatch.com/2013/12/11/cell-nature-science-boycott-what-was-randy-schekmans-tenure-at-pnas-like/

    Schekman, Randy. How journals like Nature, Cell and Science are damaging science. The Guardian,  9Dez2013  https://www.theguardian.com/commentisfree/2013/dec/09/how-journals-nature-science-cell-damage-science

    Wikipedia contributors. (2018, September 23). Beall’s List. In Wikipedia, The Free Encyclopedia. Retrieved 00:57, September 27, 2018,   from https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Beall%27s_List&oldid=860896300

    Wikipedia contributors. (2018, September 17). Schön scandal. In Wikipedia, The Free Encyclopedia. Retrieved 13:10, September 28, 2018, from https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Sch%C3%B6n_scandal&oldid=860006154

    [Parte 1] [Parte2] [Parte 3]

     

     

    2 – Vale a pena publicar nessa revista?

    Um excerto como

    Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are.

    claramente não parece saído da obra de um especialista. E de fato não saiu: foi escrito por uma criança de sete anos como trabalho escolar. Os morcegos são muito legais mesmo.

    Alexandre Martin (University of Kentucky) diagramou com LaTex esse texto, de seu filho,  e o enviou para o International Journal of Comprehensive Research in Biological Science*, um periódico científico potencialmente predatório segundo a então existente lista de Beall. Procurava demonstrar como é fácil publicar num desses periódicosRearrumado em acordo com as partes canônicas dos artigos científicos (abstract, palavras chaves, introdução, resultados, discussão dos resultados e conclusão), foi aceito.

    Mas vamos ao abstract:

    Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are“.

    Vamos à introdução:

    “Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo (see Fig. 1) that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are“.

    Vamos à conclusão:

    “Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are“.

    A filiação do autor a uma “elementary school” não foi omitida. Poderia ser um professor dessa escola? A leitura do texto deixa claro que não.

    Alexandre Martin disponibilizou em imagens o processo de transformação do texto, da aceitação do manuscrito às provas recebidas do editor. Surge então um outro aspecto grave no processo: as melhorias introduzidas no artigo pelo editor eram cópia exata de trechos de dois trabalhos publicados, em 2001 e em 2002, embora o editor não tenha dado ciência disso ao autor (e por que um especialista precisaria de conteúdo adicionado pelo editor?).

    Assim, o trabalho escolar do menino que achava os morcegos legais transformava-se em “Review Article”;  para ser publicado, porém, era exigida a quantia de US$60. Não foi paga, porque  “that last step would have transformed a harmless case-study into a case of severe academic offense” (p.302) e porque “there was no need to potentially tarnish the reputation of a 7-year old by having him published in a non-reputable journal” (p. 302).

    Quando um artigo submetido a uma revista é avaliado, 
    o autor recebe as avaliações dos pareceristas, 
    positivas ou não. 
    Se o trabalho foi aceito, o autor é informado se há 
    pontos que deve esclarecer quanto ao conteúdo 
    e/ou quanto à forma. Mas nunca os editores podem 
    se dar ao direito de reescrever um trabalho. Afinal: quem
    é o autor?

     

    *Nota: A revista parou de ser publicada em 2015, embora ainda haja um site para ela: http://web.archive.org/web/20150611035413/http://ijcrbs.com:80/cissue.php.

     


    Referências

    Martin, Alexandre & Martin,  Tristan. 2016. A not-so-harmless experiment in predatory open access publishing.   Learned Publishing , 29: 301–305

    [Parte 1] [Parte 2] [Parte 3]

    1 – Recebi emails de uma revista internacional interessada em publicar minha pesquisa

    É muito agradável ouvir de alguém que há interesse na pesquisa que conduzimos, mais ainda quando embalado num afago ao ego:

    “We take immense pleasure in inviting an eminent person like you to contribute your esteemed article for our journal. You can submit either Editorial, short communication, Image Article or Research article which falls under the scope of our journal

    Mas o interesse é real? Algumas  mensagens evidenciam que nosso endereço foi obtido em alguma varredura na internet que compôs uma massa de endereços. Os endereços nessa lista serão alvo de determinada mensagem com fins comerciais.

