As citações por outro ângulo: o da ética

Imagem "Citation_needed" by Dawihi 
is licensed under CC PDM 1.0 

A construção de indicadores quantitativos tem traduzido para as agências de fomento e as instituições de ensino a importância do pesquisador e do periódico em que trabalhos são publicados e tornou-se talvez o principal pilar para promoções na carreira e solicitações de diversos tipos de auxílios.

Nesse cenário de métodos bibliométricos, as tentativas de manipulação de indicadores começaram a se tornar fonte de preocupação. E levaram o COPE/ Committee on Publication Ethics a divulgar recentemente um documento que aponta práticas condenáveis relativas às citações (COPE, 2019). A preocupação também está presente na seção sobre Editor Roles and Responsibilities  do livro branco do Council of Science Editors, atualizado em 2018.  Em outras palavras: chama-se a atenção para o mau uso de citações.

Se parte do problema seria quer de iniciativa dos autores — a autocitação que tem por objetivo inflacionar o número de citações do próprio trabalho ou a troca de citações (ing. citation swapping) entre colegas — quer da iniciativa de pareceristas que solicitam a inclusão de citações de seus trabalhos, outras práticas estão ligadas à editoria de periódicos. Por exemplo,  no nível do periódico, a autocitação transforma-se em citação coercitiva (ing. coercive citation): a demanda da editoria do periódico aos autores (particularmente se no início da carreira) para que façam a inclusão de citações de trabalhos publicados naquela mesma revista a fim de que o texto submetido tenha mais chances de ser aceito. As citações solicitadas são desnecessárias e sequer  se indica para os autores da submissão que deficiências seria necessário rever lançando mão de textos (quais?) anteriormente publicados no periódico que está recebendo a submissão.

A citação honorária envolve a citação excessiva e desnecessária de nomes notáveis na área — como o editor da revista, por exemplo.

O empilhamento de citações (ing. citation stacking) diz respeito a um acordo entre editores de diferentes periódicos para que os textos publicados em cada um deles reúnam citações dos demais periódicos desse grupo.

Vale a pena participar desses esquemas?

Em outras palavras: deixar de lado a integridade na vida acadêmica ajuda o pesquisador ou editores? Certamente não e isto vale para qualquer momento da carreira.

Há seis anos atrás, em 2013, a empresa que detinha o Journal Citation Reports (JCR) acusou a prática de empilhamento de citações em quatro periódicos médicos brasileiros de longa tradição no país (Clinics, Jornal Brasileiro de Pneumologia, Revista da Associação Médica Brasileira Acta Ortopédica Brasileira) que haviam demonstrado grande melhora bibliométrica e os suspendeu do JCR por um ano. Todos os editores à época se defenderam da acusação, com argumentos sobre o cenário brasileiro de publicações nessa área específica e a necessidade de tornar os periódicos brasileiros mais atrativos. A biblioteca SciELO Brasil, de que os quatro periódicos fazem parte, determinou a retratação dos artigos em que os números revelados podiam ser interpretados como envolvimento nessa prática; já a CAPES/Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior levou a punição para além dos editores e autores retratados: nenhum dos artigos publicados nesses periódicos entre 2010 e 2012 foi contabilizado na avaliação trienal da pós-graduação de 2013 (van Noorden, 2013), retirados todos do Qualis (FAPESP, 2013). Artigos já aceitos para a publicação foram retirados a pedido de seus autores.

 Although such behavior may result in a short-term gain, the strategy may not work in the long term (CSE, 2018: 13)

 


 

COPE – Committee on Publication Ethics. 2019. Citation Manipulation. COPE Discussion Document, Version 1: July 2019. https://publicationethics.org/files/COPE_DD_A4_Citation_Manipulation_Jul19_SCREEN_AW2.pdf 

CSE-Council of Scientific Editors/ Editorial Policy Committee. 2018. CSE’s White Paper on Promoting Integrity in Scientific Journal Publications. https://www.councilscienceeditors.org/resource-library/editorial-policies/white-paper-on-publication-ethics/

FAPESP.  2013. Punição para citações combinadas.  Revista Pesquisa FAPESP, 213. Nov.2013. https://revistapesquisa.fapesp.br/2013/11/18/punicao-para-citacoes-combinadas/

Fong, Eric A. & Wilhite,  Allen W. 2017. Authorship and citation manipulation in academic research. PLoS ONE, 12(12): e0187394.  https://doi.org/10.1371/journal.pone.0187394

