A autoria múltipla: o primeiro, o último, só um “et alii”?

 

Any issue of Nature today has nearly the same number of Articles and Letters as one from 1950, but about four times as many authors. The lone author has all but disappeared. In most fields outside mathematics, fewer and fewer people know enough to work and write alone. If they could, and could spare the time and effort to do so, their funding agencies and home institutions would not permit it. (Greene, [2007])

Embora o excerto acima seja relativo à revista Nature, o número de trabalhos em colaboração vem crescendo, mesmo em áreas em que essa não era a tradição, caso da Linguística, especialmente em algumas de suas especialidades.

Se levarmos em conta, por exemplo, os cinco últimos números da Revista Linguística,  foram 54 os artigos publicados;  28 deles  tinham mais de um autor, sendo que o primeiro número de 2018  tinha um autor em apenas três dos 10 artigos publicados. Mesmo assim, dos sete artigos com mais de um autor, apenas dois tinham mais de dois autores: um com três autores e outro, com oito. Ainda bem longe, portanto, dos números em áreas como a Física ou a Biologia levantados este ano:

One quarter of the top 500 cited articles in nuclear physics averaged 1160 authors (WoS, 2010 to 2015)* [21]. Author counts biomedical journals are not so high 69 but 19 of the 244 articles Lancet publsihed [sic] in 2017 had more than 40 authors, 10 had  more than 480 authors, and one had 1039 [22]. (Patience et alii, 2018: 3)

Esses números de autores por trabalho são impensáveis em Linguística.

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* WoS = abreviatura para Web of Science, serviço de propriedade da Clarivate Analytics. Essa plataforma pode ser consultada via Portal de Periódicos da CAPES, mas está disponível apenas para os acessos com IP identificado das instituições participantes do Portal. Não faz parte do conteúdo gratuito do Portal. 

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A Revista da ABRALIN (Associação Brasileira de Linguística)
tem implícita a tradição da área nas instruções 
para submissão de artigos (ênfase adicionada):


"Na primeira página, deverão constar o título do trabalho 
em letras maiúsculas em português ou inglês 
e o nome do autor com letras maiúsculas somente nas iniciais. 
No rodapé, deverá ser indicada a qualificação do autor e, 
se for o caso, sua condição de bolsista do CNPq, CAPES ou FUNCAP".

Com o crescente número de autores por trabalho (e com o fato de a publicação científica ter-se tornado um negócio milionário), um conceito que parecia simples tornou-se um tópico em discussão: quem pode ser arrolado como autor afinal?

Uma situação que parece ter feito a área biomédica se preocupar tanto com o conceito de autor deriva de terem vindo a público casos do que se convencionou chamar “autoria fantasma“:  uma empresa farmacêutica, por exemplo, dentro de sua campanha de marketing prepara um artigo que será assinado por alguém com destaque na área e publicado numa revista famosa. Os nomes ligados ao fabricante que trabalharam no artigo fornecendo as informações que deveriam chegar ao público não aparecem, o que  esconde  que o trabalho é uma peça para incentivar a venda de determinado produto e que não se trata de uma análise independente dos benefícios e riscos de uma droga (ver Moffatt, 2013).

Quem é autor? Algumas propostas de  editores científicos

Para os editores, a autoria está ligada ao direito autoral.

LSA – Linguistic Society of America (como no caso da ABRALIN, não se discutem critérios de autoria; o conceito não traz maiores problemas):

Authorship. Complete and accurate identifying information for all authors, along with their email addresses, where possible, must be provided on the initial submission of a manuscript.  The corresponding author should be clearly indicated. Changes to a paper’s authorship after the fact must be requested in a letter to the Editors clearly stating why the change is necessary, and must be confirmed by the non-corresponding authors in a brief email message to the Editors. The ultimate decision to make changes after the initial submission rests with the Editors

ESA – Ecological Society of America (os critérios da ICMJE parecem fundamentar a lista de critérios da área, mas não há necessidade de atender a todos eles):

Publication: The following principles of ethical professional conduct apply to members reviewing, editing, or publishing grant proposals and papers in the professional literature in general, and particularly to all ecologists seeking publication in the Society’s journals.

  1. Researchers will claim authorship of a paper only if they have made a substantial contribution. Authorship may legitimately be claimed if researchers
    1. conceived the ideas or experimental design;
    2. participated actively in execution of the study;
    3. analyzed and interpreted the data; or
    4. wrote the manuscript.
  2. Researchers will not add or delete authors from a manuscript submitted for publication without consent of those authors.
  3. Researchers will not include as coauthor(s) any individual who has not agreed to the content of the final version of the manuscript. [….]