    Não se trata de uma mensagem individualizada para aquele destinatário específico, mas spam, e se a varredura  teve problemas de filtro, recebemos convites  que demonstram interesse por aquilo que não fazemos, caso do elogio acima:  Microbiologia e Bioquímica. Ou do exemplo  a seguir, que me informava do interesse da revista por meus trabalhos em  … Patologia.

    JofPathology3

    Em geral nas mensagens não se fala em pagamento.  Mas basta uma visita ao site da revista ou grupo editorial.

    No caso do grupo responsável não só pela publicação que originou a mensagem acima, mas também por mais cerca de 200 outros títulos  chama-se a atenção dos potenciais autores para o fato de que o grupo editorial cobra taxas abaixo da média (“Please note that XXXX’s regular APC are well below average“), a saber, neste caso, US$699 — e que não cobram taxa de submissão.

    Só é esquisito se o convite não é da minha área?
    Se fosse da minha área tudo bem? NÃO, continuava sendo esquisito.
    É spam.

    Mensagens não solicitadas, enviadas por periódicos de que ninguém ouviu falar, que nos pedem o envio de trabalhos  (“Dear Dr. RosaAn invitation to submit to XXX Malaria) devem ser olhadas com desconfiança. Devem alertar o pesquisador para o fato de que no mercado editorial de periódicos científicos há empresas que tiram partido da necessidade do pesquisador de alcançar um quantitativo anual de publicações, vendendo facilidades para a consecução desse objetivo. É o lado obscuro da via dourada do acesso aberto.

    Receber um email informativo sobre um número de revista 
    ou um congresso de uma sociedade científica 
    de que somos membros é outra história.

    Os chamados periódicos científicos predatórios são revistas em geral com um título pomposo, preferencialmente em inglês, mas sempre com padrões de aceitação baixos: basicamente, o pagamento de taxas (de submissão,  APC, fast track…), isto é, o pagamento é a condição para a publicação, não obstante as afirmações acerca de processos rigorosos de avaliação por pares. Em geral alardeiam um fator de impacto alto, que não se sabe como foi calculado (mas vamos lá: se o FI leva em conta as citações, como nunca ouvimos falar de trabalhos da nossa área numa dessas publicações que têm FIs tão altos?)

    As taxas cobradas do autor podem ir além da
    APC (do ing. article processing charge).
    É possível incluir uma taxa de urgência, a Fast Track Fee.
    Ver, por exemplo, 
    Journal of Advances in Linguistics/JAL, 
    Review of Finance, 
    Esta última informa que "The Fast-Track process guarantees 
    an editorial decision within  14 days". 
    E completa: 
    "If you choose “Fast-Track” for your manuscript for 
    the first time, the submission fee is €900. 
    For a resubmitted “Fast-Track”-manuscript 
    the submission fee is €500".
    
    Mas se o caso é de pressa na divulgação 
    não seria o caso de se pensar num preprint, que é grátis?
    
    

    Periódicos como os dos exemplos vistos até aqui são a fonte principal de anedotas que circulam no mundo acadêmico sobre publicações.

    Um exemplo estapafúrdio de baixos padrões

    Get me off your fucking mailing list , de David Mazières (NYU) e Eddie Kohler (UCLA), foi uma brincadeira que circulou há cerca 13 anos: tem a formatação de um artigo científico mas nada mais é que a mesma frase do título repetida ao longo de 10 páginas, em texto corrido e em gráficos.

    Em 2014, um pesquisador da Austrália, para dar um basta aos spams enviados por um certo International Journal of Advanced Computer Technology, encaminhou esse texto para a tal revista. E o texto foi aceito. Aparentemente ninguém da revista achou nada de estranho no título nem passou os olhos pelo conteúdo. A aceitação veio acompanhada do pedido de pagamento de 150 dólares, que não foi feito. O trabalho não foi publicado.

    Quem gostaria de ter seu trabalho ligado a uma
    publicação envolvida num incidente relatado em 
    veículos diferentes, como 
    jornais e a Wikipedia?