Sampaio, Rafael. 2013. Índice internacional suspende revistas científicas brasileiras. G1/ Ciência e Saúde, 30Ago2013. http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2013/08/indice-internacional-suspende-revistas-cientificas-brasileiras.html

University of Alabama in Huntsville. 2012. Research ethics: Coercive citation in academic publishing.  ScienceDaily, 2 February 2012. www.sciencedaily.com/releases/2012/02/120202164817.htm 

Van Noorden, Richard. 2013. Brazilian citation scheme outed. Nature 500: 510-511. http://www.nature.com/polopoly_fs/1.13604!/menu/main/topColumns/topLeftColumn/pdf/500510a.pdf 

 

Duas infrações à integridade acadêmica: cola e plágio

O texto a seguir, de Roberto Imbuzeiro Oliveira, pesquisador titular do IMPA/ Instituto de Matemática Pura e Aplicada, foi publicado no blog “Ciência & Matemática“, de Claudio Landim, também do IMPA e Coordenador da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).

O foco central é a cola, a cópia de respostas de outrem  durante um teste ou prova. No passado “outrem” (entidade que ocupa o lugar que deveria ser das fontes de pesquisa) era um colega de sala, um livro ou anotações com o conteúdo previsto para o exame; com o avanço da tecnologia, “outrem” pode agora ser um indivíduo bem longe do local da prova ou mesmo um site. Se ao invés de um teste ou prova temos um trabalho, o uso impróprio das fontes é tratado como plágio.

Oliveira, baseado em autores como McCabe (2005), ressalta a difusão desses comportamentos entre os estudantes dos diferentes níveis de ensino. E a dificuldade para mudar essa atitude. Até porque, como defende McCabe, a busca de mudança tem de vir do envolvimento da instituição e dos estudantes. Ambos difíceis.


Sobre a cola

Roberto Imbuzeiro Oliveira  – Pesquisador titular do IMPA

Segundo o psicanalista Luiz Alberto Py, o aluno que cola numa prova está angustiado por desconhecer a matéria. Essa opinião foi transcrita no Jornal O Globo de 17 de maio de 1990 em uma matéria que falava do suicídio de um aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro. Celestino José Rodrigues Neto, de 14 anos, fora pego com um livro aberto numa prova de Geografia. Sua mãe foi chamada pelo colégio e ouviu pelos autofalantes da escola o nome de seu filho e sua punição pela transgressão. O menino não se perdoou pela humilhação da mãe e tirou sua própria vida.

No chutômetro, diria que pelo menos 25% dos meus colegas de Ensino Fundamental e Médio colava regularmente. O número dos que colaram pelo menos uma vez por ano certamente era maior que 40%. Em geral, isso não era fruto de desespero: no máximo, o aluno sentia uma aflição mixuruca pensando na mãe braba com o boletim. Mesmo quem não colava, como eu, achava aquilo tudo natural e até engraçado.

(Parêntese em nome da honestidade: eu nunca colei, mas dei cola em algumas ocasiões. Devo ter subido no conceito dos meus amigos com isso, mas fico triste em pensar que algum professor meu pode estar lendo isto aqui.)

Na faculdade, as matérias ficaram mais difíceis e a cola, mais sofisticada. Meus colegas de turma eram excelentes alunos e quase todos estudavam bastante. Ainda assim, alguns trocavam informações durante os exames. Era como se fizessem a prova juntos! Alunos menos bons também colavam e plagiavam trabalhos. Inclusive, tirei zero num trabalho que um colega roubou da porta da sala do professor, copiou e devolveu pro lugar.

De repente, eu me vi vítima da cola e do plágio alheios. O jogo era mais sério: todo mundo ali era maior de idade e a expectativa era que uma boa performance naqueles cursos renderia oportunidades futuras. Havia gente que, sem vergonha aparente, conseguia um “up” no histórico com base na malandragem.

Do momento que eu fui prejudicado, deixei de achar a cola algo maroto e divertido. Daí para eu rever minhas ideias foi um pulo. A cola, o plágio e seus congêneres são, sim, trapaças e mentiras. É obrigação do estudante prezar pela própria formação e ter respeito pelos professores. Poucas coisas irritam tanto quanto descobrir a desonestidade de um aluno, mesmo que não seja meu. O caso do Colégio Militar continuou parecendo absurdo, mas, ao mesmo tempo, deixei de achar graça de quem colava.