WAME – World Association of Medical Editors  (o grupo decide):

Authorship implies a significant intellectual contribution to the work, some role in writing the manuscript and reviewing the final draft of the manuscript, but authorship roles can vary. Who will be an author, and in what sequence, should be determined by the participants early in the research process, to avoid disputes and misunderstandings which can delay or prevent publication of a paper.

EASE – European Association of Science Editors    (segue a ICMJE):

Lista de autores, isto é, todas as pessoas que contribuíram significativamente para o planejamento do estudo, coleta de dados ou interpretação dos resultados e escreveram ou revisaram criticamente o original e aprovaram a versão final do mesmo e consideram-se responsáveis por todos os aspectos do trabalho. Todas as pessoas que cumpram o primeiro critério devem poder participar na elaboração e aprovação da versão final (ICMJE 2016). Os autores mencionados primeiro devem ser aqueles que tiveram maior participação. A ordem dos nomes dos autores deve ser determinada antes de enviar o artigo. Quaisquer alterações feitas depois do envio devem ser aprovadas por todos os autores e explicadas ao editor do periódico (Battisti et al. 2015, ver COPE flowcharts).

ICMJE –  International Committee of Medical Journal Editors (ou critérios de Vancouver) – na área biomédica, certamente o conjunto de critérios mais referido:

  1. Contribuições substanciais para a concepção e planejamento do trabalho, ou a aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho;  E
  2. Redação prévia ou revisão crítica no que respeita ao conteúdo intelectual; E
  3. Aprovação final da versão a ser publicada;  E
  4. Concordância em poder prestar contas de todos os aspectos do trabalho, assegurando que questões relativas à precisão e integridade de qualquer parte do trabalho sejam apropriadamente investigadas e resolvidas.

 

E se um pesquisador do grupo morrer antes da submissão?
Não preencheria os dois últimos critérios da ICMJE.
A pergunta é estranha, mas já mereceu 
consideração, por exemplo, em
Teixeira da Silva & Dobánszki, 2015.

E se ninguém preenche os quatro critérios?
Ver uma interessante discussão em Moffatt, 2013.

 


O primeiro, o último, em ordem alfabética ou … 

Com a autoria múltipla, surge a questão da ordem dos nomes: atendida a Norma NBR 6023/2002, da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, a citação de um trabalho de mais de três autores  transforma  todos que não o primeiro autor em et alii  ou et al. (lat. ‘e outros’).

Cada área de conhecimento (e cada país) parece ter sua cultura.

Um critério de ordenação é respeitar a ordem alfabética dos sobrenomes. Uma crítica à ordem alfabética é que iguala a todos. Alguém de sobrenome Abreu terá mais chances de ser o primeiro autor que alguém com o sobrenome Xavier e, no caso de mais de três autores, algo como Abreu, Leão, Oliveira & Xavier seria Abreu et alii [condenando às trevas do esquecimento todos os demais … Muito dramático!]. Se todos trabalharam, isso não deveria ser um problema.

Se o critério para listar autores for a contribuição, o primeiro autor é o que mais contribuiu.

Dependendo da área de conhecimento, a tradição pode levar o nome de mais prestígio e responsável pelo desenho do projeto para o último lugar na lista de autores (Borenstein &  Shamoo, 2015: 272; Dance, 2012). Isso não é o mesmo que dizer que o último nome só está ali para dar peso a nomes em início de carreira, ou que é o dono da sala, que impôs seu nome … e que sequer leu o manuscrito.

E se o trabalho resulta de uma colaboração 
internacional interdisciplinar? 
Não haverá vários pesquisadores com prestígio envolvidos?

Mas não é tão simples. Na Índia, por exemplo, o Conselho de Medicina reviu em 2015 os critérios para a promoção de professores de instituições médicas e, no tocante às publicações, para ser promovido há a exigência de ser indicado como primeiro ou segundo autor nas publicações  (Aggarwal, Gogtay,  Kumar  &  Sahni, 2016).

Uma área cinzenta:  quem fica no meio da lista? Há quem diga que ninguém lê aqueles nomes.

E onde fica o autor correspondente ?

