Com acesso aberto, estabilidade, revisão por pares e sem APCs: os “wiki-periódicos”

Imagem: 
File:WikiJournal of Science publishing pipeline (wiki first).svg  
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:WikiJournal_of_Science_publishing_pipeline_(wiki_first).svg

Sério: eu não sabia o que era “wiki”, embora soubesse da Wikipedia e da Wikicommons.  Na verdade nunca tinha pensado em “wiki” como algo diferente de uma marca, algo já registrado como propriedade intelectual. A Wikileaks atrapalhava esse entendimento, mas … Até que ontem me deparei com os wikijournals.

Afinal, que é ‘wiki’?

Dei um Google (ou teria googlado?) e encontrei a resposta num artigo de Sérgio Rodrigues publicado na revista  Veja em 2012:

No mundo da computação, wiki passou a ser usado como nome genérico de websites colaborativos, ou seja, aqueles cujo conteúdo pode ser modificado pelo usuário. O termo foi criado em 1994 pelo programador americano Ward Cunningham, que desenvolveu o primeiro software wiki e o batizou de WikiWikiWeb. Note-se que as iniciais dialogam com o www de world wide web (rede mundial de computadores), mas Cunningham garante que sua inspiração foi mais prosaica: limitou-se a copiar o nome dos ônibus expressos do aeroporto de Honolulu, Wiki-Wiki, uma expressão regional havaiana que significa “rapidinho”. 

Depois descobri um longo artigo “Wiki” na própria Wikipedia, com um enorme histórico de modificações desde 2003.

Os periódicos wiki

Os períódicos wiki surgem em integração com a Wikipedia com o objetivo explícito de aumentar “the accuracy of the encyclopedia, and rewards authors with citable, indexed publications with much greater reach than traditional scholarly publishing”  (WikiJournal User Group). No momento há quatro títulos: WikiJournal of Humanities;  WikiJournal of Medicine; WikiJournal of Science; WikiJournal Preprints

Wikigroup

A imagem em destaque é de  Mikael Häggström 
(Own work, based on:From Pixabay, Public Domain.,CC BY 4.0, 
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=49038393. 
Está descrita como "a lightbulb, symbolizing the creation of ideas 
latitude and longitude stripes around the lightbulb, 
symbolizing a global scope".

Um exemplo extraído do periódico voltado para a área de Humanas é o longo artigo  A grammatical overview of Yolmo (Tibeto-Burman), em que  Lauren Gawne (Dept, de Línguas e Linguística, Universidade La Trobe, Austrália) é o autor (mas  o  et alii nos lembra que o material é, por definição, colaborativo). Pode ser lido no formato já conhecido do material da Wikipedia ou em pdf.

A iniciativa é mais um passo na integração da Wikipedia com a educação. Uma visão de como essa  integração já ganhou terreno de 2001 a 2016 pode ser lida em 15 years of Wikipedia and education.


 

 

 

 

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Um prêmio estranho

 

IMAGEM 
"TROPHY DESIGN" by PROTOTYPUM, 
Martin Žampach is licensed under CC BY-NC-ND 4.0

 

A  Publons (agora da Clarivate Analytics) mais uma vez promoveu o Global Peer Review Awards, anunciado na Peer Review Week deste ano, que teve lugar entre 16 e 20 de setembro.  Em  2019 o prêmio contou com três categorias: os pareceristas top-10 , os pareceres de excelência e uma categoria para editores.

A Publons, cuja missão declarada é “speed up science by harnessing the power of peer review“, vem assumindo o papel de treinar a produção de pareceres e ajudar a indústria de publicações acadêmicas a encontrar nomes para atuarem como pareceristas (ver Crotty, 2018).