O problema no Brasil e no mundo

Por alguns anos, minha descoberta me deu pretexto para falar mal daquele tipo chamado “o brasileiro,” aquele cara de quem, paradoxalmente, todo brasileiro fala. “O brasileiro” joga lixo no chão, fura a fila, suborna o guarda de trânsito e vaia o hino nacional alheio. Na certa “o brasileiro” também cola na escola e não acha nada demais dos filhos seguirem a tradição. Resolvi que era isso mesmo: nossa cultura ancestral de levar vantagem em tudo era a responsável por tantas trapaças.

Infelizmente, não era só isso mesmo. Pode até ser verdade que há um “tabu” maior com relação a cola e plágio em outros países. Ainda assim, as trapaças também são bastante difundidas no resto do mundo.

Há uma literatura acadêmica especializada nesse assunto. Donald McCabe, dos Estados Unidos, passou a vida estudando este tema. Sua conclusão é que a cola e o plágio são bem difundidos nos EUA e no Canadá, e os alunos não veem nada muito grave nisso [1]. Outros trabalhos corroboram esses estudos em outros países. Até um lugar como Cingapura, draconiano no combate ao chiclete, tem problemas parecidos no mundo dos alunos [2].

Esse quadro global quase faz com que eu me sinta o alienista de Machado de Assis: de repente sou eu que estou doido. Não cheguei a esse ponto, mas observo que a linha de trabalhos descrita acima também se preocupa em estudar o porquê dos alunos colarem. Para além dos estudantes que acham que colar “tá de boa”, vê-se que há os que não se sentem acolhidos no ambiente acadêmico e os que sentem que os honestos ficam para trás [3]. Certamente há nisso um quê de angústia do doutor Py, mas, ao invés de virar um drama ou tragédia, ela se resolve num cálculo racional: muita gente cola e isso parece valer a pena.

O que fazer a respeito?

O quadro acima também sugere uma saída racional para as trapaças acadêmicas. Por um lado, o aluno tem de ser acolhido. Por outro, as falcatruas têm de valer menos a pena. Mas qual é a receita? Entre passar a mão na cabeça – o que parece errado –, dar zero em quem cola – que não parece adiantar – e o Colégio Militar do Rio – que, ao menos em 1992, chegava a ser cruel –, não é fácil decidir o que fazer.

Como alguém que trabalha com saber e educação, meu sonho seria não alterar o comportamento dos alunos, mas sim seus sentimentos. Eu gostaria que cada aluno ouvisse da sua própria consciência que colar e plagiar é errado.

Um ex-aluno meu que é professor disse que perdoaria mais facilmente um estudante que o esmurrasse do que aqueles que pega colando. Eu não chego a tanto, mas entendo esse sentimento. O nome dele é angústia e ele atinge também quem ensina e cria saber.

Bônus: um “causo” esdrúxulo

Como este texto está meio depressivo, parece boa ideia fechá-lo com uma história engraçada. Talvez eu ainda ache graça nisso de vez em quando.

Eis o “causo”. Estava aplicando uma prova no IMPA. Na época não me preocupava em ficar em cima dos alunos 100% do tempo: era difícil imaginar pós-graduandos de um centro de elite colando. Por isso, como de costume, saí da sala e voltei várias vezes.

Numa dessas saídas, acabei passando um bocado de tempo numa cabine do banheiro. De lá escutei uma pessoa chegar ao mictório e depois, outra. Depois dos barulhos esperados, os dois entabularam uma conversa:

— E aí, cara? A prova tá difícil, né?

— É.

— Pois é, também achei.

— É.

Reconheci uma das vozes: era de um aluno fazendo a prova. A outra certamente era de outro estudante da mesma turma.

Depois de uma pausa, voltou o papo.

— As duas primeiras questões são fáceis, mas a 4 eu não sei…

— É…

Mais uma pausa — ou seria hesitação? — e o segundo aluno disse:

— Na 4, o que você tem que pensar é o seguinte: …

Caramba, dois mestrandos marmanjos estavam prestes a passar cola no banheiro!

