A Linguística brasileira de luto: morre a Professora Miriam Lemle

 

É com grande tristeza que recebemos hoje cedo  a notícia do falecimento da Prof. Miriam Lemle.  O sepultamento será  hoje, 12 de fevereiro de 2020, no Cemitério Comunal Israelita do Caju, no Rio de Janeiro às 15 horas.

Apesar de aposentada, a Prof. Miriam Lemle continuava ativa na nossa pós-graduação.

Uma vida dedicada à Linguística

Em 1962, três anos depois de se graduar em Letras Neolatinas naquela que atualmente é a UFRJ, e ainda como estagiária no Museu Nacional (Rio de Janeiro), a Professora Miriam Lemle começava seu percurso na Linguística. Nesse momento, a Linguística constituía-se ainda numa novidade no Brasil. O Professor Joaquim Mattoso Camara Jr. lecionara essa disciplina em 1938 na Escola de Filosofia e Letras da antiga Universidade do Distrito Federal (UDF),  extinta por decreto-lei em 1939 e seus alunos transferidos para a Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras (FNF), parte da nova Universidade do Brasil. O currículo de Letras da FNF, que incluiu três diferentes cursos, a saber, Letras Clássicas, Letras Neolatinas e Letras Anglo-Germânicas, não incluiu a Linguística em nenhum deles. Somente em 1948 Câmara Jr. seria convidado a lecionar Linguística, mas apenas para Letras Clássicas. Até o final da década de 1950 esse seria o único curso do Brasil em que havia ensino regular de Linguística.

Por outro lado, no Departamento de Antropologia do Museu Nacional começava a formar-se em torno de Camara Jr. um grupo de jovens pesquisadores. É aí que vamos encontrar a jovem Miriam Lemle em 1962.

Seis anos mais tarde, já Mestre em Linguística pela Universidade da Pensilvânia (EUA), a Professora Miriam Lemle participaria da criação da primeira pós-graduação em Linguística do País, inicialmente no Museu Nacional, mas logo transferida para a Faculdade de Letras da UFRJ: o mestrado e o doutorado em Teoria Linguística, credenciados ambos pelo Parecer CESu 573/70, de 07 de agosto de 1970. Consequentemente, seu nome ficaria ligado à criação e expansão de uma área de conhecimento no Brasil, porque ela teria parte na formação dos professores que, oriundos de diferentes regiões do País, iam estudar essa nova área na UFRJ.

O doutoramento na UFRJ, numa Linguística já consolidada no Brasil como área de conhecimento, viria bem mais tarde, em 1980. A demora na titulação refletia o consenso da época de que o Doutorado não era a condição indispensável para o início de uma carreira acadêmica, mas uma forma de reconhecimento da maturidade acadêmica.

Em fevereiro de 1982 a Professora Miriam Lemle consolidava sua participação nas atividades da Faculdade de Letras da UFRJ ao transferir-se formalmente do Setor de Linguística do Departamento de Antropologia do Museu Nacional para o Departamento de Linguística e Filologia da Faculdade de Letras. Com isso ganhava peso e regularidade seu envolvimento com a graduação.

Esse envolvimento não ficaria restrito à Faculdade de Letras, uma vez que 12 anos mais tarde ela estaria entre os professores do Departamento de Linguística e Filologia que passariam a atuar concomitantemente na Faculdade de Medicina, no então recém-criado curso de Fonoaudiologia da UFRJ.

Coordenou o Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFRJ em 1983-1984, e manteve-se como Vice-Coordenadora até 1986. Em 1985, bolsista Fulbright, faria pós-doutorado no Massachusetts Institute of Technology (EUA). Nessa época, já reconhecida no País como uma figura catalisadora da pesquisa em gramática gerativa, a Professora Miriam Lemle estreitaria seu contacto com o Professor Noam Chomsky, idealizador dessa teoria.

Em 1987 seria eleita para a presidência da Associação Brasileira de Linguística (Abralin) para o período 1987-1989. Atuaria ainda como Substituto Eventual do Chefe de Departamento de Linguística e Filologia da UFRJ em 1993. A partir de  1991 manteve-se como membro da Comissão de Convênios da Faculdade de Letras e, a partir de 1994, quando se tornou Professor Titular, passou a membro nato da Congregação da Faculdade de Letras.  Ministrou cursos de extensão quer na Faculdade de Letras, quer no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

Aos muitos encontros de gramática gerativa que organizou na década de 1990, com professores renomados internacionalmente, como, por exemplo, Yosef Grodzinsky, Stephen R. Anderson, Juan Uriagereka, Massimo Piatelli-Palmarini, Michel Degraff  e o próprio Noam Chomsky, acorriam linguistas de todo o Brasil. Seu interesse pela gramática gerativa a conduziria para a Neurociência, no final da década 1990, quando no Brasil essa área não incluía a Linguística, nem a Linguística reconhecia a Neurociência.

Em 22 de maio de 2007, o Departamento de Linguística e Filologia da UFRJ decidiu unanimemente solicitar a concessão do título Professor Emérito para a Professora Miriam Lemle, que se aposentaria em dezembro desse ano, ao completar 70 anos.

Participava atualmente do Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFRJ  na linha de pesquisa “Gramática na Teoria Gerativa”,  coordenava desde 2003 o Laboratório Clipsen (Computações Linguísticas: Psicolinguística e Neurofisiologia).

O texto acima foi minha colaboração para a Wikipedia 
para o artigo "Miriam Lemle".

Boas Festas e até 2020!

Às vésperas do começo de mais uma década deste século 21, desejo a todos que alcancei com este blog um bom Natal e um bom ano de 2020 .

mapa site 20-12-2019

Agradeço a todos  o interesse, os comentários e as curtidas.

Até 2020!

Um periódico que estimula a pesquisa científica de crianças e jovens

Um artigo de Bec Crew para o Nature Index em 17 de dezembro passado tem o instigante título Peer-review for six-year-olds . E chama a atenção para o Canadian Science Fair Journal, periódico que publica trabalhos científicos de crianças a partir de seis anos, ainda no segundo ano. O periódico foi criado em 2017 por Dayre McNally, intensivista pediátrico do Children’s Hospital of Eastern Ontario e professor na Universidade de Ottawa. O trabalho submetido não pode ter sido publicado anteriormente e cada submissão é acompanhada  da declaração a seguir:

CSFJ - originalidade

 

Cada criança  trabalha com um editor da área do trabalho submetido (Engenharia e Fisica, Química, Comportamento/ Fisiologia, Biologia e Bioquímica, Ciências Ambientais, Ciências da Computação) até o artigo ser publicável — o que seria uma “revisão por pares colaborativa”. O número atual, por exemplo, traz os seguintes títulos:

Preenchendo o Lattes pela primeira vez: o que incluir na formação acadêmica?

O preenchimento inicial do Currículo Lattes vem, em geral, na sequência de uma candidatura a um projeto de Iniciação Científica, de Extensão ou a uma vaga de Monitoria; portanto, preenchido por alguém que está na graduação.

E invariavelmente vem a pergunta acerca da necessidade de incluir na tela Formação Acadêmica os cursos Fundamental e Médio. É possível incluí-los? É. Lá estão listadas essas possibilidades.

Lattes -formacao

 

Para decidir sobre a inclusão ou desistir dela vale levar em conta pelo menos dois aspectos: a) que o Lattes é um currículo para o mundo acadêmico; e b) perguntar-se o que essa informação agrega na superação de outros currículos que também estejam concorrendo à mesma vaga.

 

Mudou o acesso remoto ao Portal de Periódicos da CAPES (e a outros serviços)

 

Com  a entrada da Universidade Federal do Rio de Janeiro na  Comunidade Acadêmica Federada (CAFe) da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), é outro agora o modo de ter acesso ao Portal de Periódicos CAPES para professores, alunos, pesquisadores e técnicos.

Antes bastava entrar na intranet e clicar em PROXY. Agora não, e é necessário fornecer um email institucional. Os novos passos são os seguintes: entrar na intranet ufrj e, quando aparecer a imagem EduRoam , clicar nela.

Roam Sibi

A seguir surgirá a página EduRoam e o pedido de atualização de email  (tem de ser um email institucional) com um”clique aqui“. Tudo certo, vem a mensagem de que houve sucesso e um pedido de “ok”.

Aí, para ter acesso ao Portal de Periódicos, é necessário entrar no Proxy, ir para Periódicos CAPES e na barra superior marcar o “Acesso CAFE“.

O SIBi-UFRJ fez um tutorial bem explicadinho: https://tinyurl.com/tutorialUFRJCAFe

 

Ser citado numa tese vale menos que num artigo?

Imagem "Citation_needed" by Dawihi  is licensed 
under CC PDM 1.0 

Quase na mesma data em que a Web of Science divulga sua lista dos pesquisadores mais citados em 2019 (Highly Cited Researchers – 2019), chamou minha atenção um trecho num artigo de Ernesto Spinak no último boletim Scielo em Perspectiva, sobre a avaliação do impacto de pesquisas com base nas citações no Google Acadêmico (GA), na Web of Science (WoS) e na Scopus. O texto de Spinak reporta pesquisa que demonstra que,  quantitativamente, o GA ultrapassa as duas outras bases:

a simples evidência numérica constatou que o GA tem consistentemente o maior percentual de citações em todas as áreas (93%  96%), bem à frente do Scopus (35% – 77%) e do WoS (27% – 73%). O GA encontrou quase todas as citações do WoS (95%) e do Scopus (92%). A maioria das citações encontradas apenas pelo GA vem de fontes não pertencentes a periódicos (48% – 65%), incluindo teses, livros, documentos de conferências e materiais não publicados. Muitos documentos não estavam em inglês (19% – 38%) e tendiam a ser muito menos citados do que fontes que também estavam no Scopus ou no WoS

Spinak termina seu artigo ressaltando que sua fonte contrapõe à quantidade a qualidade das citações:

Tomados em conjunto, estes resultados sugerem cautela se o GA for usado em vez do WoS ou do Scopus para avaliação de citações. Sem evidência, não se pode presumir que as contagens mais altas de citações do GA serão sempre mais altas que as do WoS e do Scopus, pois é possível que a inclusão de documentos de qualidade mais baixa reduza o grau em que as contagens de citações reflitam o impacto acadêmico Por exemplo, algumas das citações de dissertações de mestrado podem refletir o impacto educacional. Portanto, dependendo do tipo de avaliação a ser realizada, pode ser necessário remover certos tipos de documentos de citações da contagem de citações, conforme sugerido por Prins, et al. (2016)

Retirem-se do cômputo as autocitações (já falamos disso anteriormente, em Posso citar a mim mesm@?; As citações por outro ângulo: o da ética). Mas  qual o problema se a citação surge numa dissertação ou tese? O problema seria porque  há poucas chances de esses trabalhos serem muito citados, diferentemente dos artigos publicados em revistas de luxo? Mas há quem afirme  que 90% dos artigos publicados em periódicos acadêmicos nunca são citados (Maho, 2007). Textos muito  usados em cursos de pós-graduação certamente são citados nas teses e dissertações daqueles que representam o futuro da pesquisa. Isso não deveria contar?


SPINAK, E. Google Acadêmico, Web of Science ou Scopus, qual nos dá melhor cobertura de indexação? [online]. SciELO em Perspectiva, 2019 . Available from: https://blog.scielo.org/blog/2019/11/27/google-academico-web-of-science-ou-scopus-qual-nos-da-melhor-cobertura-de-indexacao/

Uma notícia triste: morre Bartolomeu Meliá, S. J. (1932-2019)

Foto: Bartomeu Meliá (2011).jpg

 

O linguista e antropólogo jesuíta Bartolomeu Meliá, reconhecido por seu trabalho sobre os povos guarani, faleceu nesta sexta-feira 06 de dezembro de 2019 em Assunção, no Paraguai, país em que residia desde 1954.

Quando organizávamos Políticas de línguas do Novo Mundo (Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012) Consuelo Alfaro, José Ribamar Bessa Freire e eu ficamos muito felizes quando o Prof. Meliá aceitou não só escrever uma apresentação do livro (“Escutar, aprender, dizer”) mas ainda escrever um capítulo (“De la introducción al Tesoro de la lengua guaraní, de Antonio Ruiz de Montoya”) para o livro.  Agora sua voz se cala.

A notícia do falecimento está em Jesuitas Paraguay. O site Etnolinguística reúne alguns trabalhos de Bartolomeu Meliá.

 

 

Um aplicativo que faz o dever de casa?

Fui apresentada ao Socratic  da Google. Minha colega estava encantada com a ajuda que esse aplicativo oferece aos estudantes. Baixei o Socratic para ver qual seria a minha impressão.

O funcionamento é simples: o aplicativo permite fotografar uma pergunta ou fazê-la em voz alta, clica-se em “pesquisar”  e ele fornece a resposta quase imediatamente. Pode lidar com conteúdos de Álgebra, Geometria, Trigonometria, Biologia, Química, Física, História e Literatura. Realmente essa parte — isto é, a constatação do desenvolvimento tecnológico acessível num num aparelho de celular —  encanta.

Fiz a primeira tentativa de teste com um exercício de Álgebra. A resposta veio como uma linda cola. Uma cola bem explicadinha. Ainda apareceu um “100” sobre a tela final. O segundo teste foi um pedido de demonstração matemática. O aplicativo jogou-me para uma pesquisa no próprio Google.

Tentei questões de uma prova minha antiga, dissertativa. O resultado não pareceu muito diferente de uma pesquisa no Google com uma palavra chave. Alguém reclamava na internet de que o aplicativo não dava respostas para  questão que contivesse texto.

A vantagem apresentada — a resposta de um problema e como se chegou a ela — pode ser uma ferramenta interessante para um bom aluno ou para um autodidata que se vê diante de um obstáculo que não consegue ultrapassar. A mesma vantagem pode ter um lado negativo: um aluno que recebe uma tarefa para casa pode tornar o aplicativo um recurso para copiar respostas. Nesta situação o aplicativo se torna uma versão sofisticada dos livros didáticos que trazem as respostas dos exercícios lá nas páginas finais.

Banca com participação por videoconferência: como fica a ata?

A UFRJ  publicou este mes de novembro uma resolução que permite àquele que preside uma banca examinadora de mestrado ou de doutorado assinar a ata da defesa pelo membro ou membros da banca cuja participação tenha sido por videoconferência, dispondo que

O presidente da banca poderá assinar a ata da defesa em nome dos membros da banca que participarem por videoconferência. Neste caso, a ata deve mencionar sua participação por videoconferência ao lado do nome do membro da banca.

Essa e outras alterações estão na Resolução CEPG nº 03/2019, de 01 de novembro de 2019.

Apresentei um pôster (snif, snif?)