     

    Referências

    “Get Me Off Your Fucking Mailing List” is an actual science paper accepted by a journal. Vox,   https://www.vox.com/2014/11/21/7259207/scientific-paper-scam

    Wikipedia contributors.  Article processing charge. In Wikipedia, The Free Encyclopedia. Retrieved 21:27, September 29, 2018,  https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Article_processing_charge&oldid=859387122

    Wikipedia contributors. International Journal of Advanced Computer Technology. In Wikipedia, The Free Encyclopedia. Retrieved 01:12, September 20, 2018  https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=International_Journal_of_Advanced_Computer_Technology&oldid=851475679

    [Parte 1] [Parte 2] [Parte 3]

    Se não é o leitor … Parte 4: Brasil

     

    A via dourada possibilitada pelo Programa SciELO

    No Brasil, a maior parte dos periódicos de qualidade é publicada em AA. [….] . Este modo de publicação foi viabilizado no Brasil e demais países da América Latina graças a dois motivos principais: primeiro, o fato de a maioria dos periódicos serem editados por sociedades ou associações científicas ou instituições universitárias sem fins lucrativos, que fazem uso das contribuições dos seus associados e de subsídio governamental para custear as publicações; e, segundo, ao Programa SciELO criado em 1998. [….] No Brasil, por exemplo, a operação da coleção SciELO é financiada em 90% pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e 10% pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O CNPq e a CAPES financiam o Programa de Apoio à Editoração e Publicação Científica. No Chile, o SciELO é financiado pela Comisión Nacional de Investigación Científica y Tecnológica de Chile, no Mexico pelo Consejo Nacional de Ciencia y Tecnología, na Africa do Sul pelo Department of Science and Technology e apoiado pelo Department of Higher Education and Training, etc. (Nassi-Calò, 2013)

     As publicações periódicas acadêmicas:  “favela” vs. “boa vizinhança”?

    Em 2015 o bibliotecário Jeffrey Beall, mais conhecido por sua lista de editores e de periódicos predatórios (que ele próprio tirou do ar em janeiro de 2017)*, comparou a SciELO e também a Redalyc) a uma favela — seja lá o que isso significa exatamente.

    Dentre os defeitos dessa plataforma, “Many North American scholars have never even heard of these meta-publishers or the journals they aggregate. 

    Às favelas do AA SciELO e Redalyc Beall contrapôs a “boa vizinhança” para a publicação de artigos: as editoras comerciais.  E concluía:

    There are thousands of unaffiliated, unknown open-access journals published all over the world that are very effectively hiding the research they publish, despite being OA. Their content is not indexed (except perhaps in Google Scholar, a database poisoned by fringe science), and it’s just sitting there with little value added to it. Much of it will disappear over time. Because copyright of the articles is retained by authors, there may be little future interest in maintaining, publishing, and promoting the content.

    As respostas não se fizeram esperar e assinalaram o quanto de preconceito pelo que não é norte-americano, europeu e em inglês estava presente na postagem de Beall.  Ver, por exemplo:


    *Nota: A página BEALL’S LIST OF PREDATORY JOURNALS AND PUBLISHERS apresenta uma versão arquivada da lista com atualizações, disponível em  https://beallslist.weebly.com/ 

    Referências

    BEALL, Jeffrey. 2015.  Is SciELO a Publication Favela?  https://www.emeraldcityjournal.com/2015/07/is-scielo-a-publication-favela/

    NASSI-CALÒ, L. Quanto custa publicar em acesso aberto? [online]. SciELO em Perspectiva, 2013 . https://blog.scielo.org/blog/2013/09/18/quanto-custa-publicar-em-acesso-aberto/

    SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE. Nota de repúdio ao artigo “Is SciELO a Publication Favela?” de autoria do Sr. Jeffrey Beall [online]. SciELO em Perspectiva, 2015 . https://blog.scielo.org/blog/2015/08/25/nota-de-repudio-ao-artigo-is-scielo-a-publication-favela-de-autoria-do-sr-jeffrey-beall/