Em trabalhos com autoria múltipla, o autor correspondente  (ing. corresponding author ou  CA) — que pode não ser nem o primeiro nem o último autor — é o nome responsável  pela comunicação com os editores: 

This means she needs to ensure that all authors are aware that the manuscript is being submitted and have had a chance to read it and sign off on it; that the potential conflicts of interest of each author are surfaced and thoughtfully collated; and that at least one author has seen, reviewed, and can vouch for the veracity of ALL of the data in the paper. (Marcus, 2016)

Mas não só: é o nome responsável  também pela comunicação com os leitores e aquele a ser contactado no caso de qualquer questão que porventura surja após a publicação.

Na China (Borenstein &  Shamoo, 2015: 272) — mas certamente não só lá e na dependência da área de conhecimento — confere prestígio ser o nome indicado como o autor correspondente, atribuição que demonstraria tratar-se de um pesquisador-sênior. 

Na área Letras e Linguística no Brasil a figura do autor que responde pelo trabalho coletivo junto aos editores do periódico começa a surgir, acompanhando o aumento do número de autores por trabalho. Já está, por exemplo, nas instruções aos autores  da Revista de Estudos da Linguagem, embora com denominação um pouco distinta (ênfase adicionada):

For multiple author submissions, all authors must be registered as users of the journal; additionally, all authors must be listed on the the submission page by the submitting author. All authors must have ORCIDIDs and these have to be inserted in the Metadata section of the article [….].The submitting author must declare each author’s contribution to the paper upon submission. [….]

The submitting author must declare each author’s contribution to the research and paper under submission. This information release is incombent on the submitting author and should be inserted in the “Comments to the Editor” section.

Vem surgindo uma nova figura na publicação de
trabalhos com autoria múltipla e com dados originais: 
o guarantor (algo como 'fiador', 'garante'), que atesta
que teve acesso aos dados e garante a integridade
e correção do que foi feito por cada autor. 
Nem sempre é clara a distinção 
entre o guarantor e o autor correspondente.

Strange (2008), com base nos quatro critérios de autoria do ICMJE, propôs que a ordenação da área seguisse os critérios no quadro a seguir.

Autoria -ICMJE
A significação a extrair da ordenação de autores de um artigo da área biomédica segundo  Strange (2008) .

Posso escrever um artigo científico anônimo?
Não. Trabalho individual ou em grupo, um artigo científico
tem de estar assinado. Quem assina é responsável pelos
achados apresentados.

Posso usar um pseudônimo?
Também não! Mas ... há casos famosos de pseudônimos na
vida acadêmica. 
1)  Zoroastro Azambuja Filho e Euclides Rosa foram heterônimos 
do famoso matemático Elon Lages Lima (1929-2017). Não eram 
apenas pseudônimos porque deu vida a eles, a ponto de 
criar um conflito entre ambos
(entrevista pelos 50 anos do IMPA - Instituto de Matemática 
Pura e Aplicada, p. 110-111).

2) Nicolas Bourbaki, por sua vez, é um pseudônimo coletivo
de um grupo de matemáticos fundado na década de 1930, 
cujos membros iniciais foram 
Henri Cartan (1904-2008), Claude Chevalley (1909-1984), 
Jean Delsarte (1903-1968), 
Jean Dieudonné (1906-1992) e André Weil (1906-1998) 
(Wikipedia, Nicolas Bourbaki).  

3) O homem que calculava fez parte da 
iniciação à Matemática de muita gente no Brasil.
O autor, Malba Tahan foi pseudônimo de Júlio César de Melo e Sousa
(1895-1974).
Mas eram outros tempos...

É preciso mesmo fazer um ranque de importância de participações?

Uma disputa sobre quem deveria estar, por exemplo, em sétimo ou em oitavo numa lista de 10 autores soa estranha; afinal diz muito pouco para o leitor de um artigo.

Por outro lado, se o oitavo nome 
não tivesse feito sua parte como ficaria o artigo?

Na lista de autores ou nos agradecimentos?

Levada às últimas consequências, esses critérios também podem retirar alguém da lista de autores e movê-lo para a lista de contribuições que merecem agradecimento e isso nem sempre é fácil e não há consenso nem dentro de uma única área sobre inclusão e exclusão.

Vejam-se os exemplos (Strange, 2008) de tarefas que não permitiriam a inclusão de um nome na lista de autores, apenas nos agradecimentos na área biomédica.