Depois da emoção de explicar o trabalho para gente que se mostrou interessada por ele num encontro acadêmico na área, o pôster pode ir para o cv-lattes. Pode ser colocado em “Apresentação de trabalho”, mas … ops! Não tem nada para pôster no lattes! Sobra um mísero “Outra” para incluir essa produção.

Ao desencantamento com o lattes se junta a inacessibilidade do trabalho que se segue à participação no evento. Então quem não foi ao congresso ou perdeu o dia do pôster não vai poder ver aquele trabalho tão legal que custou tão caro por causa da plotagem?

Existe uma possibilidade que vem sendo pouco explorada: fazer uma versão digital com resumo e palavras chaves e solicitar sua inclusão no repositório institucional. Na UFRJ esse repositório é o Pantheon. Num  mundo cada vez mais digital não faz sentido deixar um trabalho ser acessível por apenas um dia. Afinal, se era para esconder o trabalho não se faria uma apresentação num congresso.

UFRJ/Departamento de Linguística e Filologia – Monitoria-2020

Departamento de Linguística e Filologia – Seleção para a Monitoria-2020 : 


Inscrições online:de 13 de novembro a 06 de dezembro de 2019
 bit.ly/monitoriadlf2020
Prova:
10 de dezembro de 2019, de 14h às 16h 
Auditórios E-2 e E-3 da Faculdade de Letras
 

Mais informações: https://lefufrj.wordpress.com/2019/11/13/selecao-para-monitores-do-departamento-de-linguistica-e-filologia-ano-2020/

 

Imagem: A jaqueira em frente ao Dept. de Linguística e Filologia
Autor: Maria Carlota Rosa, em 31Out2019

 

Lattes e ORCID

Em 2016 a plataforma para preenchimento do currículo Lattes passou a permitir a inclusão da identificação ORCID/ Open Researcher Identifier (Identificador Aberto para Pesquisadores), embora a inclusão do número na página do Lattes não remetesse para a página no ORCID.

Em maio de 2018 a inclusão desse identificador no Lattes se tornou impossível: não se conseguia validar o número e surgia a mensagem “Não foi possível verificar o identificador ORCID. Tente mais tarde” .

Agora é novamente possível fazer a inclusão do identificador e, ao clicar nele, abre-se a página de autor no ORCID. Para conseguir essa ligação:

  1. Fazer um registo  ORCID: https://orcid.org/register.
  2. Entrar na página da Plataforma Lattes do CNPq: http://lattes.cnpq.br/;
  3. Entrar em “Atualizar currículo”;
  4. Entrar em “Dados Gerais”/”Identificação”/ “Outros Identificadores” e inserir o número.

 

 

Em 2020-1

 

 

30 anos depois da publicação de Linguística Cartesiana, Chomsky explicava na USP que havia dois modos de entender o título da obra, desse modo ainda ecoando a repercussão negativa de parte da crítica. A publicação de Linguística Cartesiana fomentou, porém, o debate acerca de o que entender por Historiografia da Linguística. Esse será o tema da minha disciplina LEF856 (Doutorado) O que é Historiografia da Linguística? Em torno da “Linguística Cartesiana”  no primeiro semestre de 2020.

Com acesso aberto, estabilidade, revisão por pares e sem APCs: os “wiki-periódicos”

Imagem: 
File:WikiJournal of Science publishing pipeline (wiki first).svg  
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:WikiJournal_of_Science_publishing_pipeline_(wiki_first).svg

Sério: eu não sabia o que era “wiki”, embora soubesse da Wikipedia e da Wikicommons.  Na verdade nunca tinha pensado em “wiki” como algo diferente de uma marca, algo já registrado como propriedade intelectual. A Wikileaks atrapalhava esse entendimento, mas … Até que ontem me deparei com os wikijournals.

Afinal, que é ‘wiki’?

Dei um Google (ou teria googlado?) e encontrei a resposta num artigo de Sérgio Rodrigues publicado na revista  Veja em 2012:

No mundo da computação, wiki passou a ser usado como nome genérico de websites colaborativos, ou seja, aqueles cujo conteúdo pode ser modificado pelo usuário. O termo foi criado em 1994 pelo programador americano Ward Cunningham, que desenvolveu o primeiro software wiki e o batizou de WikiWikiWeb. Note-se que as iniciais dialogam com o www de world wide web (rede mundial de computadores), mas Cunningham garante que sua inspiração foi mais prosaica: limitou-se a copiar o nome dos ônibus expressos do aeroporto de Honolulu, Wiki-Wiki, uma expressão regional havaiana que significa “rapidinho”. 

Depois descobri um longo artigo “Wiki” na própria Wikipedia, com um enorme histórico de modificações desde 2003.

Os periódicos wiki

Os períódicos wiki surgem em integração com a Wikipedia com o objetivo explícito de aumentar “the accuracy of the encyclopedia, and rewards authors with citable, indexed publications with much greater reach than traditional scholarly publishing”  (WikiJournal User Group). No momento há quatro títulos: WikiJournal of Humanities;  WikiJournal of Medicine; WikiJournal of Science; WikiJournal Preprints

Wikigroup

A imagem em destaque é de  Mikael Häggström 
(Own work, based on:From Pixabay, Public Domain.,CC BY 4.0, 
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=49038393. 
Está descrita como "a lightbulb, symbolizing the creation of ideas 
latitude and longitude stripes around the lightbulb, 
symbolizing a global scope".

Um exemplo extraído do periódico voltado para a área de Humanas é o longo artigo  A grammatical overview of Yolmo (Tibeto-Burman), em que  Lauren Gawne (Dept, de Línguas e Linguística, Universidade La Trobe, Austrália) é o autor (mas  o  et alii nos lembra que o material é, por definição, colaborativo). Pode ser lido no formato já conhecido do material da Wikipedia ou em pdf.

A iniciativa é mais um passo na integração da Wikipedia com a educação. Uma visão de como essa  integração já ganhou terreno de 2001 a 2016 pode ser lida em 15 years of Wikipedia and education.


 

 

 

 

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No Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, palestra “Direitos Autorais, Pesquisa e Inovação”

 

Direitos Autorais, Pesquisa e Inovação 
com o Prof. Sean Flynn, 
da American University Washington College of Law
Data:  1 de novembro de 2019, sexta-feira, às 15h 
Local: Colégio Brasileiro de Altos Estudos/CBAE-UFRJ 
Av. Rui Barbosa, 762 - Flamengo

http://cbae.ufrj.br/index.php/eventos/proximos-eventos/236-20191101

“Os Tratados Internacionais de Direitos Autorais criam um conjunto de padrões obrigatórios que estão sujeitos a limitações e exceções para permitir diversos usos essenciais à pesquisa e educação, bem como para criar um ambiente de inovação sustentável. As ferramentas modernas de pesquisa de mineração de textos e dados apresentam oportunidades para expandir radicalmente o que podemos saber sobre o mundo ao nosso redor. Mas o uso destas tecnologias permanece ilegal sob as regras de direitos autorais em vigor em grande parte do mundo atualmente.

O Professor Sean Flynn abordará as oportunidades e desafios de reformar a Lei de Direitos Autorais para permitir as promessas da pesquisa digital hoje. Sua apresentação incluirá o exame do potencial de reforma do sistema internacional de direitos autorais para reconhecer um conjunto de direitos de acesso ao conhecimento e à informação, incluindo direitos de uso de materiais protegidos por direitos autorais para pesquisa, educação, preservação cultural por bibliotecas, museus e arquivos, bem como para a promoção da inovação.

A mediação será feita pelo Prof. Dr. Allan Rocha de Souza (PPED/UFRJ – UFRRJ/ITR – INCT Proprietas).

O evento é aberto ao público e não necessita de inscrição prévia.

Endereço: Av. Rui Barbosa, 762 – Flamengo”

 

Sobre livros, bibliotecas e usuários

Um colega chamou minha atenção para um artigo publicado este ano no jornal The Atlantic, com o título The Books of College Libraries Are Turning Into Wallpaperque apontava para o declínio da consulta e empréstimo de livros nas bibliotecas universitárias.  Segundo o artigo, para a última década, os números em Yale viram uma queda de 64%; na também prestigiosa Universidade da Virgínia no ano letivo 2007-2008 os estudantes de graduação consultaram 238 mil livros; em 2017-2018, 60 mil.

Os dados para as 45 bibliotecas da UFRJ estão abertos  para um período de tempo bem menor: 2017 e 2018. No tocante à Biblioteca José de Alencar da Faculdade de Letras, eles demonstram que  o movimento diminuiu não apenas para a graduação: em 2017, o movimento da biblioteca foi de 93.548 usuários; no ano seguinte de 2018, foi de 79.945. Mas a consulta e empréstimo de obras monográficas aumentou no período de 17.346 para 18.289, apesar de a biblioteca ter perdido quase 2000 m2 da sua área original e, no período, sua única cabine de estudos.

Ninguém  mais lê na graduação e na pós-graduação? Bom, muita coisa vem mudando, em especial nos últimos 50 anos. Em primeiro lugar, (basta comparar as referências — o tipo e a quantidade — para cada trabalho publicado, como assinalou Van Noorden para as Ciências Sociais) a ênfase nos artigos científicos mudou o foco dos usuários — da biblioteca para o Portal de Periódicos. Além disso, restrições orçamentárias severas têm depauperado o acervo das bibliotecas universitárias brasileiras de impressos e não impressos e dificultado melhorias no espaço físico, que, por sua vez, também acabam por afetar o acervo.


 

Cohen, Dan. 2019.  The Books of College Libraries Are Turning Into Wallpaper. The Atlantic, 26Maio2019. https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2019/05/college-students-arent-checking-out-books/590305/

UFRJ/SiBI – Sistema de Bibliotecas e Informação. Panorama. http://www.sibi.ufrj.br/index.php

Van Noorden, Richard. 2017.  The science that’s never been cited. Nature Briefing, 13Dez2017. https://www.nature.com/articles/d41586-017-08404-0

 

 

 

Chegou o dia da defesa

As horas que antecedem a defesa da dissertação ou da tese são um misto de emoções, da alegria à ansiedade. Em geral tudo termina bem, mas vale a pena ter atenção a alguns detalhes.

  • A defesa é uma situação muito formal.

Pode-se medir a formalidade da situação pelo tempo de preparação para aquele momento e pela papelada para sua realização. Até tem ata!

Em algumas universidades de muitos séculos a formalidade chega ao vestuário, com normas sobre a vestimenta específica para esse ato: quem pode usar veste talar, beca, cinto, traje passeio… No Brasil não há normas determinando um vestuário específico. Em geral, a banca e o candidato ao grau estão um pouco mais arrumadinhos que nas aulas.

"Um pouco mais arrumadinhos" significa que não importa 
que neste Rio de Janeiro esteja a 43°: não é hora para shortinhos, 
bermudas, chinelos, camisa aberta. Não vai dar para mostrar 
a tatuagem? Certamente ninguém está lá por causa dela.
Nem é hora para aquele minivestido drapeado matador 
que ficou lindo (deixe esse para a comemoração).
  • Demonstre cortesia com a banca.

A banca precisa de tempo hábil para ler o trabalho. O exemplar da tese deve chegar a cada membro da banca, suplentes incluídos, cerca de um mes antes da defesa.

Apenas o exemplar, sem lembrancinhas que, certamente, 
causarão constrangimento e podem vir a ser mal interpretadas. 
  • A defesa é pública.

Em geral, respondem  à divulgação do evento com a presença outros pesquisadores do mesmo tema e colegas de pesquisa. Podem também assistir à defesa familiares e amigos. 

Na UFRJ a defesa fechada ao público, com cláusula de 
confidencialidade e sigilo é excepcional, 
podendo ser autorizada "mediante solicitação do orientador, 
acompanhada do acordo de todos os membros da banca, 
com aprovação da comissão deliberativa 
do programa de pós-graduação, 
da comissão de pós-graduação e pesquisa, se houver, 
da congregação ou colegiado equivalente 
e do conselho de coordenação do Centro Universitário" 
(Resolução CEPG 01/2006, Art. 56, par. único).
  • Não se atrase.

Chegue bem antes da hora marcada. Use o tempo para confirmar se a sala está liberada, se a aparelhagem está funcionando (em especial se parte dos membros participar  da banca por videoconferência). E para não ficar mais nervoso ainda.

  • Durante a espera…

À medida em que os membros da banca forem chegando, cumprimente cada um, mas nesse momento nenhum deles é “coleguinha”.

Certamente nenhum deles é parente do candidato.
Nem sócio. Nem qualquer membro da banca 
pode ser parente do orientador. Conflitos de interesse
não são bem vistos.

Nem pensar em distribuir presentes para a banca antes da defesa (na verdade, nem depois).

  • É indispensável ter em mãos uma cópia da dissertação ou tese durante a defesa.

Ela será necessária para responder à arguição e para anotar as passagens do texto que merecerem reparos da banca.

  • Vai começar. Celular desligado.

Atenção ao que está sendo dito. No correr da defesa  não confira se há novas mensagens no celular, nem tente postar selfies

  • E começou!

Em geral a defesa tem início com o presidente da banca (que pode ser o Orientador ou não — depende do regimento de programa de pós-graduação) dando início aos trabalhos. Nesse introito há a  apresentação dos componentes da banca, os agradecimentos a eles por terem aceitado participar da defesa e agradecimentos à presença dos demais.

Finda essa abertura, o presidente da banca passa a palavra ao candidato ao grau de mestre ou doutor para que faça uma apresentação do trabalho. A  duração dessa apresentação (e até se deve ou não haver uma apresentação) é estipulada pelas normas do programa de pós-graduação.

Terminada a apresentação, tem início a arguição. Cabe ao presidente da banca decidir a ordem dos arguidores. O arguidor escolhe se quer respostas a cada pergunta ou todas ao final das perguntas.

  • Quem pode ter uso da palavra.

No Brasil e em muitos países apenas a banca e o candidato têm direito à palavra, que  é concedida pelo presidente da banca. Os demais presentes, mesmo que especialistas na área, assistem em silêncio e não podem interromper a defesa. 

O candidato tem de deixar isso claro para seus convidados. 
O candidato está numa avaliação e não pode 
ter de se preocupar com o comportamento de outras pessoas.
Imagine que um convidado se levanta e começa a cantar  
em homenagem ao parente/amigo (posso garantir que é esquisito
para todos os presentes, mas, para o candidato é de perder o chão); 
ou pior: que um convidado resolve destratar os arguidores, 
porque demonstraram que não gostaram do trabalho. 

  • E acabou!

Após a leitura da ata pelo presidente com o resultado final, cumprimente todos os membros da banca e não saia para a comemoração antes de assinar todos os documentos necessários.