    VELTEROP, J. A área cercada da ‘boa’ vizinhança da publicação de Jeffrey Beall [online]. SciELO em Perspectiva, 2015 . https://blog.scielo.org/blog/2015/08/01/a-area-cercada-da-boa-vizinhanca-da-publicacao-de-jeffrey-beall/

    Wikipedia contributors. (2018, September 6). Jeffrey Beall. In Wikipedia, The Free Encyclopedia.  https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Jeffrey_Beall&oldid=858350838

    [Parte 1] [Parte 2] [Parte 3] [Parte 4]

    Onde publicar? Um exemplo de problema

    Está agora disponível na  página do LabHisLing-UFRJ (na aba “Gramática, léxico e modelos de arquitetura”) uma resenha escrita por solicitação para um periódico de acesso restrito (isto é, que não é de AA), aceita em 2015, revisada pelo editor, postergada a publicação para 2016 … mas nunca publicada (e a revista já mudou de nome e de grupo editorial).

    É a resenha de

    Quatro décadas de historiografia linguística: estudos selecionados. By E.F.K. Koerner. Preface Carlos Assunção. Selection of texts and text edition by Rolf Kemmler and Cristina Altman (= Coleção Linguística, 11.) Vila Real: Centro de Estudos em Letras, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2014. Pp. 285. ISBN 978-989-704-187-7.

    Poderia enviá-la agora para outro periódico? Em se tratando de uma resenha de um livro publicado em 2014, já passou muito tempo. Como tenho os direitos sobre o texto, posso divulgá-lo como quiser.

    Questões relativas a onde publicar e 
    a alguns problemas com essa tomada de decisão 
    serão tratados em três postagens a partir de 08/10/2018.

    Se não é o leitor … Parte 3: a via dourada

     

    Surgidos no século XVII, os periódicos científicos viriam a se firmar como o meio mais utilizado de divulgação de resultados de pesquisa entre pesquisadores .

    1665 -dois journals
    Os dois primeiros periódicos científicos, surgidos quase ao mesmo tempo, em 1665: Le Journal des Sçavans e Philosophical Transactions (Raichvarg & Jacques, 1991:8) – Imagens: Creative Commons

    O papel já substituíra outros suportes e a impressão em papel barateava os custos dos exemplares.

    Em fins do século XX o número de periódicos científicos arbitrados por pares, ainda na forma de impressos, já era enorme (em torno de 20.000) e as bibliotecas universitárias (e não só) idealmente deveriam incorporá-los a todos ao acervo. Mas as reclamações sobre a constante elevação de preços começavam a ser ouvidas: um exemplo, University actions against high journal prices (2004).  A crise chegava a bibliotecas que tradicionalmente não tinham problemas financeiros. Nesse contexto, o movimento pelo acesso aberto ganhava força.

    O acesso aberto dourado ganha um lado desagradável:  as taxas de publicação ou APCs

    As editoras comerciais e algumas sociedades rapidamente incorporaram o modelo AA ao lucrativo modelo de negócios. Surgiam as Article Processing Charges (APCs), cobradas dos autores uma vez aceito um trabalho submetido.

    Os valores das APCs  podem ser muito altos, especialmente nas revistas de alguns grupos editoriais. Um exemplo no quadro a seguir.

    precario Nature
    Em setembro de 2018 o preçário  acima discrimina a APC que o autor deve pagar para publicar um artigo numa das revistas de acesso aberto do grupo Nature. 

     

    O absurdo dos valores não se coloca apenas para bolsistas de um programa de pós-graduação. Como notava Nassi-Calò (2016),

    “se a taxa de publicação da PLos Biology equivale à metade do salário de um professor assistente nos EUA, na Índia ela equivale a dois meses de salário deste profissional. Soma-se a este fato a restrição de verbas para pesquisa a nível mundial, e o pagamento das APCs por agências de fomento já não é uma solução, mas a continuidade  problema”.

    A situação leva ao paradoxo assinalado pelo Prof. Jean-Pierre Guedón, da Universidade de Montreal, numa matéria em Phys.org:

    “In almost every country in the world, research is supported by public funds. When researchers publish their results in academic journals, they do so for free. The results are also reviewed by peers for free. And journals often require researchers to give up their rights to these articles. Then, major publishers or learned societies sell their journals at exorbitant prices to libraries… which are also financed by public funds! It’s a vicious circle in which taxpayers pay for the production and access to researchers while publishers and societies make profits of 30-45% before taxes”.