Pensei em esperar mais dois segundos, abrir a porta da cabine de repente e pegar os dois no flagra. Isso me causou um incômodo físico: era estranho eu fazer isso sem nem lavar as mãos. Além do mais, havia o incômodo moral: eu podia ser benevolente e impedir que o erro deles se consumasse. Foi o que resolvi fazer gritando com eles lá do “trono”:

— OLHEM LÁ O QUE VOCÊS VÃO DIZER AÍ! O PROFESSOR TÁ ESCUTANDO VOCÊS!

Muito se fala do poder da palavra; naquele dia, aprendi que a minha palavra tem o poder de desintegrar alunos espertos. Ou pelo menos foi o que pareceu, já que, depois de eu falar, fez-se silêncio absoluto no recinto. Era como se ninguém jamais tivesse passado por ali.

Imagino que eles perceberam o bem que fiz, mas não sei se sentem gratidão. De um jeito estranho, acho que consegui ser a voz da consciência daqueles rapazes.

—-

[1] McCabe, D.. “Cheating among college and university students: A North American perspective,” International Journal for Academic Integrity,vol. 1, no. 1 (2005).

[2] Lim, V. K. G.; See, S. K. B.. “Attitudes Toward, and Intentions to Report, Academic Cheating Among Students in Singapore.” Ethics and Behavior vol. 11, no. 3 (2001).

[3] Norris, E. J.. “Academic integrity matters: five considerations for addressing contract cheating.” International Journal for Educational Integrity vol. 14, no. 15 (2018).


 

Oliveira, Roberto Imbuzeiro. Sobre a cola. In: Landim, Claudio. Blog “Ciência e Matemática, 18Jul2019. https://blogs.oglobo.globo.com/ciencia-matematica/post/sobre-cola.html

A terceirização na avaliação por pares – 1

 

Três postagens anteriores (A avaliação por pares em discussão – Partes 1, 2 e 3) focalizaram a discussão que atualmente envolve diferentes possibilidades de implementação da avaliação por pares aberta. Todas as propostas em discussão reconhecem o tanto de trabalho que a atividade soma à já sobrecarregada vida acadêmica, mas consideram a figura o avaliador único.

Um artigo de Benderly no magazine Science, porém,  traz para primeiro plano uma prática obscura: a terceirização de pareceres, assinados por pesquisadores de ponta, mas escritos de fato por pesquisadores em início de carreira: pós-graduandos ou pós-docs.

[Continua]

 


Benderly, Beryl Lieff.  Early-career researchers commonly ghostwrite peer reviews. That’s a problem. Science/Taken for Granted, 6Maio2019.  https://www.sciencemag.org/careers/2019/05/early-career-researchers-commonly-ghostwrite-peer-reviews-s-problem

McDowell, Gary S. et alii. Co­reviewing and ghostwriting by early career researchers in the peer review of  manuscripts.  bioRxiv preprint first posted online Apr. 26, 2019; doi: http://dx.doi.org/10.1101/617373.

[Parte 1] [Parte 2]

 

3 – Alguns comentários sobre as partes 1 e 2 anteriores: ainda a autoria

 

Autoria não é presente, como já se ressaltou aqui anteriormente. Somos responsáveis pelo que assinamos.  Autoria também não é uma cortesia a se fazer com colegas, amigos, parentes. Menos ainda se for uma cortesia-surpresinha, da qual o agraciado não é avisado, como parece ter acontecido em dois dos trabalhos retratados do Dr. Reuben.

Quem assina um trabalho tem de “estar ciente de como os resultados foram apresentados e estar disposto a defender o manuscrito final“, afirmam Padula, Somerville & Mudrak, 2018. Resumem, desse modo, o quarto e último dos critérios de autoria estabelecidos pelo  International Committee of Medical Journals Editors (ICMJE) que têm de ser satisfeitos por cada autor,  a saber:

  • Contribuições substanciais para a concepção e planejamento do trabalho, ou a aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho;  E
  • Redação prévia ou revisão crítica no que respeita ao conteúdo intelectual; E
  • Aprovação final da versão a ser publicada;  E
  • Concordância em poder prestar contas de todos os aspectos do trabalho, assegurando que questões relativas à precisão e integridade de qualquer parte do trabalho sejam apropriadamente investigadas e resolvidas.
Mas tenho de responder pelo que não fiz no trabalho? 
Essa parte nem é minha área!
No famoso caso Imanishi-Kari, David Baltimore, um dos autores 
e,já na época, Prêmio Nobel, assim se referiu aos dados
do artigo da Cell: 
"It was the kind of work I didn't know how to do, 
had never done, 
and I had collaborated with Imanishi-Kari 
for that reason" (Kleves, 1996: 99)