A regulamentação geral da UFRJ sobre a pós-graduação 
está na Resolução CEPG nº 01/2006. 
A Resolução CEPG nº 02/2015 introduziu a possibilidade 
de participação por videoconferência, mas com restrições.

Sugiro a leitura dos seguintes textos:

Enago Academy. 2019. Como Defender uma Dissertação/Tese. 16Jul2019. https://www.enago.com.br/academy/defender-dissertacao-tese/

Sgarbi, Adrian. 2013. O que não fazer em sua defesa de dissertação ou tesehttp://pesquisatec.com/new-blog/2013/9/2/o-que-no-fazer-em-sua-defesa-de-dissertao-ou-tese

Apresentando um trabalho num encontro da área

 

Trabalho aceito, tudo arrumado… E a apresentação? Se for a primeira vez nessa situação,  o nervosismo é a norma. Como não estragar tudo?  Algumas sugestões.

1.  Mantenha-se dentro do tempo estipulado para a apresentação. 20 minutos são 20 minutos, não meia hora. Nem pensar em pedir mais uns minutinhos ao coordenador da mesa para focalizar um importantíssimo ponto do trabalho. Para o coordenador da mesa, permitir tempos desiguais para os participantes criaria justificado mal-estar; para a organização do encontro,  um atraso numa sessão é uma dor de cabeça em cadeia.

2. O computador e o programa PowerPoint são aliados nessa hora. Ou não. Vejamos:

  • já pensou que o sistema operacional pode ser outro? Que o PowerPoint desconfigura no Linux? Uma segunda versão, em pdf, por exemplo, pode ajudar numa hora dessas;
  • não há necessidade de ilustrar os slides; caso isso seja feito, certifique-se de que não existem direitos sobre as imagens utilizadas;
  • tenha certeza de que está com  a versão correta do trabalho; de que,  perante uma plateia, não terá de vasculhar todas as pastas do computador ou do pendrive para descobrir onde ficou a versão revisada para a apresentação;
  • se precisar de reprodução sonora, contacte a organização do evento com antecedência sobre a disponibilidade de caixas de som e programas compatíveis;
  • não use fontes menores que 28: são ilegíveis para a plateia;
  • se tem tempo para comentar 10 slides,  não faça uma apresentação com um montão de  slides a mais, que serão pulados: vai parecer que não se preparou para o evento e que está aproveitando um trabalho antigo;
  • prepare-se para uma eventual falta de luz ou pane de equipamento: a sessão pode não ser cancelada apesar disso.

3. Se tiver de pegar avião (pior: com conexões), ônibus, navio, leve o trabalho na bolsa de mão, com cópia em nuvem, no email …

4. Se houver perguntas, honestidade nas respostas: em princípio, todos na plateia são especialistas na área e tentar enrolar essa turma não é boa ideia.

5. E se alguém for grosseiro no questionamento do trabalho? Você não será o único a testemunhar a grosseria. Não desça do salto nessa hora; afinal, quem está assistindo às apresentações gastou dinheiro e tempo e estava ali pelo seu trabalho e pelo trabalho de todos na sessão e não para uma sessão de mal-estar. Pense neles, respire fundo e responda ao malcriado educadamente. Certamente o coordenador da mesa terá de intervir se a agressividade do participante continuar a interromper o trabalho.

6. Nossas tomadas brasileiras de três pinos não são usadas no resto do mundo. Se o encontro for fora do país, não esqueça de adaptadores.

 

Um prêmio estranho

 

IMAGEM 
"TROPHY DESIGN" by PROTOTYPUM, 
Martin Žampach is licensed under CC BY-NC-ND 4.0

 

A  Publons (agora da Clarivate Analytics) mais uma vez promoveu o Global Peer Review Awards, anunciado na Peer Review Week deste ano, que teve lugar entre 16 e 20 de setembro.  Em  2019 o prêmio contou com três categorias: os pareceristas top-10 , os pareceres de excelência e uma categoria para editores.

A Publons, cuja missão declarada é “speed up science by harnessing the power of peer review“, vem assumindo o papel de treinar a produção de pareceres e ajudar a indústria de publicações acadêmicas a encontrar nomes para atuarem como pareceristas (ver Crotty, 2018).

    O nome numa lista e …

    Em meio a muita discussão sobre o trabalho gratuito de pessoal altamente especializado  em prol de revistas científicas que cobram taxas muito caras dos autores para a publicação em acesso aberto e/ou de assinaturas também de preço elevado, publicadas por editoras cujos lucros andam na casa dos 40% — diferentemente da crise do mercado livreiro — não há como não se perguntar se esse prêmio é valorização suficiente para aquele que deixou de lado seu próprio trabalho e contribuiu de graça para uma indústria bilionária (em dólares ou euros); nem se esse prêmio não seria o equivalente da estrelinha que se ganhava na escola quando criança: confere algum status num pequeno círculo.

    Embora se diga que escrever pareceres sobre artigos acadêmicos submetidos a revistas científicas é parte do trabalho acadêmico, essa não é uma das cláusulas de qualquer contrato de trabalho como professor ou pesquisador (ver Watson, 2017).

    Trabalho necessário, mas que conta pouco para quem o faz

    Ninguém nega a importância do trabalho dos pareceristas. A divulgação do trabalho científico, no mundo atual ligada à avaliação por pares, é importante para a Ciência e igualmente importante nos processos formais de avaliação de professores e pesquisadores. Escrever pareceres é, porém, trabalho voluntário, certamente não prioritário na lista de afazeres.

    Agora, se esse trabalho é tão importante, se uma revista cobra alguns milhares de dólares do autor para publicar seu artigo por conta dos custos que alega ter com o preparo do manuscrito para a publicação, por que o par (ou trio) de pareceristas que recomendaram (ou não) a publicação não pode ser remunerado?

    Pode-se argumentar  que esse profissional terá seu nome listado como parecerista de uma revista de luxo. Mas, pensando bem: se um pesquisador concorre a uma vaga de professor ou pesquisador , ter uma enorme lista de pareceres  ou não incluir essa parte no lattes vai fazer diferença? Ter escrito críticas a trabalhos alheios, como notou Crotty (2018), impressiona mais uma banca que a qualidade do próprio trabalho? Por outro lado, para a revista ter um profissional renomado listado entre seus pareceristas é relevante.

    E as revistas em acesso aberto que não cobram taxas dos autores,
    caso da quase totalidade das revistas nacionais no Qualis? 
    Não são periódicos predatórios; têm papel importantíssimo na
    divulgação das pesquisas no país; 
    solicitam pareceres dentro de prazos razoáveis. 
    Atender ao convite de um desses periódicos para emitir um parecer
    continua sendo trabalho voluntário, não prioritário, 
    mas essas publicações, que não visam lucro e lutam para se manterem,
    merecem a colaboração, ainda que não remunerada,
    de todos nós.

     


     

    Crotty, David. 2018. Credit for Peer Review: What is it Worth? The Scholarly Kitchen, 18Out2018. https://scholarlykitchen.sspnet.org/2018/10/18/credit-for-peer-review-what-exactly-does-that-mean/

    Watson, Mick (@Biomickwatson). 2017. Let’s keep saying it, and say it louder: REVIEWERS ARE UNPAID. Opiniomics, 23Agos2017. http://www.opiniomics.org/lets-keep-saying-it-and-say-it-louder-reviewers-are-unpaid/

    A Revista da ABRALIN adota a taxonomia CRediT/Contributor Roles Taxonomy (Taxonomia das Funções do Colaborador)

    Em agosto de 2018 informávamos da adoção da taxonomia CRediT pela Scielo (Quem é o autor do trabalho afinal? Decisões sobre coautoria). Não obstante o número de autores por artigo em Linguística no Brasil estar, em geral,  em torno de dois ou três e de algumas revistas da área ainda trazerem instruções que remetem ao autor único, agora é a vez da revista da ABRALIN/ Associação Brasileira de Linguística adotar o CRediT .

    Os trabalhos com mais de um autor submetidos à Revista da ABRALIN deverão indicar a atribuição dos seguintes papeis:  Conceptualização –  Curadoria de Dados –  Análise Formal – Aquisição de Financiamento – Investigação – Metodologia –  Administração do Projeto –  Recursos – Software –  Supervisão –   Validação –   Visualização –  Escrita –  Escrita 

    Sai o autor, entra em cena o colaborador

    Como recentemente apontou Alex Holcombe, a atribuição de autoria em muitos periódicos leva em conta a definição de autor do ICMJE/ International Committee of Medical Journal Editors que não tem lugar para muitos tipos de colaboração necessários ao desenvolvimento de pesquisas.

    No caso da Revista da ABRALIN, a inovação no estabelecimento da autoria/colaboração vem juntar-se à revisão por pares aberta, anunciada recentemente e os dados abertos. Será muito interessante, portanto, acompanhar a implantação desse modelo na área da Linguística brasileira.

     

    Informações: http://www.abralin.org/circulares/rabralin/CRediT.pdf

    Holcombe, Alex. 2019. Farewell authors, hello contributors. Nature 571, 147 (05Jul2019)  https://www.nature.com/articles/d41586-019-02084-8

     

    As citações por outro ângulo: o da ética

    Imagem "Citation_needed" by Dawihi 
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    A construção de indicadores quantitativos tem traduzido para as agências de fomento e as instituições de ensino a importância do pesquisador e do periódico em que trabalhos são publicados e tornou-se talvez o principal pilar para promoções na carreira e solicitações de diversos tipos de auxílios.

    Nesse cenário de métodos bibliométricos, as tentativas de manipulação de indicadores começaram a se tornar fonte de preocupação. E levaram o COPE/ Committee on Publication Ethics a divulgar recentemente um documento que aponta práticas condenáveis relativas às citações (COPE, 2019). A preocupação também está presente na seção sobre Editor Roles and Responsibilities  do livro branco do Council of Science Editors, atualizado em 2018.  Em outras palavras: chama-se a atenção para o mau uso de citações.

    Se parte do problema seria quer de iniciativa dos autores — a autocitação que tem por objetivo inflacionar o número de citações do próprio trabalho ou a troca de citações (ing. citation swapping) entre colegas — quer da iniciativa de pareceristas que solicitam a inclusão de citações de seus trabalhos, outras práticas estão ligadas à editoria de periódicos. Por exemplo,  no nível do periódico, a autocitação transforma-se em citação coercitiva (ing. coercive citation): a demanda da editoria do periódico aos autores (particularmente se no início da carreira) para que façam a inclusão de citações de trabalhos publicados naquela mesma revista a fim de que o texto submetido tenha mais chances de ser aceito. As citações solicitadas são desnecessárias e sequer  se indica para os autores da submissão que deficiências seria necessário rever lançando mão de textos (quais?) anteriormente publicados no periódico que está recebendo a submissão.

    A citação honorária envolve a citação excessiva e desnecessária de nomes notáveis na área — como o editor da revista, por exemplo.

    O empilhamento de citações (ing. citation stacking) diz respeito a um acordo entre editores de diferentes periódicos para que os textos publicados em cada um deles reúnam citações dos demais periódicos desse grupo.

    Vale a pena participar desses esquemas?

    Em outras palavras: deixar de lado a integridade na vida acadêmica ajuda o pesquisador ou editores? Certamente não e isto vale para qualquer momento da carreira.

    Há seis anos atrás, em 2013, a empresa que detinha o Journal Citation Reports (JCR) acusou a prática de empilhamento de citações em quatro periódicos médicos brasileiros de longa tradição no país (Clinics, Jornal Brasileiro de Pneumologia, Revista da Associação Médica Brasileira Acta Ortopédica Brasileira) que haviam demonstrado grande melhora bibliométrica e os suspendeu do JCR por um ano. Todos os editores à época se defenderam da acusação, com argumentos sobre o cenário brasileiro de publicações nessa área específica e a necessidade de tornar os periódicos brasileiros mais atrativos. A biblioteca SciELO Brasil, de que os quatro periódicos fazem parte, determinou a retratação dos artigos em que os números revelados podiam ser interpretados como envolvimento nessa prática; já a CAPES/Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior levou a punição para além dos editores e autores retratados: nenhum dos artigos publicados nesses periódicos entre 2010 e 2012 foi contabilizado na avaliação trienal da pós-graduação de 2013 (van Noorden, 2013), retirados todos do Qualis (FAPESP, 2013). Artigos já aceitos para a publicação foram retirados a pedido de seus autores.

     Although such behavior may result in a short-term gain, the strategy may not work in the long term (CSE, 2018: 13)

     


     

    COPE – Committee on Publication Ethics. 2019. Citation Manipulation. COPE Discussion Document, Version 1: July 2019. https://publicationethics.org/files/COPE_DD_A4_Citation_Manipulation_Jul19_SCREEN_AW2.pdf 

    CSE-Council of Scientific Editors/ Editorial Policy Committee. 2018. CSE’s White Paper on Promoting Integrity in Scientific Journal Publications. https://www.councilscienceeditors.org/resource-library/editorial-policies/white-paper-on-publication-ethics/

    FAPESP.  2013. Punição para citações combinadas.  Revista Pesquisa FAPESP, 213. Nov.2013. https://revistapesquisa.fapesp.br/2013/11/18/punicao-para-citacoes-combinadas/

    Fong, Eric A. & Wilhite,  Allen W. 2017. Authorship and citation manipulation in academic research. PLoS ONE, 12(12): e0187394.  https://doi.org/10.1371/journal.pone.0187394

    Sampaio, Rafael. 2013. Índice internacional suspende revistas científicas brasileiras. G1/ Ciência e Saúde, 30Ago2013. http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2013/08/indice-internacional-suspende-revistas-cientificas-brasileiras.html

    University of Alabama in Huntsville. 2012. Research ethics: Coercive citation in academic publishing.  ScienceDaily, 2 February 2012. www.sciencedaily.com/releases/2012/02/120202164817.htm 

    Van Noorden, Richard. 2013. Brazilian citation scheme outed. Nature 500: 510-511. http://www.nature.com/polopoly_fs/1.13604!/menu/main/topColumns/topLeftColumn/pdf/500510a.pdf 

     

    CONCURSO PARA DESENVOLVIMENTO DE MARCA INSTITUCIONAL PARA O CENTRO DE LETRAS E ARTES | CLA

    O CLA/ Centro de Letras e Artes, instância da  Universidade Federal do Rio de Janeiro que reúne quatro Unidades — a Faculdade de Letras, a Escola de Música, a Faculdade de Arquitetura  e Urbanismo e a Escola de Belas Artes — lança um concurso para uma nova marca institucional do CLA.

    Podem concorrer os estudantes regularmente matriculados nos cursos de graduação ou de pós-graduação das unidades componentes do CLA. Inscrições até 25/10/2019.

    Para os interessados, o edital Edital Logo CLA

    E se esse texto nunca foi citado?