    O nome numa lista e …

    Em meio a muita discussão sobre o trabalho gratuito de pessoal altamente especializado  em prol de revistas científicas que cobram taxas muito caras dos autores para a publicação em acesso aberto e/ou de assinaturas também de preço elevado, publicadas por editoras cujos lucros andam na casa dos 40% — diferentemente da crise do mercado livreiro — não há como não se perguntar se esse prêmio é valorização suficiente para aquele que deixou de lado seu próprio trabalho e contribuiu de graça para uma indústria bilionária (em dólares ou euros); nem se esse prêmio não seria o equivalente da estrelinha que se ganhava na escola quando criança: confere algum status num pequeno círculo.

    Embora se diga que escrever pareceres sobre artigos acadêmicos submetidos a revistas científicas é parte do trabalho acadêmico, essa não é uma das cláusulas de qualquer contrato de trabalho como professor ou pesquisador (ver Watson, 2017).

    Trabalho necessário, mas que conta pouco para quem o faz

    Ninguém nega a importância do trabalho dos pareceristas. A divulgação do trabalho científico, no mundo atual ligada à avaliação por pares, é importante para a Ciência e igualmente importante nos processos formais de avaliação de professores e pesquisadores. Escrever pareceres é, porém, trabalho voluntário, certamente não prioritário na lista de afazeres.

    Agora, se esse trabalho é tão importante, se uma revista cobra alguns milhares de dólares do autor para publicar seu artigo por conta dos custos que alega ter com o preparo do manuscrito para a publicação, por que o par (ou trio) de pareceristas que recomendaram (ou não) a publicação não pode ser remunerado?

    Pode-se argumentar  que esse profissional terá seu nome listado como parecerista de uma revista de luxo. Mas, pensando bem: se um pesquisador concorre a uma vaga de professor ou pesquisador , ter uma enorme lista de pareceres  ou não incluir essa parte no lattes vai fazer diferença? Ter escrito críticas a trabalhos alheios, como notou Crotty (2018), impressiona mais uma banca que a qualidade do próprio trabalho? Por outro lado, para a revista ter um profissional renomado listado entre seus pareceristas é relevante.

    E as revistas em acesso aberto que não cobram taxas dos autores,
    caso da quase totalidade das revistas nacionais no Qualis? 
    Não são periódicos predatórios; têm papel importantíssimo na
    divulgação das pesquisas no país; 
    solicitam pareceres dentro de prazos razoáveis. 
    Atender ao convite de um desses periódicos para emitir um parecer
    continua sendo trabalho voluntário, não prioritário, 
    mas essas publicações, que não visam lucro e lutam para se manterem,
    merecem a colaboração, ainda que não remunerada,
    de todos nós.

     


     

    Crotty, David. 2018. Credit for Peer Review: What is it Worth? The Scholarly Kitchen, 18Out2018. https://scholarlykitchen.sspnet.org/2018/10/18/credit-for-peer-review-what-exactly-does-that-mean/

    Watson, Mick (@Biomickwatson). 2017. Let’s keep saying it, and say it louder: REVIEWERS ARE UNPAID. Opiniomics, 23Agos2017. http://www.opiniomics.org/lets-keep-saying-it-and-say-it-louder-reviewers-are-unpaid/

    A Revista da ABRALIN adota a taxonomia CRediT/Contributor Roles Taxonomy (Taxonomia das Funções do Colaborador)

    Em agosto de 2018 informávamos da adoção da taxonomia CRediT pela Scielo (Quem é o autor do trabalho afinal? Decisões sobre coautoria). Não obstante o número de autores por artigo em Linguística no Brasil estar, em geral,  em torno de dois ou três e de algumas revistas da área ainda trazerem instruções que remetem ao autor único, agora é a vez da revista da ABRALIN/ Associação Brasileira de Linguística adotar o CRediT .

