2 – Vale a pena publicar nessa revista?

Um excerto como

Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are.

claramente não parece saído da obra de um especialista. E de fato não saiu: foi escrito por uma criança de sete anos como trabalho escolar. Os morcegos são muito legais mesmo.

Alexandre Martin (University of Kentucky) diagramou com LaTex esse texto, de seu filho,  e o enviou para o International Journal of Comprehensive Research in Biological Science*, um periódico científico potencialmente predatório segundo a então existente lista de Beall. Procurava demonstrar como é fácil publicar num desses periódicosRearrumado em acordo com as partes canônicas dos artigos científicos (abstract, palavras chaves, introdução, resultados, discussão dos resultados e conclusão), foi aceito.

Mas vamos ao abstract:

Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are“.

Vamos à introdução:

“Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo (see Fig. 1) that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are“.

Bats FigB

Vamos à conclusão:

“Bats are really cool animals! They are the only mammals that can fly. They sleep by day and fly by night. They use Echolocation to find their way around. This is when they send an Echo that does not make any sound and the Echo comes back to the bat and tells them where things are“.

A filiação do autor a uma “elementary school” não foi omitida. Poderia ser um professor dessa escola? A leitura do texto deixa claro que não.

Alexandre Martin disponibilizou em imagens o processo de transformação do texto, da aceitação do manuscrito às provas recebidas do editor. Surge então um outro aspecto grave no processo: as melhorias introduzidas no artigo pelo editor eram cópia exata de trechos de dois trabalhos publicados, em 2001 e em 2002, embora o editor não tenha dado ciência disso ao autor (e por que um especialista precisaria de conteúdo adicionado pelo editor?).

Assim, o trabalho escolar do menino que achava os morcegos legais transformava-se em “Review Article”;  para ser publicado, porém, era exigida a quantia de US$60. Não foi paga, porque  “that last step would have transformed a harmless case-study into a case of severe academic offense” (p.302) e porque “there was no need to potentially tarnish the reputation of a 7-year old by having him published in a non-reputable journal” (p. 302).

Quando um artigo submetido a uma revista é avaliado, 
o autor recebe as avaliações dos pareceristas, 
positivas ou não. 
Se o trabalho foi aceito, o autor é informado se há 
pontos que deve esclarecer quanto ao conteúdo 
e/ou quanto à forma. Mas nunca os editores podem 
se dar ao direito de reescrever um trabalho. Afinal: quem
é o autor?

 

*Nota: A revista parou de ser publicada em 2015, embora ainda haja um site para ela: http://web.archive.org/web/20150611035413/http://ijcrbs.com:80/cissue.php.

 


Referências

Martin, Alexandre & Martin,  Tristan. 2016. A not-so-harmless experiment in predatory open access publishing.   Learned Publishing , 29: 301–305

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