    É uma anedota na vida acadêmica  que um texto não citado é um episódio de fracasso. Ninguém leu? Não despertou interesse? Irrelevante, então. (Tem-se aqui em conta a citação feita por outros pesquisadores, de outros grupos de pesquisa, não a autocitação). Mais ou menos a mesma sensação que sentimos quando o livro que consultamos na biblioteca tem a ficha em branco. Bom, a foto que ilustra este texto é um indício de que essa visão é um tanto simplista.

    Num mundo em que as citações são contabilizadas e lançadas no curriculum vitae, em que pontuam os pedidos de progressão ou promoção é previsível que todos os pesquisadores queiram um índice-h igual a 18 — e reconhecimento em vida.  Mas isto não equivale a dizer que se um texto não recebeu citações ao longo de cinco,  dez anos é porque é trabalho sem valor.

    O impacto de  um trabalho durante o tempo de vida do autor pode enfrentar dificuldades completamente alheias à qualidade — problemas que vão da censura à língua em que um texto foi escrito.

     

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    Van NOORDEN, Richard. 2017.  The science that’s never been cited. Nature Briefing, 13Dez2017. https://www.nature.com/articles/d41586-017-08404-0

    Citações e referências: posso citar a mim mesm@?

    Eu ainda estava no Doutorado e numa conversa com o saudoso Carlos Franchi (1932-2001) no prédio da Praia Vermelha — onde tínhamos assistido a uma palestra do também saudoso Fernando Tarallo (1951-1992) —  ouvi do Prof. Franchi que não citava trabalhos dele mesmo. Aquela conversa ficaria na minha memória, junto com as palavras de Rodolfo Ilari na homenagem póstuma ao amigo: “a vontade de pesquisar com humildade” (Ilari, 2002: 87).

    Tornei a lembrar-me dessa conversa por estes dias: um estudo sobre um corpus de 100 mil pesquisadores muito citados mostrava que 250 deles, em pelo menos 50% das vezes em que foram citados, haviam citado a si ou recebido citação de seus co-autores; em alguns dos casos, em 94% das citações.

    Os tempos mudaram desde aquela conversa. Um pesquisador como o Prof. Franchi, cuja produção foi “altamente informal, tendo preferido a exposição em seminário ao impresso, e o working paper ao livro” (Ilari, 2002: 85), hoje seria forçado não só a publicar mais (o que nos faz lembrar da anedota de que Saussure atualmente não conseguiria lugar num programa de pós-graduação em Linguística porque não publicava — a respeito desse saussureano “horreur d’écrire”, ver Piller, 2013, texto já mencionado neste blogue), mas também a demonstrar o impacto de sua pesquisa pela contabilização de referências, de quantificação mais fácil que o respeito acadêmico e a influência sobre  alunos e colegas.

    Ao  longo das últimas décadas aumentou o número de grupos de pesquisa e, em paralelo, houve aumento no número de trabalhos referidos num artigo, não importa de que área. Nas Ciências Sociais, por exemplo, se na década de 1960 o número médio de citações por trabalho estava um pouco abaixo de 10 títulos, em 2015 a média já chegava a 50 (Van Noorden, 2017). Em 2005 surgia o índice-h, uma medida do impacto das pesquisas que toma por base as citações. E assim as citações entraram no cv Lattes, passaram a pontuar pedidos de progressão na vida acadêmica…

    Deixando de lado por enquanto os maus usos das auto-referências, em que situações citar/referir nosso próprio trabalho chega mesmo a ser necessário? Afinal, o mesmo estudo apontava 12,7 % como valor médio de auto-citações.

    Em primeiro lugar, em razão da continuidade da pesquisa: se estamos voltando a material que já publicamos — e, como aconselha o Prof. Ataliba de Castilho, especialmente se mudamos de ideia em relação a trabalho que publicamos no passado — temos de referir o que publicamos anteriormente. Em segundo lugar, se utilizamos material nosso anteriormente publicado, para evitar acusações de autoplágio (COPE, 2019,Legitimate Reasons for Self-Citation). Este segundo motivo era desconhecido até bem pouco tempo  e nem mesmo sua denominação era encontrada em português.

    Sobre autoplágio, neste blogue:
    Autoplágio ou reciclagem textual -1 
    Autoplágio ou reciclagem textual -2

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    COPE/ Committee on Publication Ethics. 2019. Citation Manipulation. COPE Discussion Document, Version 1: July 2019. https://publicationethics.org/files/COPE_DD_A4_Citation_Manipulation_Jul19_SCREEN_AW2.pdf

    Hirsch, J. E. 2005. An index to quantify an individual’s scientific research output.

    Ilari, Rodolfo. 2002. Humildade na pesquisa para construir o futuro. Revista do GEL/ Grupo de Estudos Linguísticos do Esta do de São Paulo. Número Especial.  “Em memória de Carlos Franchi (1932-2001), 2002, nº 0. São Paulo: Contexto. p. 83-87 https://revistas.gel.org.br/rg/article/download/178/154 

    Piller, Ingrid. 2013. Saussure, the procrastinator. Language on the Move, 30Out2013. https://www.languageonthemove.com/saussure-the-procrastinator/
    Van Noorden, Richard. 2017.  The science that’s never been cited. Nature Briefing, 13Dez2017. https://www.nature.com/articles/d41586-017-08404-0
    Van Noorden, Richard &  Chawla, Dalmeet Singh. 2019. Hundreds of extreme self-citing scientists revealed in new database. Nature Briefing, 19Ago2019

    https://www.nature.com/articles/d41586-019-02479-7

    Duas infrações à integridade acadêmica: cola e plágio

    O texto a seguir, de Roberto Imbuzeiro Oliveira, pesquisador titular do IMPA/ Instituto de Matemática Pura e Aplicada, foi publicado no blog “Ciência & Matemática“, de Claudio Landim, também do IMPA e Coordenador da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).

    O foco central é a cola, a cópia de respostas de outrem  durante um teste ou prova. No passado “outrem” (entidade que ocupa o lugar que deveria ser das fontes de pesquisa) era um colega de sala, um livro ou anotações com o conteúdo previsto para o exame; com o avanço da tecnologia, “outrem” pode agora ser um indivíduo bem longe do local da prova ou mesmo um site. Se ao invés de um teste ou prova temos um trabalho, o uso impróprio das fontes é tratado como plágio.

    Oliveira, baseado em autores como McCabe (2005), ressalta a difusão desses comportamentos entre os estudantes dos diferentes níveis de ensino. E a dificuldade para mudar essa atitude. Até porque, como defende McCabe, a busca de mudança tem de vir do envolvimento da instituição e dos estudantes. Ambos difíceis.


    Sobre a cola

    Roberto Imbuzeiro Oliveira  – Pesquisador titular do IMPA

    Segundo o psicanalista Luiz Alberto Py, o aluno que cola numa prova está angustiado por desconhecer a matéria. Essa opinião foi transcrita no Jornal O Globo de 17 de maio de 1990 em uma matéria que falava do suicídio de um aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro. Celestino José Rodrigues Neto, de 14 anos, fora pego com um livro aberto numa prova de Geografia. Sua mãe foi chamada pelo colégio e ouviu pelos autofalantes da escola o nome de seu filho e sua punição pela transgressão. O menino não se perdoou pela humilhação da mãe e tirou sua própria vida.

    No chutômetro, diria que pelo menos 25% dos meus colegas de Ensino Fundamental e Médio colava regularmente. O número dos que colaram pelo menos uma vez por ano certamente era maior que 40%. Em geral, isso não era fruto de desespero: no máximo, o aluno sentia uma aflição mixuruca pensando na mãe braba com o boletim. Mesmo quem não colava, como eu, achava aquilo tudo natural e até engraçado.

    (Parêntese em nome da honestidade: eu nunca colei, mas dei cola em algumas ocasiões. Devo ter subido no conceito dos meus amigos com isso, mas fico triste em pensar que algum professor meu pode estar lendo isto aqui.)

    Na faculdade, as matérias ficaram mais difíceis e a cola, mais sofisticada. Meus colegas de turma eram excelentes alunos e quase todos estudavam bastante. Ainda assim, alguns trocavam informações durante os exames. Era como se fizessem a prova juntos! Alunos menos bons também colavam e plagiavam trabalhos. Inclusive, tirei zero num trabalho que um colega roubou da porta da sala do professor, copiou e devolveu pro lugar.

    De repente, eu me vi vítima da cola e do plágio alheios. O jogo era mais sério: todo mundo ali era maior de idade e a expectativa era que uma boa performance naqueles cursos renderia oportunidades futuras. Havia gente que, sem vergonha aparente, conseguia um “up” no histórico com base na malandragem.

    Do momento que eu fui prejudicado, deixei de achar a cola algo maroto e divertido. Daí para eu rever minhas ideias foi um pulo. A cola, o plágio e seus congêneres são, sim, trapaças e mentiras. É obrigação do estudante prezar pela própria formação e ter respeito pelos professores. Poucas coisas irritam tanto quanto descobrir a desonestidade de um aluno, mesmo que não seja meu. O caso do Colégio Militar continuou parecendo absurdo, mas, ao mesmo tempo, deixei de achar graça de quem colava.

    O problema no Brasil e no mundo

    Por alguns anos, minha descoberta me deu pretexto para falar mal daquele tipo chamado “o brasileiro,” aquele cara de quem, paradoxalmente, todo brasileiro fala. “O brasileiro” joga lixo no chão, fura a fila, suborna o guarda de trânsito e vaia o hino nacional alheio. Na certa “o brasileiro” também cola na escola e não acha nada demais dos filhos seguirem a tradição. Resolvi que era isso mesmo: nossa cultura ancestral de levar vantagem em tudo era a responsável por tantas trapaças.

    Infelizmente, não era só isso mesmo. Pode até ser verdade que há um “tabu” maior com relação a cola e plágio em outros países. Ainda assim, as trapaças também são bastante difundidas no resto do mundo.

    Há uma literatura acadêmica especializada nesse assunto. Donald McCabe, dos Estados Unidos, passou a vida estudando este tema. Sua conclusão é que a cola e o plágio são bem difundidos nos EUA e no Canadá, e os alunos não veem nada muito grave nisso [1]. Outros trabalhos corroboram esses estudos em outros países. Até um lugar como Cingapura, draconiano no combate ao chiclete, tem problemas parecidos no mundo dos alunos [2].

    Esse quadro global quase faz com que eu me sinta o alienista de Machado de Assis: de repente sou eu que estou doido. Não cheguei a esse ponto, mas observo que a linha de trabalhos descrita acima também se preocupa em estudar o porquê dos alunos colarem. Para além dos estudantes que acham que colar “tá de boa”, vê-se que há os que não se sentem acolhidos no ambiente acadêmico e os que sentem que os honestos ficam para trás [3]. Certamente há nisso um quê de angústia do doutor Py, mas, ao invés de virar um drama ou tragédia, ela se resolve num cálculo racional: muita gente cola e isso parece valer a pena.

    O que fazer a respeito?

    O quadro acima também sugere uma saída racional para as trapaças acadêmicas. Por um lado, o aluno tem de ser acolhido. Por outro, as falcatruas têm de valer menos a pena. Mas qual é a receita? Entre passar a mão na cabeça – o que parece errado –, dar zero em quem cola – que não parece adiantar – e o Colégio Militar do Rio – que, ao menos em 1992, chegava a ser cruel –, não é fácil decidir o que fazer.

    Como alguém que trabalha com saber e educação, meu sonho seria não alterar o comportamento dos alunos, mas sim seus sentimentos. Eu gostaria que cada aluno ouvisse da sua própria consciência que colar e plagiar é errado.

    Um ex-aluno meu que é professor disse que perdoaria mais facilmente um estudante que o esmurrasse do que aqueles que pega colando. Eu não chego a tanto, mas entendo esse sentimento. O nome dele é angústia e ele atinge também quem ensina e cria saber.

    Bônus: um “causo” esdrúxulo

    Como este texto está meio depressivo, parece boa ideia fechá-lo com uma história engraçada. Talvez eu ainda ache graça nisso de vez em quando.

    Eis o “causo”. Estava aplicando uma prova no IMPA. Na época não me preocupava em ficar em cima dos alunos 100% do tempo: era difícil imaginar pós-graduandos de um centro de elite colando. Por isso, como de costume, saí da sala e voltei várias vezes.

    Numa dessas saídas, acabei passando um bocado de tempo numa cabine do banheiro. De lá escutei uma pessoa chegar ao mictório e depois, outra. Depois dos barulhos esperados, os dois entabularam uma conversa:

    — E aí, cara? A prova tá difícil, né?

    — É.

    — Pois é, também achei.

    — É.

    Reconheci uma das vozes: era de um aluno fazendo a prova. A outra certamente era de outro estudante da mesma turma.

    Depois de uma pausa, voltou o papo.

    — As duas primeiras questões são fáceis, mas a 4 eu não sei…

    — É…

    Mais uma pausa — ou seria hesitação? — e o segundo aluno disse:

    — Na 4, o que você tem que pensar é o seguinte: …

    Caramba, dois mestrandos marmanjos estavam prestes a passar cola no banheiro!

    Pensei em esperar mais dois segundos, abrir a porta da cabine de repente e pegar os dois no flagra. Isso me causou um incômodo físico: era estranho eu fazer isso sem nem lavar as mãos. Além do mais, havia o incômodo moral: eu podia ser benevolente e impedir que o erro deles se consumasse. Foi o que resolvi fazer gritando com eles lá do “trono”:

    — OLHEM LÁ O QUE VOCÊS VÃO DIZER AÍ! O PROFESSOR TÁ ESCUTANDO VOCÊS!

    Muito se fala do poder da palavra; naquele dia, aprendi que a minha palavra tem o poder de desintegrar alunos espertos. Ou pelo menos foi o que pareceu, já que, depois de eu falar, fez-se silêncio absoluto no recinto. Era como se ninguém jamais tivesse passado por ali.

    Imagino que eles perceberam o bem que fiz, mas não sei se sentem gratidão. De um jeito estranho, acho que consegui ser a voz da consciência daqueles rapazes.

    —-

    [1] McCabe, D.. “Cheating among college and university students: A North American perspective,” International Journal for Academic Integrity,vol. 1, no. 1 (2005).

    [2] Lim, V. K. G.; See, S. K. B.. “Attitudes Toward, and Intentions to Report, Academic Cheating Among Students in Singapore.” Ethics and Behavior vol. 11, no. 3 (2001).

    [3] Norris, E. J.. “Academic integrity matters: five considerations for addressing contract cheating.” International Journal for Educational Integrity vol. 14, no. 15 (2018).