Autoria - exclusao
Nos agradecimentos apenas (Strange, 2008)

 

Quem é autor? A prática na área da Linguística

Os critérios da ICMJE são estranhos a Letras e Linguística. Um exemplo. Quem gravou entrevistas, trabalhou na transcrição e trabalhou na anotação linguística do corpus deveria ser incluído como autor? A aplicação dos critérios do ICMJE para a definição de autor em Linguística diria que não seria autor se a participação se limitou a essas atividades. Como se vê, os critérios não são universais.

E se todo esse conjunto de dados
for usado por outros grupos de pesquisa que
sequer conhecem aqueles colaboradores que concretizaram o corpus?

Consultei informalmente três expoentes da Linguística no Brasil que sempre trabalharam com grandes grupos de pesquisa. Suas respostas confirmam que, nesta área,  os critérios são decididos no grupo (“os autores do texto decidem quem é quem, e assim procedem à sequenciação dos nomes“) e que mesmo líderes de um grande grupo de pesquisa não são necessariamente coautores, seja em trabalhos com autoria múltipla ou mesmo em dupla (“Raramente publico em dupla –só o fiz duas vezes“). A tradição de publicações monoautorais ainda tem força.

 


Uma tentativa de evitar conflitos

Cada área de conhecimento (e cada país) parece ter sua cultura para incluir ou excluir nomes de uma lista de autores de um trabalho. Melhor discutir com o grupo os nomes que serão incluídos numa publicação e sua ordenação ─ vale a pena fazer dessa  uma decisão clara no grupo. De preferência antes de o trabalho começar. E durante o trabalho também. E deixar claro na publicação em que consistiu a colaboração de cada um.


Referências

ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. Informação e documentação –
Referências – Elaboração – NBR 6023, Ago. 2002.

Aggarwal, R., Gogtay, N., Kumar, R., Sahni, P., Indian Association of Medical Journal Editors. 2016. The revised guidelines of the Medical Council of India for academic promotions: Need for a rethink. Journal of Ayurveda and integrative medicine, 7(1): 3-5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4910577/

Borenstein, Jason &  Shamoo, Adil E. 2015.  Rethinking Authorship in the Era of Collaborative Research, Accountability in Research, 22: 267-283. http://nursing.msu.edu/research/Resources%20for%20Researchers/Reccomended%20Reading%20Articles/Rethinking%20authorship%20in%20the%20era%20of%20collaborative%20research.pdf

Dance, Amber. 2012. Authorship: Who’s on first? Nature, 489: 591–593. https://www.nature.com/naturejobs/science/articles/10.1038/nj7417-591a

Greene, Mott. [2007]. The demise of the lone author. History of the Journal Nature. https://www.nature.com/nature/history/full/nature06243.html

ICMJE – International Committee of Medical Journal Editors . Who Is an Author?  http://www.icmje.org/recommendations/browse/roles-and-responsibilities/defining-the-role-of-authors-and-contributors.html

IMPA – Instituto de Matemática Pura e Aplicada. 2003. IMPA 50 Anos. http://w3.impa.br/~webnew/publicacoes/livro_impa_50_anos/livro_impa_50_anos_pdf.pdf

Moffatt Barton. 2013. Orphan papers and ghostwriting: The case against the ICMJE
criterion of authorship. Accountability in Research, 20:59-71.

Marcus, Emilie. 2016. What does it mean to be the corresponding author? Cell’s “Crosstalk”, 8Mar2016.  http://crosstalk.cell.com/blog/what-does-it-mean-to-be-the-corresponding-author

Patience, Gregory S.; Galli, Federico; Patience, Paul & Boffito, Daria C. 2018.Intellectual contributions meriting authorship: Survey results from the top cited authors across all science categories. bioRxiv preprint first posted online May. 17, 2018; doi: http://dx.doi.org/10.1101/323519 

Revista de Estudos da Linguagem .  http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/relin/index

Revista Linguística. https://revistas.ufrj.br/index.php/rl

Strange, Kevin. 2008. Authorship: why not just toss a coin?. American journal of physiology. Cell physiology , 295 (3): C567-75. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2544445/

Teixeira da Silva, Jaime & Dobánszki, Judit. 2015. The Authorship of Deceased Scientists and Their Posthumous Responsibilities. Science Editor. https://www.csescienceeditor.org/article/the-authorship-of-deceased-scientists-and-their-posthumous-responsibilities/

Wikipédia, Contribuidores da. Malba Tahan https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Malba_Tahan&oldid=53438971 

Wikipédia, Contribuidores da. Nicolas Bourbaki https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Nicolas_Bourbaki&oldid=50213088.

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