Se não é o leitor … Parte 3: a via dourada

 

Surgidos no século XVII, os periódicos científicos viriam a se firmar como o meio mais utilizado de divulgação de resultados de pesquisa entre pesquisadores .

1665 -dois journals
Os dois primeiros periódicos científicos, surgidos quase ao mesmo tempo, em 1665: Le Journal des Sçavans e Philosophical Transactions (Raichvarg & Jacques, 1991:8) – Imagens: Creative Commons

O papel já substituíra outros suportes e a impressão em papel barateava os custos dos exemplares.

Em fins do século XX o número de periódicos científicos arbitrados por pares, ainda na forma de impressos, já era enorme (em torno de 20.000) e as bibliotecas universitárias (e não só) idealmente deveriam incorporá-los a todos ao acervo. Mas as reclamações sobre a constante elevação de preços começavam a ser ouvidas: um exemplo, University actions against high journal prices (2004).  A crise chegava a bibliotecas que tradicionalmente não tinham problemas financeiros. Nesse contexto, o movimento pelo acesso aberto ganhava força.

O acesso aberto dourado ganha um lado desagradável:  as taxas de publicação ou APCs

As editoras comerciais e algumas sociedades rapidamente incorporaram o modelo AA ao lucrativo modelo de negócios. Surgiam as Article Processing Charges (APCs), cobradas dos autores uma vez aceito um trabalho submetido.

Os valores das APCs  podem ser muito altos, especialmente nas revistas de alguns grupos editoriais. Um exemplo no quadro a seguir.

precario Nature
Em setembro de 2018 o preçário  acima discrimina a APC que o autor deve pagar para publicar um artigo numa das revistas de acesso aberto do grupo Nature. 

 

O absurdo dos valores não se coloca apenas para bolsistas de um programa de pós-graduação. Como notava Nassi-Calò (2016),

“se a taxa de publicação da PLos Biology equivale à metade do salário de um professor assistente nos EUA, na Índia ela equivale a dois meses de salário deste profissional. Soma-se a este fato a restrição de verbas para pesquisa a nível mundial, e o pagamento das APCs por agências de fomento já não é uma solução, mas a continuidade  problema”.

A situação leva ao paradoxo assinalado pelo Prof. Jean-Pierre Guedón, da Universidade de Montreal, numa matéria em Phys.org:

“In almost every country in the world, research is supported by public funds. When researchers publish their results in academic journals, they do so for free. The results are also reviewed by peers for free. And journals often require researchers to give up their rights to these articles. Then, major publishers or learned societies sell their journals at exorbitant prices to libraries… which are also financed by public funds! It’s a vicious circle in which taxpayers pay for the production and access to researchers while publishers and societies make profits of 30-45% before taxes”.

No entanto, mesmo recebendo fundos públicos, algumas revistas passaram a cobrar APC. É o caso, por exemplo, da Revista de Saúde Pública, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo:

apc-rev-saude-publica-e1536373023432.jpg

ou ainda o Brazilian Journal of Medical and Biological Research,  da Associação Brasileira de Divulgação Científica:

APC Braz Journ


Referências

Lavoie, Joanie &  Bérubé, Dominique. 2016. Crisis in academic publishing. Phys.org.  https://phys.org/news/2012-06-crisis-academic-publishing.html

Raichvarg, Daniel & Jacques, Jean. 1991. Savants et ignorants: Une histoire de la vulgarisation des sciences. Paris: Seuil.

Imagens

Le Journal des Sçavans – Autor Desconhecido –  File:1665 journal des scavans title.jpg

By Henry Oldenburg – Philosophical Transactions, CC BY 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=36495651

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