O comentário de Baltimore vai ao encontro da crítica de que o quarto critério do ICMJE  não é razoável ou viável para todos os membros de uma equipe:

For example, many undergraduate researchers do not have the authority or expertise to handle the associated responsibilities contained with ICMJE’s criterion. Along these lines, postdoctoral fellows are often at the mercy of a lab director in terms of their professional future and do not always have robust support systems in place to protect them from reprisal if they seek to uphold the “accuracy or integrity” of a project. [….] The power differential between junior and seniors researchers is hard to ignore. Furthermore, one collaborator may effectively have no way of knowing how another’s data were obtained or what they fully mean. For example, a biochemist collaborating with an X-ray crystallographer or an electron microscopist might not be able to, or struggle to, appreciate the field-specific nuances of the other person’s work. (Borenstein &  Shamoo, 2015: 274)

Caso se leve em conta quem tomou parte da redação do texto em algum momento, de novo  vem a pergunta: como ficam trabalhos com equipes multidisciplinares,  de diferentes centros (parte deles não nativos da língua em que saíra a publicação)?  E se o número de autores chegar aos milhares, se forem mais de 5000 autores,  por exemplo, como no trabalho sobre o bóson de Higgs de 2015? Ou mesmo 20?  Que contribuições num projeto qualificam alguém como autor de um trabalho?

A complexidade do problema vem promovendo a proposta, pelo menos desde 2012, de que se deixe claro o tipo de contribuição de cada um, caso da  taxonomia CRediT.

As áreas têm culturas diferentes. Um exemplo.

No começo dos anos 1990, passeando pela seção de painéis de um encontro de física, chamou a minha atenção um trabalho sobre estatística de distribuição de níveis de energia em um cristal. [….]  Perguntei ao colega que estava apresentando o painel sobre essa estatística e a resposta foi que ele fizera os cálculos dos níveis de energia, não sabia interpretá-los e quem poderia responder a minha pergunta era o outro autor, que não estava presente. [….] Na época o desconforto que a questão suscitou foi aplacado pela lembrança de uma prática internalizada na comunidade científica a qual pertencia. Experimentos importantes são realizados por diferentes grupos utilizando amostras sofisticadas obtidas em poucos laboratórios. O uso dessas amostras configura um tipo de colaboração comum e os artigos resultantes dessas colaborações sempre têm o produtor das amostras como autor. Faz parte do paradigma da comunidade a percepção clara da função específica daquele autor na lista de autores.  A autoridade dele é sobre a amostra e não sobre a pesquisa resultante em si. (Schulz, 2017)

 


Referências

Borenstein, Jason &  Shamoo, Adil E. 2015.  Rethinking Authorship in the Era of Collaborative Research, Accountability in Research, 22: 267-283. http://nursing.msu.edu/research/Resources%20for%20Researchers/Reccomended%20Reading%20Articles/Rethinking%20authorship%20in%20the%20era%20of%20collaborative%20research.pdf

Castelvecchi, Davide. 2015. Physics paper sets record with more than 5,000 authors. Nature News. https://www.nature.com/news/physics-paper-sets-record-with-more-than-5-000-authors-1.17567#/b1

Harvard University and the Wellcome Trust. 2012. Report on the International Workshop on Contributorship and Scholarly Attribution, IWCSA Report .   http://projects.iq.harvard.edu/files/attribution_workshop/files/iwcsa_report_final_18sept12.pdf

Kleves, Daniel J. 1996. The assault on David Baltimore. The New Yorker, 27Maio1996.  http://web.mit.edu/chemistryrcr/Downloads/Baltimore.pdf

Padula, Danielle, Somerville, Theresa & Mudrak, Ben. 2018. Todos os periódicos devem ter uma política que defina a autoria – aqui está o que incluir [Publicado originalmente no blog LSE Impact of Social Sciences em Janeiro/2018] [online]. SciELO em Perspectiva, 2018.  https://blog.scielo.org/blog/2018/08/31/todos-os-periodicos-devem-ter-uma-politica-que-defina-a-autoria/

Schulz, Peter. 2017. Já não se fazem mais autores como antigamente. Jornal da Unicamp. 17Out2017. https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/ja-nao-se-fazem-mais-autores-como-antigamente

[Parte 1] [Parte 2] [Parte 3]