     

    Oliveira, Roberto Imbuzeiro. Sobre a cola. In: Landim, Claudio. Blog “Ciência e Matemática, 18Jul2019. https://blogs.oglobo.globo.com/ciencia-matematica/post/sobre-cola.html

    3º D-Ling/ Debates em Linguística

     

    logo D-Ling

    3º D-Ling / Debates em Linguística

    De 24 a 26 de setembro de 2019

    UFRJ/ FL/ Auditório E3 

    O Departamento  de  Linguística  e Filologia da Faculdade de Letras da UFRJ convida para o 3º D-Ling, que  objetiva integrar a pesquisa, o ensino e a extensão do Departamento de Linguística e Filologia como forma de divulgação das pesquisas de seu corpo docente e de convidados para incentivar nos estudantes de graduação o interesse pela Linguística e pela Filologia e pela continuidade nos estudos nessas áreas.

    O  tema da edição 2019 é Linguística: uma ciência com muitos percursos possíveis de pesquisa.

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    Inscrições para a apresentação de pôsteres até 09/09/2019  através do link bit.ly/dling-poster.

    Inscrições em minicursos até 23/09/2019 pelo link bit.ly/dling-minicurso

    ALGUMAS INFORMAÇÕES DE HORÁRIOS:
    Palestras da manhã: 
    terça e quinta 10h às 11h15
    quarta 11h15 às 12h30
    
    Palestras da tarde: 14h às 15h15
    Palestras de noite: 18h às 19h15
    
    Sessões de pôsteres: terça e quinta de 11h15 às 12h30 
    
    Minicursos:
    1) “Coisas legais em Linguística” 
    Diogo Pinheiro (UFRJ) e Alessandro Medeiros (UFRJ)
    terça e quinta de 15h45 às 17h45
    
    2) “Voz, fala e expressividade”
    Letícia Rebollo Couto (UFRJ)
    terça, quarta e quinta de 8h às 9h30
    
    Coffee breaks:
    Manhã – 9h30 às 10h / Tarde – 15h15 às 15h45
    

     

    Comissão Organizadora: Prof. Adriana Leitão Martins (Coordenação); Prof. Alessandro Boechat de Medeiros; Prof. Deise Cristina de Moraes Pinto; Prof. Maria Carlota Amaral Paixão Rosa.

    Plataforma Brasil: problemas com o Mozilla

    A seguir, o informe da  Unidade Técnica Plataforma Brasil



     

    Prezados (as) Usuários (as),

    Devido à incompatibilidade com o versão atual do Mozilla Firefox, a Plataforma Brasil tem apresentado inconsistência no momento da emissão dos pareceres, tranzendo informações cruzadas neste documentos. Visando mitigar essas falhas, recomendamos que façam a instalação da seguinte versão do Mozilla Firefox ou utilizem o Google Chrome:

    Mozilla Firefox ESR

    https://download.mozilla.org/?product=firefox-esr-next-latest-ssl&os=win64&lang=pt-BR (64 bits)

    https://download.mozilla.org/?product=firefox-esr-next-latest-ssl&os=win&lang=pt-PT (32 bits)

    Caso ainda apresente erro, pedimos que entrem em contato pelos canais de atendimento da Plataforma Brasil para que possamos averiguar melhor os casos.

    Desde já agradecemos pela paciência.

    Atenciosamente,

    Unidade Técnica Plataforma Brasil

     

     

    Na UERJ/ São Gonçalo, extensão universitária, Língua Portuguesa e inclusão social: o Projeto LetraJovem,vencedor do I Pitching Social do Canal Futura

    A Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ UERJ, através da sua Faculdade de Formação de Professores, no campus São Gonçalo, desenvolve desde 2014 o Projeto LetraJovem/Oficinas de Língua Portuguesa para Jovens e Adultos em Situação de Vulnerabilidade Social em parceria com o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro e com o Centro de Recursos Integrados de Atenção ao Adolescente (CRIAAD), de São Gonçalo, unidade do DEGASE/ Departamento Geral de Ações Socioeducativas que trabalha com medidas socioeducativas de semiliberdade.

    O Projeto, coordenado pela Prof. Márcia Lisbôa Costa de Oliveira, tem como público:

    • jovens de 16 a 24 anos que cometeram infrações e cumprem ou cumpriram medida socioeducativa em semiliberdade ou em liberdade assistida;
    • jovens de 18 a 24 anos oriundos de famílias de baixa renda ou em situação de risco social;
    • pais e mães de famílias em risco social e
    • egressos do sistema penitenciário.

    (Fonte: cv lattes da Coordenadora)

    Não é difícil perceber a importância do Projeto face aos números: dados da Pesquisa Nacional de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto realizada em fevereiro/março de 2018 pelo Ministério do Desenvolvimento Social  mostravam que o Brasil, àquela época, contava com 117.207 adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas de liberdade assistida e/ou prestação de serviços à comunidade. Sem liberdade, internados em 461 estabelecimentos socioeducativos existentes no país, mais 22.640 jovens, em dados de novembro de 2018. Em situação de vulnerabilidade, os números ampliam-se exponencialmente.

    E o que Língua Portuguesa, a temida disciplina escolar, tem a ver com isso? As variedades linguísticas da maioria desses falantes não têm prestígio; a evasão escolar entre essa população é altíssima: em torno de 70%. Sendo assim, “alguns desafios do projeto são combater o preconceito linguístico e discutir o ensino de língua portuguesa em contextos de exclusão”, “desenvolver metodologias de ensino voltadas aos jovens, principalmente quanto à leitura e à produção de textos”.

    Mais informações: um documentário de 15 minutos sobre o Projeto está agora disponível na internet. É o “Todas as línguas”, vencedor do I Pitching Social do Canal Futura, disputado entre universidades do SE e CO com projetos sobre o tema “Juventudes”.  O Canal Futura apoiou financeiramente a realização do documentário e o colocou em sua grade de programação em julho passado.


     

    UERJ/Futura. 9Jul2019. Todas as línguas. Direção Cássia F. Andrade.  Duração: 15 min.  https://www.youtube.com/watch?v=Eh-tfuPPHC0 

    [Ministério do Desenvolvimento Social /Secretaria Nacional de Assistência Social]. s.d. Relatório da Pesquisa Nacional de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto no Sistema Único de Assistência Social.  http://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/assistencia_social/relatorios/Medidas_Socioeducativas_em_Meio_Aberto.pdf

    Recomeçando o CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DE LÍNGUAS INDÍGENAS / CELIN do Museu Nacional da UFRJ

    O incêndio que em 2 de setembro de 2018 destruiu o Palácio do Museu Nacional fez com que o acervo do CELIN virasse cinzas. Uma pálida ideia do que o CELIN conservava ainda nos chega numa página de internet,  legado da comemoração dos 200 anos do Museu —  projeto para 2018, agora uma lembrança nostálgica.

    “Sobramos nós, que estamos aqui e vamos recomeçar”

    Com o espírito sintetizado nessas palavras da Prof. Marília Facó Soares, cujo conhecimento daquele acervo e dedicação ao Museu Nacional da UFRJ nos legou a organização do Guia de fontes e bibliografia sobre línguas indígenas e produção associada/ Documentos do CELIN, publicação de 2013, começa agora o esforço de reerguer o CELIN.

    O auxílio pode tomar uma das formas a seguir:

    RECONSTITUIÇÃO DO ACERVO DO CELIN SOB FORMA DIGITAL: enviar a colaboração por e-mail para

    • marilia@acd.ufrj.br  (responsável pelo CELIN)
    • lcristac@gmail.com (bibliotecária do CELIN).

    DOAÇÃO AO CELIN-MN/UFRJ DE LIVROS, PERIÓDICOS, MATERIAIS LINGUÍSTICOS
    TEXTUAIS, MATERIAIS EM SUPORTE FÍSICO (CDs/DVDs, fotografias, mapas,
    microfichas) doação pelos Correios para

    Centro de Documentação de Línguas Indígenas – CELIN-MN/UFRJ -–LINGUÍSTICA       Setor de Protocolo
    a/c Prof. Marília Lopes da Costa Facó Soares 
    Museu Nacional – prédio da Biblioteca
    Av. Gen. Herculano Gomes, s/n
    Quinta da Boa Vista – São Cristóvão
    Rio de Janeiro – RJ
    CEP 20941-360

    AJUDA FINANCEIRA AO CELIN:

    Passo 1: fazer um depósito identificado em favor do CENTRO DE
    DOCUMENTAÇÃO DE LÍNGUAS INDÍGENAS – MUSEU NACIONAL/UFRJ
    (CELIN-MN/UFRJ).para:

    Associação Amigos do Museu Nacional
    Banco do Brasil (001)
    Agência: 3010-4
    Conta: 60618-9
    CNPJ: 30024681/0001-99

    Passo 2: enviar o comprovante digitalizado do depósito por e-mail com duplo endereçamento, para:

    (i) sosmuseunacional@samn.org.br

    (ii) marilia@acd.ufrj.br

    Importante:  deixar claro, no e-mail, que o depósito se dá em favor do CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DE LÍNGUAS INDÍGENAS – MUSEU NACIONAL/UFRJ (CELIN-MN/UFRJ).


    Referências

    SOARES, Marília Facó (org.).2013. Guia de fontes e bibliografia sobre línguas indígenas e produção associada/ Documentos do CELIN. Rio de Janeiro: Museu Nacional UFRJ. http://www.museunacional.ufrj.br/dir/celin/docs/Soares_org_2013_Guia_CELIN.pdf

    Dados abertos e avaliação por pares aberta chegam à linguística brasileira

     

    A discussão sobre os pareceres abertos apresentada nas postagens A avaliação por pares em discussão – Partes 1, 2 e 3 ganhará forma, em breve, na Revista da Abralin, periódico da Associação Brasileira de Linguística. Mas não só.

    Numa circular aos associados datada de 16 de julho de 2019, as editoras-chefes da revista, argumentando que “[a] ciência vive um momento de crise, que vai muito além da crise da replicabilidade; […] uma crise de credibilidade, que decorre da falta de transparência no processo, que é, no cenário brasileiro, majoritariamente financiado pelo contribuinte”; que “o processo de revisão duplo cego (em que pareceristas não sabem quem são os autores, e vice-versa) não tem se mostrado transparente“;  que “o trabalho do parecerista, essencial para o aprimoramento do texto e com contribuições substanciais para a forma final, não é reconhecido publicamente” , solicitam aos associados já doutores  que se cadastrem como pareceristas para uma nova fase da revista: “a partir de 2020, as submissões à Revista da Abralin passarão por processo de revisão aberto, em que autor e parecerista não são anônimos“.

    Não será a única parte da inovação. Ainda na sequência de decisões que colocam o periódico no movimento Ciência Aberta, no tocante às submissões de manuscritos serão priorizadas as submissões à Revista da Abralin “que apresentarem a indicação de compartilhamento dos conjuntos de dados de análise, instrumentos, scripts de análise estatística, roteiros e materiais adicionais, que devem estar em repositórios online abertos, tais como OSF e Figshare, por exemplo”.

    Também serão priorizadas as submissões “que se comprometerem a contribuir com um texto de popularização a ser publicado na Roseta, revista da Associação Brasileira de Linguística voltada para a popularização científica, de modo a promover a Ciência Cidadã”.

    A circular pode ser lida em http://revista.abralin.org/index.php/abralin/announcement/view/4

    Autoplágio ou reciclagem textual – 2

     

    Algumas situações em que um trabalho já publicado ganha nova publicação:

    • na tradução para outra língua;
    • na apresentação do trabalho para um público diferente.

    Isso é problema?

    Nenhum problema, mas a publicação anterior deve ser claramente indicada e, se for o caso, o novo editor deve ser avisado quando da submissão do manuscrito. Isso diminui as chances de publicação? Muito provavelmente. Mas é muito melhor do que ter um trabalho retratado.

    E se for apenas a reutilização de porções de texto já publicado num novo texto?

    Uma saída é tratar esses trechos como citação de trabalho anterior, com aspas e referência.

    Mas se reapresentar um trabalho, no todo ou em parte, é autoplágio, se assim é não posso colocar meu manuscrito no meu blogue ou num servidor de preprints? Até a Scielo está construindo um repositório de preprints (que está no âmbito da questão mais ampla do acesso aberto)! 

    Bom, aí complica, porque revistas têm políticas próprias, que podem ou não permitir essa prática. No que respeita a preprints, a Wikipedia arrolou vários periódicos com alto fator de impacto e apontou a política de cada um quanto a essa publicação prévia.


    FAPESP. Aos 20 anos, SciELO planeja plataforma de preprints. Pesquisa FAPESP, 272. Out2018. https://revistapesquisa.fapesp.br/2018/10/22/aos-20-anos-scielo-planeja-plataforma-de-preprints/

    Roig, M. 2010. Plagiarism and self-plagiarism: What every author should know Biochemia Medica,20(3):295-300. https://www.biochemia-medica.com/en/journal/20/3/10.11613/BM.2010.037

    Wikipedia contributors, “List of academic journals by preprint policy,” Wikipedia, The Free Encyclopedia, https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=List_of_academic_journals_by_preprint_policy&oldid=899808896 .

    [Parte 1] [Parte 2]

    #dealforscience e o Brexit

    A preocupação com o Brexit chegou à ciência: uma petição online solicita que a União Europeia e o Reino Unido cheguem a um acordo quanto à colaboração científica. A preocupação envolve recursos para a ciência: o Reino Unido poderia perder acesso, por exemplo, ao Horizon 2020 (por ano, no período 2014-2020, £ 1,5 bilhão por ano para o Reino Unido) ou ao seu sucessor, o Horizon Europe , ao Erasmus+. Alguns registros dessa preocupação:

     

    A petição: KEEP THE EU AND UK COLLABORATING IN SCIENCE #DEALFORSCIENCE https://www.openpetition.eu/petition/online/keep-the-eu-and-uk-collaborating-in-science-dealforscience


    Brexit é um cruzamento vocabular (ou blend, ou palavra-portmanteau) formado a partir das palavras inglesas Britain e exit; denomina a saída do Reino Unido da União Europeia. Segue o mesmo modelo de Grexit, palavra criada para denominar o movimento que solicitava que a Grécia deixasse a zona do euro (e que na Grécia foi denominado ελλέξοδος, de Ελλάς + έξοδος).


    Imagem:

    Wikimedia Commons contributors, “File:UK location in the EU 2016.svg,” Wikimedia Commons, the free media repository,  https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=File:UK_location_in_the_EU_2016.svg&oldid=344772331

    Autoplágio ou reciclagem textual – 1

    Autoplágio é termo recente que vem sendo definido como a republicação de um trabalho no todo ou em parte, pelo autor, sem que se informe ao leitor da publicação anterior — em suma: apresenta-se como novo algo que não é novo. Daí a denominação alternativa reciclagem textual.

