2 – Erro, dados falsos … e a avaliação por especialistas?

 

Como um artigo pode apresentar  dados não confiáveis, não importa a razão,  se, ao ser submetido a um periódico, é encaminhado para análise de mais de um parecerista, todos especialistas na área do trabalho?

Primeiramente porque não se espera a má conduta de um cientista. Nas palavras do Prêmio Nobel de Medicina em 1975, David Baltimore, In science, we assume that a colleague is trustworthy and only in extreme do we doubt it (MIT News, 2002).

A confiança no colega expressa por Baltimore 
é, nesse caso, mais que retórica. 
Durante todo o processo de falsificação de dados 
movido contra Thereza Imanishi-Kari, 
em sequência à publicação em 1986 
de artigo na revista Cell em coautoria, 
ele a defendeu. Imanishi-Kari havia sido denunciada 
pela então pós-doutoranda Margot O'Toole 
que trabalhavam em seu laboratório.
Ao final de um longo processo de cerca de dez anos,  
Thereza Imanishi-Kari foi inocentada.
(Kleves, 1996)

Para Marisa Palácios, do  Conselho Nacional de Saúde/ Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e primeira Coordenadora da CTEP-UFRJ,

a honestidade é pressuposta. É princípio básico do Direito, todos são inocentes até prova em contrário. Isso significa que independente da concepção filosófica que nos oriente, se há uma natureza humana e se ela é boa ou má, se dizer a verdade é um requisito ético para qualquer comunicação científica (código de ética do cientista independente da formalidade disso), então temos razão em dizer que podemos pressupor que todos dizem a verdade. (Comunicação pessoal, 21/07/2015)


Um exemplo de como pode  ser difícil para um parecerista detectar um problema 

Scott Reuben (n.1958), anestesiologista no Baystate Medical Center (BMC-  EUA).

  • Em 2005 ganhou bolsa de US$ 75.000 da Pfizer para estudar o Celebrex (um antiinflamatório que, no Brasil, é vendido como Celebra).
  • Em 2007, editorial de Anesthesia & Analgesia  afirmava que Reuben estava na “forefront of redesigning pain management protocols” e caracterizou seus estudos como  “carefully planned” e “meticulously documented” .

En mayo de 2008, se inició una auditoría interna dentro del BMC, cuando se descubrió que el investigador no había solicitado permiso al Comité Ético Asistencial del hospital para la realización de algunos de los estudios referidos. Como consecuencia de dicha auditoría, el Dr. Scott S. Reuben reconoció finalmente, que los resultados aparecidos en 19 de sus estudios y 2 resúmenes publicados [….], no eran consecuencia de la aplicación de los tratamientos a pacientes reales, sino fruto de su invención y que los datos eran de su responsabilidad exclusiva.

Además de adulterar datos, el Dr. Reuben parece haber cometido falsificación en la publicación, ya que algunos coautores como el Dr. Evan Ekman, cirujano ortopédico, dijo que su nombre apareció como coautor en al menos dos de los artículos de los que las revistas se han retractado, a pesar de que no había tenido ninguna participación en los manuscritos.  (Rama-Maceiras, Ingelmo Ingelmo, Fàbregas Julià & Hernández-Palazón: 2009)

  • Condenado à prisão em 2009 por fabricação de dados ao longo de 15 anos.

His research, which was published in a medical journal, has since been quoted by hundreds of other doctors and researchers as “proof” that Celebrex helped reduce pain during post-surgical recovery. There’s only one problem with all this: No patients were ever enrolled in the study! (Adams, 2010)

  • Quando eclodiu o escândalo, seus trabalhos tinham recebido cerca de 1200 citações.

Retirar a confiança do processo é também atribuir aos pareceristas (e editores, e leitores) um papel que eles não têm, porque “neither the peer reviewers, nor the editors, nor the readers were there as witnesses, so it is up to the authors to certify what took place (Gunsalus & Rennie, 2015).


Referências

Adams, Mark. 2010. Big Pharma researcher admits to faking dozens of research studies for Pfizer, Merck (opinion). Natural News, 18Fev2010.  http://www.naturalnews.com/028194_Scott_Reuben_research_fraud.html#ixzz3g9SYCFAa

Gunsalus, C. K.  & Rennie, Drummond  [2015]. “If you think it’s rude to ask to look at your co-authors’ data, you’re not doing science”: Guest post. Retraction Watch. <http://retractionwatch.com/2015/06/18/if-you-think-its-rude-to-ask-to-look-at-your-co-authors-data-youre-not-doing-science-guest-post/>

Kleves, Daniel J. 1996. The assault on David Baltimore. The New Yorker, 27Maio1996.  http://web.mit.edu/chemistryrcr/Downloads/Baltimore.pdf

MIT News. 2002.  Trust essential in scientific collaboration, says David Baltimore. 22Fev2002. http://news.mit.edu/2002/baltimore

Rama-Maceiras, P. , Ingelmo Ingelmo, I. , Fàbregas Julià, N. & Hernández-Palazón, J. 2009. Algología fraudulenta. Un dolor demasiado profundo para una adecuada analgesia. Revista Española de Anestesiología y Reanimación  56: 372-379, 2009. <http://www.elsevier.es/es-revista-revista-espanola-anestesiologia-reanimacion-344-linkresolver-algologia-fraudulenta-un-dolor-demasiado-90211771 >

Vasconcelos, Sônia M. R. 2007. O plágio na comunidade científica:questões culturais e linguístcas.  Ciência e Cultura, 59 (3): 4-5 Jul/Set. 2007.  http://cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/v59n3/a02v59n3.pdf

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