A universidade ainda precisa do professor?

Ao se comemorar mais um Dia do Professor, a pergunta acima faz sentido  face à laudação a propostas de ensino  sem professores e sem livros que vêm surgindo em vários meios de comunicação. Repensar nosso trabalho como professores e o papel da instituição universidade num mundo em que o próprio livro  está em mudança é também parte do nosso trabalho.

O trecho abaixo faz parte da Introdução escrita pelo Professor de Literatura Comparada da UERJ João Cezar de Castro Rocha para Futuro da Universidade, título que faz parte de uma interessante Coleção Universidade, da Editora da UERJ, .

Na passagem do século XVIII para o XIX, muitos chegaram a supor que a figura do professor e mesmo a universidade haviam se tornado um evidente anacronismo. Afinal, por que frequentá-los, se as bibliotecas públicas, os clubes de leitura e as associações de ensino se multiplicavam com rapidez nunca vista? Recordemos que Karl Marx escreveu uma das mais importantes obras de todos os tempos, estimulando muitos a transformar o mundo em lugar de somente interpretá-lo, graças a seu cartão de leitor do “Reading Room” do British Museum. Comodamente instalado no sugestivo salão circular, viajou à roda da história, consultando livros e documentos  necessários para a redação de O capital. Salvo engano, não precisou de vínculo formal com universidade alguma para desenvolver sua pesquisa. Entretanto, dispunha de uma biblioteca que encantaria qualquer personagem de Jorge Luis Borges. 

[….] 

Portanto, ao contrário do que geralmente se acredita, a imprensa se revelou, num primeiro momento, uma séria ameaça à estrutura existente do ensino universitário. A visão do binômio universidade/biblioteca como sendo a imagem de um encontro perfeito somente pôde ser construída a partir da reinvenção do próprio conceito de ensino. Caso contrário, a biblioteca teria tornado a universidade uma curiosa relíquia. Enfrentar esse problema e propor uma solução realmente original foi o mérito maior do projeto preparado por Wilhelm von Humboldt para o Estado da Prússia, e que se revelou decisivo na fundação da Universidade de Berlim, em 1810. Humboldt inventou nada menos do que uma nova pedagogia, capaz de assimilar de forma criativa a tecnologia de informação que parecia condenar irremediavelmente a figura do professor a um triste e lento ocaso.

[….] a ciência é compreendida como um problema que nunca pode ser totalmente resolvido. Portanto, a pesquisa se transforma num esforço infinito. Pelo contrário, na escola a tarefa da instituição se limita à transmissão de conhecimento prontos, ou seja, conhecimentos previamente estabelecidos. Já numa instituição científica superior, o relacionamento entre professores e alunos adquire uma feição completamente nova, pois, neste ambiente, ambos existem em função da ciência.

A engenhosa solução encontrada por Humboldt criou o modelo moderno de universidade, no qual ensino e pesquisa dão-se as mãos, constituindo duas faces da mesma moeda, por assim dizer. Nesse modelo, o professor reencontra uma função nobre: como a pesquisa é um esforço contínuo e literalmente interminável, a presença física do mestre não pode ser substituída por nenhuma tecnologia de informação, tampouco pelo autodidatismo do aluno às voltas com os tesouros da biblioteca.”


Referências

Rocha, João Cezar de Castro. Antes que seja tarde: reflexões sobre o futuro da universidade. In: Casper, Gerhard & Iser, Wolfgang. Futuro da Universidade. Trad. Bluma Waddington Vilar. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2002. p. 22-25