    Pode causar estranheza considerar essa uma atitude censurável: afinal, plágio diz respeito a lançar mão do trabalho de outrem como se fosse próprio. Por que, então, reapresentar um trabalho próprio é considerado má conduta?

    Esse comportamento é problemático se revela a intenção de inflacionar a produção no próprio cv, mas também se incorre em problemas ligados a copyright.

    [Continua]

    [Parte 1] [Parte 2]

    Aceito ou não o convite para um parecer?

    O COPE/ Committee on Publication Ethics apresenta, em forma de fluxograma, um guia para ajudar na decisão a se tomar quando se é convidado a emitir parecer para uma revista.

     

    COPE - peer review

    O COPE sugere que se levem em conta dois conjuntos de critérios. O primeiro levanta:

    a) a respeitabilidade do periódico (e sugere, para isso, uma consulta ao site Think. Check. Submitb) a política de revisão por pares apresentada; e c) os potenciais conflitos de interesse.

    Resolvida essa parte, a decisão deve levar em conta: a) se o trabalho poderá ser entregue no prazo estipulado; e b) se o texto a ser avaliado se enquadra em nossa área de especialidade.


    Referências

    COPE/ Committee on Publication Ethics. What to consider when asked to peer review a manuscript.  https://publicationethics.org/node/34241

    Think. Check. Submit. https://thinkchecksubmit.org/

    A terceirização na avaliação por pares -2

    A defesa da terceirização dos pareceres toma por base, em geral, a necessidade de treinamento nessa tarefa acadêmica. Se a questão é o treinamento de orientandos,  há formas mais eficazes. McDowellKnutsen, GrahamOelker & Lijek  apresentam o modelo implementado por uma professora  da University of California Santa Cruz, Needhi Bhalla, transcrito abaixo. Há também treinamentos online, como, por exemplo:

    Já a não inclusão do nome do colaborador foi  justificada, na pesquisa, com argumentos como esconder dos editores que o parecerista convidado, ao nomear os colaboradores no parecer, demonstraria ter quebrado o sigilo da avaliação; mais estranho foi o argumento  de não haver um campo no formulário para incluir a colaboração.

    O nome de quem escreveu ou teve co-autoria deveria receber créditos. Se alguém escreve um parecer mas outrem o assina, estamos diante de uma prática conhecida como autoria fantasma. Não é uma boa prática.

     


    Template from Dr. Needhi Bhalla (UCSC) for peer review training using preprints

    Assignment description

    “Your assignment is to pick a cell biology preprint from biorxiv (http://biorxiv.org/collection/cell-biology) and review it. This assignment is due [DATE] [TIME], Please submit your review as a word document so that I can edit it.

    I’ll assess, edit and grade your review. Afterwards, you will email your edited review to the corresponding author(s), cc’ing me on this email. Your grade is contingent upon submission of your review to the authors.

    I’d like you to organize your review as follows:

    Part 1. Summary (less than 500 words):

    Write a brief overview of the author’s findings and provide a general assessment on the quality of the work: strengths and weaknesses.

    Part 2. Detailed comments:

    Address each of the questions below, providing specific examples to justify your comments.

    1. Significance 

      Does the author provide justification for why the study is novel and how their results will influence the field?

    2. Observation

      Are the author’s descriptions of the data accurate and are all key experiments and hypotheses covered? Are the author’s arguments logically and coherently made? Are counterbalancing viewpoints acknowledged and discussed? Are they sufficiently detailed for a non-expert to follow? Do they include superfluous detail?

    3. Interpretation

      Are the inferences supported by the observations? Do you agree? If not, what experiments would you need to see to be convinced? Please limit any requests for new work, such as experiments, analyses, or data collection, to situations where the new data are essential to support the major conclusions. Any requests for new work must fall within the scope of the current submission and the technical expertise of the authors.

    4. Clarity

      Is the manuscript easy to read and free of jargon, typos, and grammatical or conceptual errors? Is the information provided in figures, figure legends, boxes and tables clear and accurate? Is the article accessible to the non-specialist?

      Tips:

      It is important to provide a helpful review that you would want to receive. Critical thinking does not need to be negative to be convincing!

      Let me know if you’d like to consult with me about your choice of papers or have any questions.”

     


    McDowell, Gary S. et alii. Co­reviewing and ghostwriting by early career researchers in the peer review of  manuscripts.  bioRxiv preprint first posted online Apr. 26, 2019; doi: http://dx.doi.org/10.1101/617373.

    [Parte 1] [Parte 2]

    A terceirização na avaliação por pares – 1

     

    Três postagens anteriores (A avaliação por pares em discussão – Partes 1, 2 e 3) focalizaram a discussão que atualmente envolve diferentes possibilidades de implementação da avaliação por pares aberta. Todas as propostas em discussão reconhecem o tanto de trabalho que a atividade soma à já sobrecarregada vida acadêmica, mas consideram a figura o avaliador único.

    Um artigo de Benderly no magazine Science, porém,  traz para primeiro plano uma prática obscura: a terceirização de pareceres, assinados por pesquisadores de ponta, mas escritos de fato por pesquisadores em início de carreira: pós-graduandos ou pós-docs.

    [Continua]

     


    Benderly, Beryl Lieff.  Early-career researchers commonly ghostwrite peer reviews. That’s a problem. Science/Taken for Granted, 6Maio2019.  https://www.sciencemag.org/careers/2019/05/early-career-researchers-commonly-ghostwrite-peer-reviews-s-problem

    McDowell, Gary S. et alii. Co­reviewing and ghostwriting by early career researchers in the peer review of  manuscripts.  bioRxiv preprint first posted online Apr. 26, 2019; doi: http://dx.doi.org/10.1101/617373.

    [Parte 1] [Parte 2]

     

    Na InterFORENSICS 2019, uma sessão para a Linguística como Ciência Forense

    A InterFORENSICS/ Conferência Internacional de Ciências Forenses é “o maior evento integrado de Ciências Forenses da América Latina”, com 13 grandes áreas das Ciências Forenses.

    Na edição de 2019, que teve lugar na última semana em São Paulo, a Linguística teve espaço na programação da tarde de sexta-feira, 24/Maio, na área temática ICMedia –  Ciências Forenses em Multimídia e Segurança Eletrônica:

    14h às 14h30 – SALA 6, com tradução
    Videoconferência – The relevance of Phonetics/Linguistics to the field of Forensic Speaker Comparison.
    Peter French – University of York
    14h30 às 15h – SALA 12
    A contribuição da Linguística de Corpus para a área forense.
    Tony Berber – PUC/SP
    15h às 16h – SALA 12
    Painel Comparação Forense de Locutor: o que é necessário para o fazer competente.
    Plínio de Almeida Barbosa – Unicamp
    Tiago Petry – IGP/SC
    Rafael de Oliveira Ribeiro – Polícia Federal

    A avaliação por pares em discussão – Parte 3

    As alternativas ao modelo de avaliação por pares hegemônico na atualidade —  referidas como open peer review (OPR) — são um conjunto de combinações de abertura como indicado na postagem de 20 de maio passado e começam a gerar pesquisas na comunidade científica. Assim, em julho de 2018, o repositório do Consejo Superior de Investigaciones Científicas/ DIGITAL.CSIC publicava os resultados de uma enquete com 158 pesquisadores da Espanha (Bernal & Román-Molina, 2018) . Ao assumirem o papel de revisor ou de autor, os pesquisadores consultados demonstraram sua preferência pelo duplo-cego:

    CSIC- duplo cego autor

    CSCI-duplo cego revisor

    Dentre as conclusões da pesquisa chama a atenção a falta de consenso em relação à implantação de mudanças:

    Los encuestados valoraron las oportunidades y los beneficios de una posible reforma del sistema dominante de revisión por pares de manera dispar. Así, algo más del 60% de los encuestados piensa que hacer públicas las revisiones de los artículos científicos puede ser beneficioso como información complementaria para los lectores y que la calidad de las propias evaluaciones aumentaría. Por otro lado, no existe consenso entre los encuestados sobre el riesgo de que un sistema de revisiones públicas actuara como obstáculo para realizar evaluaciones especialmente críticas, con casi 47% de respuestas tendentes a pensar que tal riesgo existiría. Finalmente, algo más del 50% de los encuestados piensa que publicar la identidad de los revisores ayuda a reducir posibles conflictos de intereses.

     

    CSCI- Contra e a favor

    Nassi-Caló (2015) arrola seis argumentos favoráveis à revisão aberta por pares e cinco contrários. Entre os riscos Nassi-Caló vê um aspecto mais grave que uma possível represália: “Certos comentários nos pareceres poderiam ser distorcidos e descaracterizados para reduzir a credibilidade da pesquisa, de uma área do conhecimento ou da ciência como um todo. Esta probabilidade seria maior em periódicos que publicam pesquisa com maior risco de discussão política”. Nota que a aceitação ou rejeição da OPR não é a mesma em todas as áreas; que pesquisadores mais jovens estão mais propensos a concordar com sua implantação. Para os editores, a adoção de um modelo que publicasse não só o artigo em sua forma final, mas outras versões submetidas, comentários dos pareceristas, respostas dos autores e decisão do editor não seria “trivial”.


     

    Bernal, Isabel &  Román-Molina, Juan. 2018. Encuesta sobre evaluación por pares y el módulo “Open Peer Review” de DIGITAL.CSIChttp://digital.csic.es/bitstream/10261/167425/3/encuesta_DC_peer_review_oprm_2018.pdf

    NASSI-CALÒ, L. Potenciais vantagens e desvantagens na publicação de pareceres [online]. SciELO em Perspectiva, 2019 . https://blog.scielo.org/blog/2019/04/30/potenciais-vantagens-e-desvantagens-na-publicacao-de-pareceres/

    [Parte 1]   [Parte 2] [Parte 3]

    300m de imagens em uso gratuito

    A Creative Commons lançou em abril a nova versão do CCSearch, com 300 milhões de imagens, mantida a possibilidade de filtragem para modificar e adaptar a imagem e de seu uso comercial. Informam, porém, que

    Please note that CC does not verify whether the images are properly CC licensed, or whether the attribution and other licensing information we have aggregated is accurate or complete. Please independently verify the licensing status and attribution information before reusing the content. For more details, read the CC Terms of Use.

    O banco de imagens pode ser pesquisado em  https://search.creativecommons.org/  ou, na versão antiga, em https://oldsearch.creativecommons.org/

    A avaliação por pares em discussão – Parte 2

    Quais são as alternativas? São muitas. Ernesto Spinak (2018), com base na literatura sobre o tema, organizou um quadro das alternativas em discussão:

    OPR - Spinak

    [Continua na Parte 3]

     


    SPINAK, E. Sobre as vinte e duas definições de revisão por pares aberta… e mais [online]. SciELO em Perspectiva, 2018 https://blog.scielo.org/blog/2018/02/28/sobre-as-vinte-e-duas-definicoes-de-revisao-por-pares-aberta-e-mais/

    [Parte 1]  [Parte 2]  [Parte 3]

    A avaliação por pares em discussão – Parte 1

    Considerada o alicerce das publicações científicas, a avaliação por pares é cada vez mais o centro de discussões em que surgem processos alternativos a serem adotados. Em foco, o nível de transparência no processo.

    A forma mais comum de avaliação por pares é aquela que preserva o anonimato —  seja porque o autor não toma ciência dos nomes dos pareceristas (simples-cegoing. single-blind), seja porque os autores não sabem quem são os pareceristas nem os pareceristas sabem quem são os autores (duplo-cegoing. double-blind) — e o sigilo que envolve os pareceres exarados, endereçados apenas ao editor e ao autor.

    Em meados desta década, Nassi-Calò (2015) apontava novas alternativas a esses processos:

    Recentemente, novas formas de revisão por pares vem sendo consideradas, como alternativas aos métodos simples e duplo-cego. Revisões totalmente abertas, em que a identidade de autores e revisores é conhecida por ambos; revisões abertas publicadas ao final do artigo, abrindo espaço para discussões pós-publicação; e a substituição da revisão por pares por revisão pós-publicação estão entre as alternativas que ganharam destaque como formas da evolução do processo original de peer review.

    Em que consistem essas alternativas? [Continua na Parte 2]


     

    Bernal, Isabel &  Román-Molina, Juan. Encuesta sobre evaluación por pares y el módulo “Open Peer Review” de DIGITAL.CSIChttp://digital.csic.es/bitstream/10261/167425/3/encuesta_DC_peer_review_oprm_2018.pdf

    Nassi-Calò, Lilian. 2015. Avaliação por pares: modalidades, prós e contras. Scielo em Perpectiva, 27Mar2015. https://blog.scielo.org/blog/2015/03/27/avaliacao-por-pares-modalidades-pros-e-contras/#.XJWQoVVKiXI

    [Parte 1]  [Parte 2] [Parte 3]

    Citações e referências: por que preciso disso?

    Ao elaborar um texto acadêmico há algumas razões para fazer referência a outros textos.

    • Uma delas é situar a discussão do problema focalizado numa linha teórica e, assim, mostrar ao leitor em que propostas o trabalho se apoia.
      books school stacked closed
    • Ao fazer isso, também se demonstra o aprofundamento da pesquisa — ou não, caso as fontes  sejam apenas fontes não acadêmicas ou não haja fonte alguma.
    • Também se dá ao leitor a chance de buscar mais informação (e de confirmar o conteúdo de nossa própria referência).
    • Por outro lado, se uma ideia — ou um texto, gráfico, tabela … — não é minha nem faz parte do conhecimento comum tenho de dar crédito a quem de direito. Não fazer isso é incorrer em plágio*.

     

    *
    UFRJ. Diretrizes sobre integridade acadêmica.
    MIT. Academic Integrity at MIT: A Handbook for Students

    Há diversos estilos de apresentação das referências. Alguns deles:

    [Post 1] [Post 2] [Post 3] [Post 4] Post 5]


    Foto por Pixabay em Pexels.com

    Posso citar a Wikipedia?

    Há algum tempo dedico uma aula das minhas disciplinas a uma conversa sobre pesquisa e fontes confiáveis. Uma pergunta recorrente é “E a Wikipedia?“. Tanto que passei a incluir um slide nessas apresentações com a pergunta:

    Wiki

    As fontes, isto é, onde vamos buscar informação, são um aspecto crucial de uma pesquisa. São fontes possíveis livros e artigos, mas também material disponível na internet, que podem incluir outras bibliotecas, blogues, dados governamentais, videos …. Estejam na internet ou numa prateleira da biblioteca, as fontes têm de ser avaliadas.

