A “Dra. Anna Fraude”

 

Uma personagem fictícia, criada por quatro pesquisadores, materializou-se num spam enviado a 360 periódicos científicos.

Anna-olga-szust
Anna O. Szust

Ela se candidatava a editora. Seu nome:  Anna O. Szust, uma brincadeira com a palavra polonesa oszust, ‘fraude’. O perfil criado para a Dra. Anna era fraco: basicamente a tese de doutorado  “Adult females’ (Homo sapiens) born during the spring season are more physically attractive” e capítulos de livros inexistentes  atribuídos a editoras inexistentes. 48 publicações caíram no embuste, sendo que uma  propôs a divisão  do lucro 60-40. O relato dessa experiência por seus autores:

Sorokowski, Piotr;  Kulczycki, Emanuel; Sorokowska, Agnieszka  Pisanski, Katarzyna. 2017. Predatory journals recruit fake editor.   Nature 543, 481–483 () https://www.nature.com/news/predatory-journals-recruit-fake-editor-1.21662



Imagem: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anna-olga-szust.jpg

 

Anúncios

Recebi emails de uma revista internacional desconhecida interessada em que eu dê pareceres para artigos

 

Há um tipo de spam que se concretiza como uma mensagem lisonjeadora a nosso trabalho e nos convida a publicar numa revista de que nunca se ouviu falar, apesar de alardear um fator de impacto extremamente alto. A publicação quase imediata se faz mediante pagamento de taxas que a mensagem (ou o site do grupo editorial) faz questão de frisar que estão abaixo dos preços de mercado (comentado em Recebi emails de uma revista internacional interessada em publicar minha pesquisa/)

Esse tipo de caça-níqueis dirigido especificamente a autores acadêmicos vem-se expandindo: aos spams com um convite para publicar num determinado periódico  há  também aqueles que convidam para atuar como  parecerista. Se o filtro de endereços não foi muito bom, podemos  receber uma solicitação de parecer para um trabalho em área muito diferente da nossa, como no exemplo a seguir.

Peer review convite 2

Fosse o convite feito para analisar um texto de nossa área, como decidir?

Bom, há detalhes a considerar em mensagens desse tipo.

  • Uma consulta ao DOAJ/Directory of Open Access Journals retorna o nome da revista? (Mas podia ser uma revista recém-criada, por exemplo).
  • O nome do grupo editorial dessa publicação já aparecia na antiga lista de Beall ? (Mas a lista foi alvo de críticas).
  • Talvez o mais importante: um passeio pelo site do periódico, porque ele nós dá  ideia do que foi publicado: os textos tê qualidade? Os prazos decorridos entre o recebimento do manuscrito e sua publicação contam-se em dias apenas?  Enfatiza a cobrança de taxas abaixo das cobradas no mercado?

O convite para parecer tinha interesse de fato num parecer?

Vamos ao exemplo acima. Foi possível rastrear o trabalho mencionado no convite e constatar que entre a data de recebimento do artigo pelos editores, avaliação e publicação na internet  correram apenas 23 dias e £999 (em torno de 5 mil reais); entre o email acima e o final do processo, 11 dias.  

Respondo a uma mensagem como essa? (Ou : devo responder a um spammer tão amável?)

Não.

Um desdobramento indesejável

Conseguir nomes que aceitem ser associados a uma revista predatória ajuda a revestir de respeitabilidade um negócio eticamente discutível. Mas para quem permitiu ter seu nome associado a um desses periódicos o cenário muda.

Laine & Winker (2017), em artigo no site da WAME/ World Association of Medical Editors, propunham que “Ideally, academic institutions should also identify academics who are listed as editors or Editorial Board members for journals established as predatory, and require that their affiliation with the institution is removed”. 

É uma proposta apenas. Mas ilustra o dano à reputação que pode trazer.


Laine, Christine & Winker Margaret A. Identifying Predatory or Pseudo-Journals. World Association of Medical Editors. February 15, 2017. http://wame.org/identifying-predatory-or-pseudo-journals

Livro adicionado

Está disponível o livro “Escrita acadêmica: primeiros passos” em Home/Docs neste site. Voltado especialmente para os pós-graduandos do Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFRJ, pode servir de orientação a outros alunos no processo de se tornarem autores acadêmicos.

O livro se compõe de três partes. A primeira parte tem como suporte a macro-organização dos maiores desafios do início do percurso acadêmico:  a dissertação de mestrado e a tese de doutorado, mas também a monografia de final de curso de graduação.  Feito o trabalho, a pergunta: onde publicar? É o tema da segunda parte. A terceira parte trata de um problema crescente: a publicação que compromete o currículo.


Rosa, Maria Carlota. 2018. Escrita acadêmica: primeiros passos. Rio de Janeiro: M.C.A.P.Rosa.

O Plano S europeu: Acesso Aberto (OA) para pesquisas com dinheiro público

Em setembro de 2018, com o apoio da Comissão Europeia e do Conselho de Pesquisa Europeu foi lançado na Europa o Plano S,  uma proposta que pretende obrigar a veiculação de trabalhos científicos realizados com financiamento público em acesso aberto a partir de 1 de janeiro de 2020.

“By 2020 scientific publications that result from research funded by public grants provided by participating national and European research councils and funding bodies, must be published in compliant Open Access Journals or on compliant Open Access Platforms.”

O Plano S conta com 10 princípios  que preveem, por exemplo, que o autor manterá os direitos autorais, sem restrições; que o modelo híbrido de publicação (isto é, revistas com OA e assinaturas) não será compatível com o novo modelo; que as taxas de publicação serão padronizadas e limitadas em toda a Europa.

A reação de grandes grupos editoriais que não publicam em acesso aberto teve início, porque, segundo um dos representantes da Elsevier,  “if you think that information should be free of charge, go to Wikipedia” (Wikipedia, Plan S). Veio também de pesquisadores, em especial da área da Química, numa carta aberta, “Reaction of Researchers to Plan S: Too Far, Too Risky.


Sobre o tema:

cOAlition S.  2018. Plan S : Making full and immediate Open Access a reality. https://www.coalition-s.org/

cOAlition S. 2018. 10 Principles .  https://www.coalition-s.org/10-principles/

Plan S Open Letter. Reaction of Researchers to Plan S: Too Far, Too Risky. https://sites.google.com/view/plansopenletter/home

USP/ SIBI.  s.d. O Plano S e a revolução do Acesso Aberto. http://www.sibi.usp.br/noticias/revolucao-no-acesso-aberto-conheca-o-plano-s/ 

Velterop, Jan. 27Nov2018. Plano S — e Taxas de Processamento de Artigo (APCs). SciELO em Perspectiva, 2018  https://blog.scielo.org/blog/2018/11/27/plano-s-e-taxas-de-processamento-de-artigo-apcs/

Wikipedia contributors. Plan S. https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Plan_S&oldid=872544171.