    No entanto, mesmo recebendo fundos públicos, algumas revistas passaram a cobrar APC. É o caso, por exemplo, da Revista de Saúde Pública, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo:

    apc-rev-saude-publica-e1536373023432.jpg

    ou ainda o Brazilian Journal of Medical and Biological Research,  da Associação Brasileira de Divulgação Científica:

    APC Braz Journ


    Referências

    Lavoie, Joanie &  Bérubé, Dominique. 2016. Crisis in academic publishing. Phys.org.  https://phys.org/news/2012-06-crisis-academic-publishing.html

    Raichvarg, Daniel & Jacques, Jean. 1991. Savants et ignorants: Une histoire de la vulgarisation des sciences. Paris: Seuil.

    Imagens

    Le Journal des Sçavans – Autor Desconhecido –  File:1665 journal des scavans title.jpg

    By Henry Oldenburg – Philosophical Transactions, CC BY 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=36495651

    [Parte 1] [Parte 2] [Parte 3] [Parte 4]

     

    Se não é o leitor, quem paga? Parte 2: o acesso aberto verde no Brasil

     

    Para países em desenvolvimento, como o Brasil, a questão do acesso ao que é publicado nas melhores revistas, mesmo quando o autor é brasileiro e membro de uma universidade local, é especialmente difícil e perversa. Aqui, como na maioria daqueles países, é o Estado que financia a educação dos novos cientistas, desde seu início até a obtenção dos graus mais altos, seja em instituição nacional ou estrangeira. Uma vez formado e já pesquisando, normalmente em uma universidade também mantida pelo Estado, sua pesquisa é frequentemente financiada pelas agências de fomento federais ou estaduais, vale dizer, de novo, dinheiro público. Terminada a pesquisa, sua divulgação em reuniões e congressos será de novo financiada pelo Estado. Finalmente, a publicação em revista indexada poderá também receber auxílios dos cofres públicos, pois em algumas áreas as editoras cobram dos autores por página publicada. Ao publicar em uma revista, é hábito o autor ceder às editoras o direito autoral sobre o artigo. Uma vez publicada, entra em cena de novo o Estado, financiando as bibliotecas para sua compra. (Mueller, 2006).

    Para mudar essa situação, os esforços do Brasil com relação aos Repositórios não foram poucos.

    O IBICT/ Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, órgão do Ministério de Ciência e Tecnologia que coordena, no Brasil, as atividades de informação em C&T , em 2005 publicava o Manifesto Brasileiro de Apoio ao Acesso Livre à Informação Científica , em que formalizava  a adesão ao AA.

    Em 2016, lançava o Manifesto de Acesso Aberto a Dados da Pesquisa Brasileira para Ciência Cidadã , que “dá continuidade e amplia a sua política de apoio ao acesso aberto/livre à informação científica no Brasil”.

    A atuação do IBICT redundou em iniciativas como as seguintes:

    Incluiu ainda o Brasil em La Referencia/  Rede Federada de Repositórios Institucionais de Publicações Científicas e disponibiliza a lista de Repositórios Brasileiros

    Recentemente, em 2015, a UFRJ aprovava a criação de seu 
    Repositório Institucional, o Pantheon, 
    para o acesso aberto a teses e dissertações da UFRJ, 
    artigos científicos, livros eletrônicos, 
    capítulos de livros e trabalhos apresentados em eventos 
    por professores, pesquisadores, 
    funcionários administrativos 
    e alunos de mestrado e doutorado, mas também 
    a monografias de fim de curso.