    A internet como fonte

    A internet pode ser fonte de pesquisa, mas ela não é como a biblioteca da universidade, nem como a bibliografia das diferentes disciplinas (neste blogue já houve diversas postagens que focalizaram a revisão por pares), além de exigir um tipo de cuidado desnecessário na biblioteca: warning

    o site que aparece na busca pode colocar a segurança do computados em risco;

    As obras de referência

    Tradicionalmente a biblioteca distingue as obras de referência, aquelas que apenas consultamos para obter informação, como enciclopédias e dicionários, e aquelas que vamos não apenas consultar, mas ler, como artigos periódicos científicos, por exemplo. No tocante a obras de referência há aquelas que são gerais e as que são especializadas. A Encyclopedia of Language and Linguistics é uma enciclopédia especializada; a Wikipedia é uma enciclopédia geral.

    A Wikipedia é uma enciclopédia livre, colaborativa. Qualquer pessoa pode escrever ou modificar um artigo da Wikipedia, seja ou não um especialista na área. Isso faz com que a qualidade dos artigos possa variar. Mais ainda: colaboradores podem incluir artigos absolutamente falsos, os hoaxes. Um exemplo famoso: The Bicholim Conflict, uma guerra entre portugueses e o Império Maratha no século XVII, contribuição à Wikipedia de um colaborador de nome  A-b-a-a-a-a-a-a-b-a (Lewis, 2014). A guerra nunca aconteceu, os livros na bibliografia referida não existem …

    Mas não é preciso jogar fora o bebê junto com a água do banho…

    A Wikipedia periodicamente supervisiona o material disponibilizado e mantém um registro dos enganos intencionais, que são apagados: Wikipedia:List of hoaxes on Wikipedia Quem atualmente procurar pelo artigo-hoax anteriormente mencionado encontrará a informação de que se tratava de um hoax e pode mesmo ver a imagem pública do artigo agora apagado: https://www.wikidata.org/wiki/Q21510193

    Isso nunca aconteceria no papel! (Mesmo?)

    A  inclusão de uma entrada fictícia nunca aconteceria em obras de referência mais canônicas? Não é bem assim.

    Quem conhece a fotógrafa Lillian Virginia Mountweazel (1942-1973), cuja vida mereceu um artigo na The New Columbia Encyclopedia (New York: Columbia University Press, 1975)?

    Mountweazel, Lillian Virginia, 1942-73, American 
    photographer, b. Bangs, Ohio. Turning from 
    fountain design to photography in 1963, 
    Mountweazel produced her celebrated portraits of the 
    South Sierra Miwok in 1964. She was awarded 
    government grants to make a series of 
    photo-essays of unusual subject matter, 
    including New York City buses, the cemeteries of Paris,
    and rural American mailboxes. 
    The last group was exhibited extensively abroad 
    and published as Flags Up! (1972) 
    Mountweazel died at 31 in an explosion 
    while on assignment for Combustibles magazine.
    
    William H. Harris and Judith S. Levey, eds,Mountweazel, Lillian Virginia”, 
    The New Columbia Encyclopedia, 
    New York: Columbia University Press, 1975.
    

    A biografia dessa figura fictícia foi intencionalmente inserida na obra, como forma de armadilha para violações de direito autoral.

    E quem conhece a palavra inglesa esquivalience?

    esquivalience —n. the willful avoidance of  one’s official  responsibilities … late 19th . cent.: perhaps .from French esquiver , “dodge, slink , slink away.” 

    Esquivalience pode ser  considerada um mountweazel (sim, um neologismo criado a partir do sobrenome da Lillian com dois eles): uma entrada fictícia, criada como solução editorial  para a detecção de plágio e, portanto, tão intencional como um hoax do mundo digital.

    Vale a pena ler o artigo de  Henry Alford para The New Yorker em 2005 
    com o título Not a Word.
    Alguns embaraços decorrentes

    O episódio de Bicholim gerou um livro (The Bicholim Conflict), que pode ser comprado sob demanda; de modo semelhante, um erro na leitura de um texto medieval português —  detectado por Carolina de Michaëlis de Vasconcelos (1895) — criara os cantos de ledino e essa leitura  levou Ernesto Monaci (1844-1918) a escrever um livro sobre algo inexistente (Cantos de Ledino tratti dal grande canzoniere portoghese della biblioteca Vaticana) .

    Quanto a palavras criadas como armadilha para plagiadores de dicionários, a linguista Rochelle Lieber  (2010:  29) chamava a atenção para o fato de que essas fake words ou mountweazels podem ganhar vida: ela reporta 55300 retornos no Google em Dez2006 para esquivalience.  Deixava, então, no ar a pergunta se o que inicialmente era um mountweazel não podia vir a tornar-se uma palavra real.

    Posso citar ou não?

    Citações, bem como referências, são menções ao  material pesquisado (as fontes) na elaboração de um texto acadêmico. A própria Wikipedia dedicou uma entrada a seu uso acadêmico: Wikipedia: Academic Use.  Nessa entrada há a seguinte observação:

    Remember that any encyclopedia is a starting point for research, not an ending point. 

    An encyclopedia, whether a paper one like Britannica or an online one, is great for getting a general understanding of a subject before you dive into it, but then you do have to dive into your subject; using books and articles and other higher-quality sources to do better research. Research from these sources will be more detailed, more precise, more carefully reasoned, and more broadly peer reviewed than the summary you found in an encyclopedia. These will be the sources you cite in your paper. There is no need to cite Wikipedia in this case.

    Em resumo

    As críticas e  as proibições a citações da Wikipedia (não à consulta)  em instituições de ensino estão fundamentadas em diferentes tipos de argumentos:  a confiabilidade das fontes empregadas na pesquisa, a profundidade do conteúdo, mas principalmente a formação do aluno como agente na construção de seu conhecimento, o que implica  a leitura de fontes primárias e secundárias e não apenas de resumos, por melhores que  estes sejam.

    As enciclopédias gerais, como a Wikipedia, sempre foram um bom ponto de partida quando não se conhece nada sobre um tema. Um passo muito adiante desse tipo de obra é a enciclopédia especializada, com material escrito por profissionais de renome, rica nas referências de cada artigo, o que permite ao usuário partir para a busca de outras fontes.

    À medida em que alguém se aprofunda num tema, a enciclopédia (como o dicionário) vai sendo deixada de lado.  “Posso citar a Wikipedia?” Talvez a questão seja outra: quando citar uma fonte que resume trabalhos?

    [Post 1] [Post 2] [Post 3] [Post 4] [Post 5]


    Alford, Henry. 2005. Not a Word. The New Yorker, 29Ag2005. https://www.newyorker.com/magazine/2005/08/29/not-a-word

    Brown, Keith (ed.). Encyclopedia of Language and Linguistics (2nd Edition) .Boston: Elsevier, 2006. 14vv.

    Lewis, Dan. 2014. The Bicholim Conflict. Now I Know, 28Fev2014. http://nowiknow.com/the-bicholim-conflict/

    Lieber, Rochelle. 2010. Introducing Morphology. Cambridge: Cambridge University Press.

    Vasconcelos, Carolina Michaëlis de. 1895. Uma passagem escura do “ Chrisfal”. In: Revista Lusitana , 3 (4): 347-362 http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/biblioteca-digital-camoes/etnologia-etnografia-tradicoes.html

    Wikipedia:List of hoaxes on Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:List_of_hoaxes_on_Wikipedia

    Wikipedia: Academic use. https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Academic_use

    Posso citar um trabalho que foi retratado? – Parte 2

     

    Um exemplo de problemas que podem surgir caso se decida sustentar a argumentação tendo como referência um trabalho retratado por má conduta.

    Digamos que estamos às voltas com uma pesquisa sobre aspecto verbal e que fiquemos encantados com as conclusões de um artigo de 2013 na Psychological Science que afirmava que falantes de inglês, ao relatar experiências emocionais passadas com o uso do imperfectivo (como I was crying) ou do perfectivo (como I cried), demonstravam o quanto estavam próximos ou distantes afetivamente das memórias relatadas  —- e assim demonstrariam seu estado de humor e  de felicidade:

    I propose that the aspect used in describing past emotional experiences can influence memory for them and thereby influence current mood and happiness. (p. 1)

    I hypothesized that using the imperfective (vs. perfective) aspect to describe a pleasant past experience should more effectively reinstate the positive affect associated with that experience (and should result in a more positive mood). Likewise, I predicted that using the imperfective (vs. perfective) aspect to describe an unpleasant past experience would more effectively reinstate the negative affect associated with that experience (and should result in a more negative mood). [….] I hypothesized that using the imperfective aspect to describe an unpleasant past experience should reduce happiness compared with using the perfective aspect, and that using the imperfective aspect to describe a pleasant past experience should enhance happiness compared with using the perfective aspect. (p.2)

    O trabalho chegou a ser citado diversas vezes e foi tema de uma coluna de jornal. Seria retratado algum tempo depois. Motivo alegado? Um aluno de graduação, não listado como autor, teria alterado  as respostas obtidas nos experimentos (Retraction Watch, 17Fev2017), para que elas confirmassem as hipóteses.

    Se os dados são fabricados, que fazer com quaisquer  conclusões, a não ser descartá-las?

    Além disso…

    1. O estudante de graduação acusado de manipulação não é nomeado, nem como autor, nem nos agradecimentos. Segundo o autor único no artigo, o estudante só coletou dados e por isso não preencheria os critérios de autoria (mas ver neste blogue Na lista de autores ou nos agradecimentos?; A autoria múltipla: o primeiro, o último, só um “et alii”?).

    Caso o estudante não preenchesse os critérios de autoria da revista,  teria de obrigatoriamente receber agradecimentos.  Estranhamente o artigo não tem qualquer seção de agradecimentos e, como notou um dos comentários na postagem da Retraction Watch, todo o texto está na primeira pessoa do singular (I analyzed, I used correlational procedures , I conducted four experiments ...).

    2. Os problemas com o desenho dos experimentos foram objeto de comentário em Morey (2017); os resultados não foram confirmados  em Vera (2014).

    Se os dados foram manipulados, vamos sustentar nosso trabalho com base em dados fabricados?


    Referências

    Hart, William. 2013. Unlocking past emotion: Verb use affects mood and happiness.  Psychological Science, 24, 19–26.  [Retratado em Psychological Science, 28(3) : 404. 2017]

    Markman, Art.  2013. Language Changes Distance and Mood. The Huffington Post,  02/06/2013 https://www.huffingtonpost.com/art-markman-phd/language-changes-distance_b_2577109.html?ec_carp=6715025389107967054

    Morey, Richard D. 2017. About that Hart (2013) retraction… Attention to detail is critical in peer review. https://medium.com/@richarddmorey/about-that-hart-2013-retraction-79cfdaea5cb0

    Retraction Watch. 17Fev2017. Study about words’ effect on mood to be retracted after investigation finds evidence of data manipulation. https://retractionwatch.com/2017/02/07/study-words-effect-mood-retracted-investigation-finds-evidence-data-manipulation/

    Vera, Juan Diego. 2014. Does Verb Use Affects Mood and Happiness? Florida State University. A Thesis submitted to the Department of Psychology in partial fulfillment of the requirements for graduation with Honors in the Major  http://diginole.lib.fsu.edu/islandora/object/fsu:204778/datastream/PDF/view

    [Parte 1] [Parte 2]

    Posso citar um trabalho que foi retratado? Parte 1

     

    A retratação é um mecanismo para corrigir a literatura e alertar os leitores sobre publicações que contêm dados tão falhos ou errados que não se pode confiar em suas descobertas e conclusões. Dados não confiáveis podem resultar de simples erro  ou de má conduta na pesquisa.

    COPE/Committee on Publication Ethics. Retraction guidelines.

    A pergunta que abre esta postagem começa a ser mais ouvida, acompanhando o aumento no número de retratações, mesmo em Linguística: no início de janeiro de 2019, uma busca na Retraction Watch Database retornava 60 trabalhos retratados na área em razão de plágio, de duplicação, de problemas de autoria e mesmo de falsificação de dados.

    Pode parecer estranho, mas trabalhos retratados continuam a ser citados, mesmo quando as retratações decorreram de casos de grande repercussão, como demonstraram Bornemann-Cimenti, Szilagyi, &  Sandner-Kiesling (2015), tomando para exemplo os 21 artigos retratados de Scott Reubencujas conclusões foram tão fabricadas quanto eram falsos os pacientes que formaram o universo da pesquisa inexistente.

    O que fazer?

    Vamos a um exemplo concreto, apresentado por um leitor de Retraction Watch (05/01/2018): parte da inspiração para a pesquisa viera de um trabalho posteriormente retratado. Houve a retratação, mas houve também uma influência positiva para o leitor que apresentou o problema. A recomendação do blogue foi a seguinte:

    It’s perfectly fine to cite a retracted paper, as long as the retraction is noted. Ideally, the we’d suggest citing both the paper and the retraction notice, which (according to best practices) should have different DOIs. And you can check for retracted papers in our database.

    Citar: é mesmo necessário?

    Embora haja quem defenda que trabalhos retratados ainda assim podem ter partes citáveis, há aqui um problema. Em princípio, a retratação é uma decisão tão grave que, se o problema diz respeito a apenas um trecho do trabalho, em geral os editores preferem publicar uma nota de correção.

    Se um trabalho foi retratado porque apresentou dados falsos ou dados fabricados, ele não serve de nada. Se foi retratado porque plagiou outro trabalho, que se vá ao original. Se os dados estão tão errados que não se pode confiar no que lá está, de novo: não serve de nada.

    E se foi retratado por conta de uma briga de autoria, por exemplo? Melhor ler a nota de retratação com cuidado e discutir o caso com o orientador.

    E se a nota é vaga e não dá para saber o motivo da retratação? Discuta com o orientador se vale a pena contactar a revista.

     


    Referências

    Bornemann-Cimenti, Helmar; Szilagyi, Istvan S. &  Sandner-Kiesling, Andreas. 2015. Perpetuation of Retracted Publications Using the Example of the Scott S. Reuben Case: Incidences, Reasons and Possible Improvements Science and Engineeng Ethics, Publ. online: 7Jul2015.

    Retraction Watch, 05Jan2018. Ask Retraction Watch: Is it OK to cite a retracted paper? http://retractionwatch.com/2018/01/05/ask-retraction-watch-ok-cite-retracted-paper/

    Retraction Watch Database.http://retractiondatabase.org/RetractionSearch.aspx?  

    [Parte 1]  [Parte 2]

    Após consulta pública, em preparação uma nova versão para o Plano S

    O Plano S, que deve entrar em vigor no próximo 1º de janeiro, deverá contar com uma nova versão.

    A seguir, reproduz-se o artigo “Reação ao Plan S”, de Bruno Pierro.


    Reação ao Plan S

     Consulta recebe mais de 600 sugestões para mudar estratégia de acesso aberto a artigos científicos.