    Os trabalhos com mais de um autor submetidos à Revista da ABRALIN deverão indicar a atribuição dos seguintes papeis:  Conceptualização –  Curadoria de Dados –  Análise Formal – Aquisição de Financiamento – Investigação – Metodologia –  Administração do Projeto –  Recursos – Software –  Supervisão –   Validação –   Visualização –  Escrita –  Escrita 

    Sai o autor, entra em cena o colaborador

    Como recentemente apontou Alex Holcombe, a atribuição de autoria em muitos periódicos leva em conta a definição de autor do ICMJE/ International Committee of Medical Journal Editors que não tem lugar para muitos tipos de colaboração necessários ao desenvolvimento de pesquisas.

    No caso da Revista da ABRALIN, a inovação no estabelecimento da autoria/colaboração vem juntar-se à revisão por pares aberta, anunciada recentemente e os dados abertos. Será muito interessante, portanto, acompanhar a implantação desse modelo na área da Linguística brasileira.

     

    Informações: http://www.abralin.org/circulares/rabralin/CRediT.pdf

    Holcombe, Alex. 2019. Farewell authors, hello contributors. Nature 571, 147 (05Jul2019)  https://www.nature.com/articles/d41586-019-02084-8

     

    Dados abertos e avaliação por pares aberta chegam à linguística brasileira

     

    A discussão sobre os pareceres abertos apresentada nas postagens A avaliação por pares em discussão – Partes 1, 2 e 3 ganhará forma, em breve, na Revista da Abralin, periódico da Associação Brasileira de Linguística. Mas não só.

    Numa circular aos associados datada de 16 de julho de 2019, as editoras-chefes da revista, argumentando que “[a] ciência vive um momento de crise, que vai muito além da crise da replicabilidade; […] uma crise de credibilidade, que decorre da falta de transparência no processo, que é, no cenário brasileiro, majoritariamente financiado pelo contribuinte”; que “o processo de revisão duplo cego (em que pareceristas não sabem quem são os autores, e vice-versa) não tem se mostrado transparente“;  que “o trabalho do parecerista, essencial para o aprimoramento do texto e com contribuições substanciais para a forma final, não é reconhecido publicamente” , solicitam aos associados já doutores  que se cadastrem como pareceristas para uma nova fase da revista: “a partir de 2020, as submissões à Revista da Abralin passarão por processo de revisão aberto, em que autor e parecerista não são anônimos“.

    Não será a única parte da inovação. Ainda na sequência de decisões que colocam o periódico no movimento Ciência Aberta, no tocante às submissões de manuscritos serão priorizadas as submissões à Revista da Abralin “que apresentarem a indicação de compartilhamento dos conjuntos de dados de análise, instrumentos, scripts de análise estatística, roteiros e materiais adicionais, que devem estar em repositórios online abertos, tais como OSF e Figshare, por exemplo”.

    Também serão priorizadas as submissões “que se comprometerem a contribuir com um texto de popularização a ser publicado na Roseta, revista da Associação Brasileira de Linguística voltada para a popularização científica, de modo a promover a Ciência Cidadã”.

    A circular pode ser lida em http://revista.abralin.org/index.php/abralin/announcement/view/4

    Aceito ou não o convite para um parecer?

    O COPE/ Committee on Publication Ethics apresenta, em forma de fluxograma, um guia para ajudar na decisão a se tomar quando se é convidado a emitir parecer para uma revista.

     

    COPE - peer review

    O COPE sugere que se levem em conta dois conjuntos de critérios. O primeiro levanta:

    a) a respeitabilidade do periódico (e sugere, para isso, uma consulta ao site Think. Check. Submitb) a política de revisão por pares apresentada; e c) os potenciais conflitos de interesse.

    Resolvida essa parte, a decisão deve levar em conta: a) se o trabalho poderá ser entregue no prazo estipulado; e b) se o texto a ser avaliado se enquadra em nossa área de especialidade.


    Referências

    COPE/ Committee on Publication Ethics. What to consider when asked to peer review a manuscript.  https://publicationethics.org/node/34241

    Think. Check. Submit. https://thinkchecksubmit.org/