    Referências

    MUELLER, Suzana Pinheiro Machado. 2006. A comunicação científica e o movimento
    de acesso livre ao conhecimento. Ciência da Informação,  35 (2): 27-38, maio/ago.
    2006. http://www.scielo.br/pdf/ci/v35n2/a04v35n2.pdf 

    Atualizado em 21Set2018

    [Parte 1] [Parte 2] [Parte 3] [Parte 4]

    Onde publico meu trabalho? Parte 1

     

    Quando um aluno me faz essa pergunta, em geral lhe respondo que preferencialmente procure periódicos acadêmicos com revisão por pares e alto fator de impacto  (FI) – e, lógico, que tenha relação com o tema do artigo. Isso porque se um trabalho está publicado num periódico com avaliação por pares e alto fator de impacto (FI), o pressuposto é que deve ser bom, isto é, CONFIAMOS que deve:

    • ser inovador e relevante,
    • ter metodologia aceita,
    • fornecer evidências para a hipótese e
    • basear-se numa pesquisa executada sem violações da ética

    Que é FI?

    O Fator de Impacto, abreviado como FI, é uma medida que reflete o número médio de citações de artigos científicos publicados em determinado periódico. É empregado frequentemente para avaliar a importância de um dado periódico em sua área, sendo que aqueles com um maior FI são considerados mais importantes do que aqueles com um menor FI. (Wikipedia)

    Para o programa de pós-graduação, é importante onde o artigo é publicado  A avaliação dos programas de pós-graduação pela CAPES/ Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, agora a cada quatro anos, leva isso em conta.

    De avaliação de periódico a avaliação de autor

    A avaliação de periódicos acaba por se refletir na do autor de um artigo publicado: quanto maior o FI do periódico, maior a reputação decorrente para o autor.

    Eugene Garfield (1925-2017), o criador do FI, parecia não concordar com a nova finalidade atribuída à sua criação:

    The term “impact factor” has gradually evolved, especially in Europe, to describe both journal and author impact. This ambiguity often causes problems. It is one thing to use impact factors to compare journals and quite another to use them to compare authors. Journal impact factors generally involve relatively large populations of articles and citations. Individual authors, on average, produce much smaller numbers of articles although some are phenomenal. (Garfield, 2005)

    Como assinalava  o Prof. Emérito da USP Maurício da Rocha e Silva numa entrevista à Pesquisa Fapesp em 2012,

    Todas as revistas têm uma distribuição de citações assimétrica. Quer dizer, 20% dos artigos concentram 50% das citações e os 20% mais baixos concentram 3% das citações. De maneira que no New England Journal of Medicine a revista médica de mais alto impacto do mundo, por exemplo, tem 20% de artigos que são muito pouco citados. Isso vale para qualquer revista.

     

    [Continua no próximo ]

    Preprints?!!!!

     

    Ainda é pouco usual na Linguística. Um preprint é um trabalho que se torna público numa plataforma não comercial (por exemplo, na Research Gate ou na SocArxiv )antes de sua publicação.

    Alguns prós e contras:  Ten simple rules to consider regarding preprint submission.

    Mais? Neste site em “Boas práticas em pesquisa“.

    Quem é autor do trabalho, afinal? Decisões sobre coautoria

     A resposta à pergunta parece fácil, mas pode ser o centro de um conflito num grupo de pesquisa, o que faz com que professores e instituições, mas também editores, se preocupem com o tema.

    A partir deste ano de 2018  a SciELO passou a adotar, em combinação com o identificador ORCID, a Taxonomia CRediT, que arrola 14 categorias de papeis, a fim de indicar, de forma transparente, quem fez o quê no trabalho.

    Dois exemplos desse emprego, cujo uso vem-se ampliando: a indicação da contribuição de cada autor na Cell  e na PLOS One.

    Mais perguntas sobre a autoria? Algumas respostas  na aba Para os trabalhos acadêmicos e também na aba Boas práticas em pesquisa  em Linguística-UFRJ/Maria Carlota Rosa 

    Saussure não gostava de escrever?

    Saussure, ele mesmo, não publicou seu famoso livro, marco na história da Linguística.

    Na documentação a que agora se pode ter acesso,  ele se confessava acometido de  “incurable graphophobie”, “paresse scripturale”,  “une horreur maladive de la plume” …

    Leia o artigo da Prof. Ingrid Piller ( Macquarie University – Sydney, Australia):  Saussure, the procrastinator