     

    Iniciativa da Comissão Europeia com apoio de agências de 14 países, o Plan S propõe que, a partir de 2020, os resultados de pesquisas financiadas com dinheiro público sejam divulgados em revistas científicas de acesso aberto, aquelas que qualquer pessoa pode consultar sem pagar por isso. A transformação que o plano irá produzir se for adotado por muitos países produziu uma grande mobilização de vários segmentos da comunidade científica. Uma consulta pública sobre a iniciativa, encerrada no início de fevereiro, recebeu mais de 600 sugestões vindas de universidades, agências de fomento, editoras e cientistas de mais de 40 países. “Nunca se viu um debate tão amplo sobre o futuro da comunicação científica como esse”, disse, em nota, David Sweeney, copresidente do cOAlition S, o consórcio internacional responsável pelo plano.

    O conteúdo das mensagens não foi publicado pelo consórcio, que vai analisar as recomendações. Mas parcela significativa dos comentários foi divulgada por seus autores. A plataforma digital Open Access Tracking Project (OATP) reuniu mais de 420 avaliações. Na mídia social Reddit, um fórum sobre o assunto expôs cerca de 105 pareceres. O texto do Conselho de Pesquisa da Noruega (RCN) tem 885 páginas.

    O desafio será buscar pontos de convergência em meio a uma diversidade de vozes e interesses. Em linhas gerais, os comentários refletem preocupações com a forma como seria feita a transição para um modelo de publicação totalmente aberto e propõem uma extensão do prazo para a iniciativa entrar em vigor. Também há sugestões para poupar das restrições do plano as revistas de sociedades científicas, que desempenham um papel importante e dependem da venda de assinaturas. A Sociedade Europeia de Física, por exemplo, considera que uma transição forçada para um sistema exclusivamente de acesso aberto corre o risco de minar a viabilidade econômica desses periódicos.

    Limite para taxas
    Vários comentários questionam se é factível fixar um teto para os valores das taxas cobradas dos autores para publicar artigos em acesso aberto, as chamadas APCs. Um dos objetivos do Plan S é controlar os gastos com essas taxas, cujo valor pode ir de US$ 1,5 mil até US$ 5 mil por paper. “É importante que o limite não fique abaixo dos custos de revisão e publicação em periódicos de qualidade”, recomendou a European Molecular Biology Organization (Embo), sediada em Heidelberg, na Alemanha.

    A decisão de submeter o projeto à avaliação do público foi tomada em novembro, depois de uma forte reação de editoras e grupos de cientistas. Em sua proposta original, o Plan S condena a publicação de artigos em revistas híbridas, em que os trabalhos ficam disponíveis para assinantes, mas o autor pode pagar uma taxa extra para que seu paper seja divulgado sem restrições na web – essa prática é vista como abusiva. Pesquisadores de várias áreas queixaram-se da perda de liberdade de publicar em periódicos de maior impacto, que na maioria são híbridos (ver Pesquisa FAPESP nº 276).

    As grandes editoras, com exceção da holandesa Elsevier, também divulgaram suas considerações sobre o Plan S. A norte-americana Wiley declarou que o plano vai excluir a maioria das revistas científicas ao impor restrições excessivas e lembrou que já existem muitos caminhos para se publicar em acesso aberto. “O Plan S não defende um modelo específico, mas apenas determina o acesso imediato aos resultados de pesquisa”, disse à Pesquisa FAPESP um dos mentores da iniciativa, o holandês Robert-Jan Smits, conselheiro sênior em Acesso Aberto da Comissão Europeia. “Acreditamos que a iniciativa contribuirá para o surgimento de novos periódicos de acesso aberto com qualidade. Isso ocorrerá gradualmente”, afirma Smits. Uma nova versão do guia de implementação do Plan S deverá ser apresentada ainda no primeiro semestre de 2019.


    Pierro, Bruno de. Reação ao Plan S. Consulta recebe mais de 600 sugestões para mudar estratégia de acesso aberto a artigos científicos. Pesquisa FAPESP,  277.   http://revistapesquisa.fapesp.br/2019/03/14/reacao-ao-plan-s/

     

    Material adicionado: sobre resumos

    Na aba DOCS neste site, uma ajuda para quem começa a escrever seus primeiros resumos para participação em evento científico: uma checagem de aspectos a serem considerados. Logicamente essa checagem antecede o aval do orientador. O link está em  Fazendo o primeiro resumo para um encontro científico. 

    Apresentando a comprovação dos dados lançados no cv Lattes

     

    A entrega da comprovação das informações inseridas no currículo Lattes requer alguns cuidados. Nada de entregar um monte de folhas soltas,  amarradas com barbante. Não é só feio: imagine se o barbante rasga as folhas; se, ao soltar o barbante, o material cai da mesa de trabalho  ou  sopra uma rajada de vento…

    Em geral esse material é avaliado em conjunto pela banca examinadora. A banca faz a colação do que se diz  no Lattes com a documentação comprobatória e preenche uma tabela para a pontuação do material.

    Algumas sugestões:

    • Faça a coindexação da informação no Lattes e de sua comprovação, para facilitar a conferência.
    • Se está no Lattes mas não está comprovado, não pontua. Peça a um colega para testar se está fácil encontrar os documentos comprobatórios das informações prestadas no cv e  se faltam documentos.
    • Se um documento incluído não está ligado a qualquer item na tabela de pontuação,  ele não pontua — veja  se não preencheu mal o cv e está perdendo pontuação.
    • Observe se nos critérios de avaliação de cv há pontuação diferenciada para alguns itens de uma das dimensões da avaliação. Por exemplo: a banca examinadora encontrará facilmente a classificação dos seus artigos no indicador Qualis se houver pontuação diferenciada para isso nos critérios?
    • Veja qual a opção de modelo de currículo para impressão que mais lhe interessa (Resumido, Ampliado, Completo, Personalizado) e as demais opções apresentadas para gerar a impressão. Um exemplo: no modelo de impressão resumido desaparece a informação sobre os congressos serem internacionais ou locais, ficando apenas o título (Apresentação de Trabalho/Outra). Essa diferença conta naquela avaliação?

    Uma sugestão final: mantenha o Lattes sempre atualizado. Desse modo se torna mais difícil esquecer de alguma informação. E arquive organizadamente a comprovação.


     

    Rosa, Maria Carlota. 2018. Para a imagem acadêmica.

     

    A FAPESP lança seu “Plano S”

     

    Entra em vigor nesta semana a Portaria CTA nº 01/2019 da FAPESP  que institui a “Política para Acesso Aberto às Publicações Resultantes de Auxílios e Bolsas FAPESP”, aplicável “à publicação de qualquer artigo ou outro tipo de comunicação científica, que contenha resultados originados de pesquisas apoiadas, parcial ou totalmente, pela FAPESP, em qualquer modalidade de apoio”. 

    A portaria estabelece que “os textos completos de artigos ou outros tipos de comunicação científica, originados de pesquisas e projetos por ela financiados, parcial ou totalmente, e publicados em periódicos internacionais sejam depositados em repositório institucional de trabalhos científicos, seguindo-se a política para disponibilização em acesso aberto de cada revista, logo que os manuscritos sejam aprovados para publicação ou em prazo compatível com as restrições de cada revista”.

    Os repositórios das instituições públicas de ensino superior de São Paulo  — da CRUESP, que congrega USP, Unicamp e Unesp, da UNIFESP e da UFSCAR — ganham mais peso  como vitrine da produção científica de cada universidade pública de São Paulo.

    Leia aqui a íntegra da Portaria.


    FAPESP/ Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo . Portaria CTA Nº 01/2019.

    http://www.fapesp.br/12632?fbclid=IwAR1QVe9sxxDWIWMXTxtCLTChzvhsTaEwSxU2Ce65lQM2-EF_WaQyR0AlcN0.

     

    Livros em acesso aberto

    Estão disponíveis  em acesso aberto,  isto é, sem custos para o leitor e sem infringir alguma lei, bibliotecas de livros de diferentes áreas. Alguns endereços:

    Logo Scielo Livros

    http://books.scielo.org/

     

     

    DOAB      https://www.doabooks.org/

     

    logo internet archive                             https://archive.org/

     

    Logo Biblioteca Nacional Digital                      http://bndigital.bn.gov.br/

    Logo - Brasiliana UFRJ

     

    http://www.brasiliana.com.br/

    Logo BBM                        https://www.bbm.usp.br/

    Logo BNP                   http://purl.pt/index/geral/PT/index.html


    Temas específicos

    Corpus Lexicográfico do Português  http://clp.dlc.ua.pt/DICIweb/default.asp?url=Obras

     

    Material adicionado: “Por que deu essa nota na minha redação?”

     

    Está agora na aba “Sobre” um link para meu primeiro Relatório na UFRJ,  pesquisa desenvolvida entre os anos de 1984 e 1986 sobre avaliação de redações e agora publicada na Confluência – Revista do Instituto de Língua Portuguesa .

    Embora nunca o tivesse publicado antes, Por deu essa nota na minha redação? vem circulando como manuscrito e tem tomado parte na bibliografia de algumas disciplinas de cursos de  licenciatura em Letras — e essa a razão de publicá-lo no formato original (o que explica o emprego de “Primeiro Grau”, por exemplo).

    A alegria foi dupla: de um lado, saber que um texto escrito há cerca de 30 anos ainda desperta interesse; de outro,  poder fazer parte da homenagem ao Professor Evanildo Bechara, concretizada nesse número da revista.


    Rosa, Maria Carlota. 2018. Por que deu essa nota na minha redação? Confluência, 55: 143-161. http://llp.bibliopolis.info/confluencia/rc/index.php/rc/article/view/270/162 

    A “Dra. Anna Fraude”

     

    Uma personagem fictícia, criada por quatro pesquisadores, materializou-se num spam enviado a 360 periódicos científicos.

    Anna-olga-szust
    Anna O. Szust

    Ela se candidatava a editora. Seu nome:  Anna O. Szust, uma brincadeira com a palavra polonesa oszust, ‘fraude’. O perfil criado para a Dra. Anna era fraco: basicamente a tese de doutorado  “Adult females’ (Homo sapiens) born during the spring season are more physically attractive” e capítulos de livros inexistentes  atribuídos a editoras inexistentes. 48 publicações caíram no embuste, sendo que uma  propôs a divisão  do lucro 60-40. O relato dessa experiência por seus autores:

    Sorokowski, Piotr;  Kulczycki, Emanuel; Sorokowska, Agnieszka  Pisanski, Katarzyna. 2017. Predatory journals recruit fake editor.   Nature 543, 481–483 () https://www.nature.com/news/predatory-journals-recruit-fake-editor-1.21662



    Imagem: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anna-olga-szust.jpg

     

    As palavras do ano de 2018 segundo os dicionários Oxford e Merriam-Webster

    Levados em conta o volume de buscas no seu próprio site e o aumento significativo dessa consulta em relação ao ano anterior, famosos dicionários de inglês elegeram palavras diferentes como a palavra do ano 2018. Demonstraram desse modo que as preocupações que predominaram nos EUA e no Reino Unido não foram semelhantes, ao menos no que resultou em consulta a dicionários.

    Para o selo norte-americano Merriam-Webster, JUSTICE foi a palavra do ano de 2018.  https://www.merriam-webster.com/video/2018-word-of-the-year-behind-the-scenes (vídeo em inglês) .

    Já os dicionários Oxford apontaram TOXIC  como a palavra de 2018  https://en.oxforddictionaries.com/word-of-the-year/word-of-the-year-2018

    Em ambos os links,  o emprego de cada uma das palavras (e suas novas combinações) conduz a uma retrospectiva local de 2018.

     

     

    Recebi emails de uma revista internacional desconhecida interessada em que eu dê pareceres para artigos

     

    Há um tipo de spam que se concretiza como uma mensagem lisonjeadora a nosso trabalho e nos convida a publicar numa revista de que nunca se ouviu falar, apesar de alardear um fator de impacto extremamente alto. A publicação quase imediata se faz mediante pagamento de taxas que a mensagem (ou o site do grupo editorial) faz questão de frisar que estão abaixo dos preços de mercado (comentado em Recebi emails de uma revista internacional interessada em publicar minha pesquisa/)

    Esse tipo de caça-níqueis dirigido especificamente a autores acadêmicos vem-se expandindo: aos spams com um convite para publicar num determinado periódico  há  também aqueles que convidam para atuar como  parecerista. Se o filtro de endereços não foi muito bom, podemos  receber uma solicitação de parecer para um trabalho em área muito diferente da nossa, como no exemplo a seguir.

    Peer review convite 2

    Fosse o convite feito para analisar um texto de nossa área, como decidir?

    Bom, há detalhes a considerar em mensagens desse tipo.

    • Uma consulta ao DOAJ/Directory of Open Access Journals retorna o nome da revista? (Mas podia ser uma revista recém-criada, por exemplo).
    • O nome do grupo editorial dessa publicação já aparecia na antiga lista de Beall ? (Mas a lista foi alvo de críticas).
    • Talvez o mais importante: um passeio pelo site do periódico, porque ele nós dá  ideia do que foi publicado: os textos têm qualidade? Os prazos decorridos entre o recebimento do manuscrito e sua publicação contam-se em dias apenas?  Enfatiza a cobrança de taxas abaixo das cobradas no mercado?

    O convite para parecer tinha interesse de fato num parecer?

    Vamos ao exemplo acima. Foi possível rastrear o trabalho mencionado no convite e constatar que entre a data de recebimento do artigo pelos editores, avaliação e publicação na internet  correram apenas 23 dias e £999 (em torno de 5 mil reais); entre o email acima e o final do processo, 11 dias.  

    Respondo a uma mensagem como essa? (Ou : devo responder a um spammer tão amável?)

    Não.

    Um desdobramento indesejável

    Conseguir nomes que aceitem ser associados a uma revista predatória ajuda a revestir de respeitabilidade um negócio eticamente discutível. Mas para quem permitiu ter seu nome associado a um desses periódicos o cenário muda.

    Laine & Winker (2017), em artigo no site da WAME/ World Association of Medical Editors, propunham que “Ideally, academic institutions should also identify academics who are listed as editors or Editorial Board members for journals established as predatory, and require that their affiliation with the institution is removed”. 

    É uma proposta apenas. Mas ilustra o dano à reputação que pode trazer.


    Laine, Christine & Winker Margaret A. Identifying Predatory or Pseudo-Journals. World Association of Medical Editors. February 15, 2017. http://wame.org/identifying-predatory-or-pseudo-journals

    Uma nota

    Estimados alunos e demais leitores:

    Uso uma versão gratuita desta ferramenta de internet. Por isso os leitores das páginas e do blog  veem comerciais variados que eu própria não vejo quando estou logada no site.

    O fato de aparecerem anúncios para os leitores foge a meu controle e este site não é financiado por qualquer empresa.

    Aparentemente o tipo de produto anunciado varia em acordo com as buscas na internet feitas por cada um que acessa o site.